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lentamente as nuvens tomam conta da imensidão azul do céu prometendo saciar a sede da terra árida, dos veios secos dos rios, das árvores que se livram das folhas, da electricidade que concentro em mim.
tu sabes dos meus cabelos que se levantam se tento penteá-los, os meus dedos que faíscam quando toco no carro (hoje, até em cebolas), a roupa que se cola ao corpo, o nariz que dá estalidos quando encosto ao teu.
além de estar a secar, consumo-me no que me rodeia.
eu sei que aquele
queres vir caminhar?
resume-se a 200 ou 300 metros na noite fria, mas vou. ele espera-me junto ao rio e vem como se viesse às escondidas, e talvez venha mesmo.
sentamos?
digo que sim. claro que sentamos. ele não sabe, mas eu trocaria qualquer lugar no melhor restaurante por aquele banco à beira rio, e sentamos. então ele fala, fala, fala, como uma criança que chega a casa ao final do dia de escola e conta as brincadeiras com os colegas, os ralhetes da professora, da menina que o encanta, das asneiras às escondidas, das lições que aprendeu. não se cala, apesar do frio. eu ouço e rio-me. rio com vontade, mesmo. rio pela espontaneidade dele, daquele homem bem mais velho, com responsabilidades políticas e vida social irrepreensível, aparentemente.
é uma criança
penso. e enquanto penso, mostra fotografias, fala da sua juventude, das corridas de automóveis, da vida em coimbra, dos seus amores adúlteros, garantindo-me que não se torna a apaixonar, fala da sua família, da mulher, dos filhos e dos netos.
está frio. posso encostar-me a ti?
podes, mas não acho boa ideia
e ele afasta-se, escondendo as mãos geladas entre as pernas
vais ficar constipado, vamos embora
sim, vamos. dás-me um beijo?
claro que não! que disparate!
ele olha para mim, acabrunhado
fizeste com que fique envergonhado, acho que corei.
eu olho-o com ternura. talvez um dia destes lhe beije os lábios.
eu tenho obstáculos que me impedem de ver, como se fosse um muro, uma muralha - diz-me a mulher doente - são muitos anos, muitas encarnações em que vivemos formatadas, está no nosso adn. é como se tivesse um muro à minha frente e tenho que aprender a contorná-lo - a mulher parece uma metralhadora a falar, tamanha a necessidade de dizer o que sente.
eu não acredito nisso de contornar obstáculos - digo-lhe. e são poucas as pessoas a quem posso dizer as coisas que lhe digo a ela - tens que te projectar para lá deles. ver além do que vês. percebes? assim, vrrruuuummm. atravessá-lo, até, e passar para o outro lado. tu podes. como vais contornar esse muro se nem sabes onde ele termina?
antes de arrancar, a mulher abre a janela do carro e apregoa, para que eu a ouça, do outro lado da rua - empadão de carne! - levanto o meu polegar em sinal de agradecimento, e envio-lhe um sorriso, como quem deseja um dia bom para além do azul que se espraia por todo lado.
ontem, a cena foi igual. quando nos cruzámos, ela sempre apressada e eu sempre com pressa, do carro em andamento, anuncia-me - bacalhau com broa!. já na semana passada, encontrámo-nos na frutaria, e confidenciou-me - hoje só tenho os meninos. hambúrgueres com ovo estrelado e batata frita.
vai-me dando motes para as refeições sempre que me encontra. adivinha, sem o saber, que ando cansada de pensar em cozinha, e, embora eu não siga as indicações que me dá, alegro-me com a sua alegria, de andar a servir aos dias, conciliando os seus dias com os dias deles.
na verdade, eu acho que são os anjos que ma põem no caminho para amaciar o chão que piso.
Nega-me o raciocínio, a capacidade de aceitar o amor que não entendo. O coração não coloca condições e aceita-o como vier, nu, sem preconceitos, sem amarras, sem normas, sem amanhãs. A intuição, essa vive de mão dada com o amor que a acompanha há vidas e do qual tem uma ténue e intermitente lembrança.
desta vez foi o corpo que se quis livrar da alma. costuma ser o inverso, a alma que se desenquadra da vida a que a obriga, e viaja para paragens de onde não traz memórias. mas hoje, a alma aflita a suplicar-lhe descanso, e o corpo num desatino de afazeres que a alma habitualmente rejeita. cortou a corrente da âncora que garante a distância segura, e, diria que, se é a alma que dá vida ao corpo, que carregou uma alma que não era a sua.
- conta-me de ti e dele - ouço a mulher pedir. o que eu sei da mulher é que procura espelhos que a definam, acasos onde por acaso se encontre, e eu falei.
- ele é inteligente, dá-me espaço, não reclama, não exige. senão, não havia eu e ele. um dia ele invadiu, impôs-se, e olha, desapareci. meses e meses. mas quando estou com ele, gosto de estar, é bom, crescemos um com o outro, ou pelo menos, eu cresço com ele. quando não estou com ele, não sinto a sua falta, estou bem, nem me lembro de ter vontade de o encontrar, mas quando encontro, é tão bom outra vez, e parece que temos um íman, porque só estamos bem juntos, o pé dele toca no meu, os joelhos um no outro, falamos disparates ao ouvido, e depois, quando nos separamos...olha, é como quero estar, sem ele. se ele se encontrar por dentro com outra mulher, ficarei feliz mesmo, porque são tantas as mulheres que o desejam, e continuarei a gostar de estar com ele, quando estiver, e a estar ainda melhor, quando estiver longe dele.
o homem-terra olha-me com aquele sorriso de quando não traz o mafarrico com ele, um sorriso assim que lhe faz enternecer os olhos e apoiar-se na baqueta do tambor como se fosse um esteiro de granito
- tu estás bem. mudaste tanto...
diz ele com orgulho e alívio, pois espera nesta encarnação livrar-se finalmente de mim
- já te aturo há tantas vidas...
e eu lembro da primeira vez que olhei para ele como se o tivesse visto na véspera, pobre, roto, vestido de mendigo.
o homem-terra, enquanto passa a mão pelo meu corpo, percebe todos os medos que me acompanham e canta-me uma cantiga com uma linguagem desconhecida que eu reconheço, de tempos que não identifico.
- todos temos medos, dê a vida a volta que der. não te preocupes, tens que entende-los e aprender com eles.
faz-me prometer que descanso, que caminho à beira-mar, e que trago a alma amarrada ao tornozelo para que não me fuja, e suspira
- ai...passas mais tempo lá em cima do que cá em baixo...
chego à conclusão que deus é mulher. fala por sinais, quer que a adivinhemos, que a sintamos, que a entendamos sem que tenha que falar, quando dificulta, é para facilitar, temos que andar eternidades para a encontrar aqui ao lado, cuida enquanto não a vemos, vigia-nos quando adoecemos, nutre-nos, enfeita-se com as cores da época, faz tempestades em copos de água.
só pode ser mulher.
saio a correr para entregar uma encomenda, passo acelerado para lá, passo acelerado para cá, subo os quatro ou cinco degraus da entrada do prédio e desequilibro-me. tenho que me segurar ao varão das escadas. chego cá acima insegura. voltam as memórias de quando não conseguia andar sem me apoiar nas paredes, de quando tinha medo das vertigens, de quando elas começavam durante o sono fazendo com que os sonhos começassem a rodopiar até que eu acordasse assustada.
lembro-me então daquela mulher nova, que caminha vergada com medo de cair, agarrada a uma ponta da camisola do companheiro. caminharia sem aquele insignificante apoio, mas não acredita. 'espera, luís, deixa-me agarrar', 'espera. luís, senão não consigo', 'espera, luís, senão caio'. e o luís espera, e o luís deixa. a mim parece-me que embora o luís esteja ali para ela se apoiar, o luís não está verdadeiramente ali. cansado daquilo, o luís deixa o corpo e parte para o seu mundo.
'ela precisa daquela incapacidade', diz-se dela, 'precisa que cuidem dela, que olhem para ela. por isso recusa-se a andar'. 'precisa, um raio', penso eu agora que estou perante um cagagésimo da dificuldade dela, 'precisa, um raio'. basta um estalar de dedos e tudo treme, tudo cai, tudo desmorona.