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chego à conclusão que deus é mulher. fala por sinais, quer que a adivinhemos, que a sintamos, que a entendamos sem que tenha que falar, quando dificulta, é para facilitar, temos que andar eternidades para a encontrar aqui ao lado, cuida enquanto não a vemos, vigia-nos quando adoecemos, nutre-nos, enfeita-se com as cores da época, faz tempestades em copos de água.
só pode ser mulher.
saio a correr para entregar uma encomenda, passo acelerado para lá, passo acelerado para cá, subo os quatro ou cinco degraus da entrada do prédio e desequilibro-me. tenho que me segurar ao varão das escadas. chego cá acima insegura. voltam as memórias de quando não conseguia andar sem me apoiar nas paredes, de quando tinha medo das vertigens, de quando elas começavam durante o sono fazendo com que os sonhos começassem a rodopiar até que eu acordasse assustada.
lembro-me então daquela mulher nova, que caminha vergada com medo de cair, agarrada a uma ponta da camisola do companheiro. caminharia sem aquele insignificante apoio, mas não acredita. 'espera, luís, deixa-me agarrar', 'espera. luís, senão não consigo', 'espera, luís, senão caio'. e o luís espera, e o luís deixa. a mim parece-me que embora o luís esteja ali para ela se apoiar, o luís não está verdadeiramente ali. cansado daquilo, o luís deixa o corpo e parte para o seu mundo.
'ela precisa daquela incapacidade', diz-se dela, 'precisa que cuidem dela, que olhem para ela. por isso recusa-se a andar'. 'precisa, um raio', penso eu agora que estou perante um cagagésimo da dificuldade dela, 'precisa, um raio'. basta um estalar de dedos e tudo treme, tudo cai, tudo desmorona.
onde ele via a imensidão do mar, eu via a infinitude do céu.
o homem que caminha comigo à beira-rio conta-me das suas propriedades, pega na minha mão para verificar se está fria, faz-me ver que o meu futuro não será, de todo, risonho e convida-me para visitar o seu escritório. quiçá, tomar um café com ele.
todos os dias eu penso que tem que haver algo, nestas 24 horas, sobre o qual valha a pena escrever, e hoje, fica-me a esperança de que o príncipe herdeiro da arábia saudita traga melhores dias ao médio oriente.
estou a secar, parece-me.
com as mãos em posição de prece, envia um pedido para que ajudem a que o que vai fazer, seja feito de forma desinteressada, apenas pelo bem dele, sem desejo de retorno ou reconhecimento.
durante o tempo todo que aquilo dura, é repetidamente levada para aquele lugar, como se fosse sugada pela porta aberta de um avião em pleno voo. tudo lhe é assustadoramente familiar com nitidez, os corredores, os trajes, os olhares, a cumplicidade. não fosse a âncora amarrada aos pés da cama, poderia nem ter voltado e ter ficado assim num mundo paralelo, ao lado dele.
pela manhã, olhou ara o telemóvel, e resmungou 'que merda. duplamente merda'. não conseguira colocar a expectativa de lado.
era nele que eu descansava o peso dos dias. nele que has been visible just for a few minutes after sunrise and only a few degrees above the horizon e que depois desaparecia sem deixar rasto. naqueles breves momentos em que podia ser criança outra vez e a vida deixava de ser esta coisa tão séria para a frente e tão irremediável para trás, trocávamos conversas pouco edificantes. falávamos de insignificâncias como o bater das asas de uma borboleta, o saltitar ansioso dos pardais, o rio que se insinua na rampa lodosa da doca do cais, concedendo-lhe frescura outra vez, as pequenas algas secas na marca da rebentação das ondas, onde a maré vazante deixa a sua marca. mas não lhe chegou. ele queria miócitos satisfeitos em carnes inatingiveis, rastos de cometa em direcção ao infinito, esse ponto de encontro reservado aos imortais.
dizei-lhe que eu imortalizo-me nas coisas simples.
assisto.
julga-se o seduzido, sedutor, enquanto a sedutora seduzida joga o jogo de o deixar julgar-se sedutor, até, no limite, se render, seduzida, pelo sedutor seduzido.
olhando para o telemóvel, a mulher lê para que eu a ouça:
um grupo junta-se para pedir que chova e apenas uma criança leva um guarda-chuva. a isso chama-se fé.
um pai atira o filho bebé ao ar, para o apanhar de seguida, e o bebé ri. a isso chama-se confiança.
adormecemos sem saber se acordamos na manhã seguinte, e mesmo assim ligamos o despertador. a isso chama-se esperança.
o sol nasce por detrás das árvores tornando as folhas douradas e eu daqui brinco de elas serem de ouro só para mim nesta manhã de domingo. ao meu lado, ele ouve com imensa generosidade e condescendência a minha forma aluada de sentir e recordar coisas que ele não me viu viver. está a crescer, a lua, viste ontem? tão finininha, tão fininha... depois falo-lhe das pegadas que a sua alma deixou naquele granito antigo e ele acarinha-me com a atenção que se concede à imaginação de uma criança. eu deixo. enchem-se-me os olhos de lágrimas e faço-me menina outra vez. abrigo-me nele. afinal é domingo.