quarta-feira, 25 de outubro de 2017

atmanjali

























com as mãos em posição de prece, envia um pedido para que ajudem a que o que vai fazer, seja feito de forma desinteressada, apenas pelo bem dele, sem desejo de retorno ou reconhecimento. 
durante o tempo todo que aquilo dura, é repetidamente levada para aquele lugar, como se fosse sugada pela porta aberta de um avião em pleno voo. tudo lhe é assustadoramente familiar com nitidez, os corredores, os trajes, os olhares, a cumplicidade. não fosse a âncora amarrada aos pés da cama, poderia nem ter voltado e ter ficado assim num mundo paralelo, ao lado dele.
pela manhã, olhou ara o telemóvel, e resmungou 'que merda. duplamente merda'. não conseguira colocar a expectativa de lado.









panstarrs













era nele que eu descansava o peso dos dias. nele que has been visible just for a few minutes after sunrise and only a few degrees above the horizon e que depois desaparecia sem deixar rasto. naqueles breves momentos em que podia ser criança outra vez e a vida deixava de ser esta coisa tão séria para a frente e tão irremediável para trás, trocávamos conversas pouco edificantes. falávamos de insignificâncias como o bater das asas de uma borboleta, o saltitar ansioso dos pardais, o rio que se insinua na rampa lodosa da doca do cais, concedendo-lhe frescura outra vez, as pequenas algas secas na marca da rebentação das ondas, onde a maré vazante deixa a sua marca. mas não lhe chegou. ele queria miócitos satisfeitos em carnes inatingiveis, rastos de cometa em direcção ao infinito, esse ponto de encontro reservado aos imortais. 

dizei-lhe que eu imortalizo-me nas coisas simples.











terça-feira, 24 de outubro de 2017

seducĕre








assisto.
julga-se o seduzido, sedutor, enquanto a sedutora seduzida joga o jogo de o deixar julgar-se sedutor, até, no limite, se render, seduzida, pelo sedutor seduzido.









segunda-feira, 23 de outubro de 2017

tempo








o tempo da minha vida assemelha-se mais a uma fuga que a uma sementeira. todos os dias as palavras de tolentino mendonça ecoam no meu pensamento, com o cansaço do final do dia, com a esperança ao amanhecer, com as sobras das horas antes de deitar.










do you like you?























domingo, 22 de outubro de 2017

do telemóvel








olhando para o telemóvel, a mulher lê para que eu a ouça:

um grupo junta-se para pedir que chova e apenas uma criança leva um guarda-chuva. a isso chama-se fé.
um pai atira o filho bebé ao ar, para o apanhar de seguida, e o bebé ri. a isso chama-se confiança.
adormecemos sem saber se acordamos na manhã seguinte, e mesmo assim ligamos o despertador. a isso chama-se esperança.













por ser domingo


























o sol nasce por detrás das árvores tornando as folhas douradas e eu daqui brinco de elas serem de ouro só para mim nesta manhã de domingo. ao meu lado, ele ouve com imensa generosidade e condescendência a minha forma aluada de sentir e recordar coisas que ele não me viu viver. está a crescer, a lua, viste ontem? tão finininha, tão fininha... depois falo-lhe das pegadas que a sua alma deixou naquele granito antigo e ele acarinha-me com a atenção que se concede à imaginação de uma criança. eu deixo. enchem-se-me os olhos de lágrimas e faço-me menina outra vez. abrigo-me nele. afinal é domingo.


















sábado, 21 de outubro de 2017

o jardim











a mulher parou no meio do jardim do claustro. parecia que aguardava alguém, mas na verdade já estava acompanhada. na sua mão demorava-se a sensação morna de outra pele, de outra mão na sua.
- já fui feliz aqui - murmurou de olhos cerrados, prolongando todos os minutos possíveis naquele recuar de tempo tão antigo.
a vida fora dela esperava-a. os amigos que assistiam ao render da guarda, os grupos de estrangeiros que seguiam guias que falavam um inglês tosco, as andorinhas dentro das capelas num esvoaçar alegre de boas vindas, os túmulos dos reis que não lhe interessavam para nada, a pomba de leque branca que teimava em não voar. e ela, ali, de mão dada à oportunidade de reviver um amor invisível por fora, rejeitando o calor do amor que lhe ofereciam.
que estava louca, era o que diziam alguns. 
quando regressar, irá lavar as memórias do futuro que não viverá nas pedras lodosas do rio, até que o cansaço a adormeça.

















sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Paula










a Paula resolveu interromper o blogue, e isto da interrupção sou eu que digo, porque a Paula diz que chegou ao fim, entendi eu. ora, eu já tinha prometido a mim mesma que não me importaria mais com os blogues que acabam e recomeçam, que interrompem e retomam, afinal de conta são só blogues e páginas escritas por figuras anónimas. mas pronto, eu tanto digo como desdigo.

eu leio blogues porque de alguma forma me acrescentam, na forma como são escritos, no que me ensinam, pela poesia, pela cultura, pelo humor, pela sensualidade, pela frontalidade, pela espontaneidade, pelo exemplo, pela vida real que mostram, por tudo.

mas a Paula humaniza-me. quantas vezes encontrei nas palavras da Paula o conforto para as minhas fragilidades, lucidez para as minhas dúvidas, o poema que precisava de ler, a melodia que precisava ouvir, a alegria em dias tristes, os meus sentimentos espelhados nas linhas que ela escreve, o mundo pelos olhos dela. 

num pequeno livro chamado Ajudar a cair, está descrita uma buganvília que 'refresca todos sem que lhe possamos agradecer, fora da memória, como um favor gratuito que já ninguém se lembra de quem terá plantado'. se a Paula fosse uma planta, seria esta buganvília, certamente. 








fim-de-semana








o homem-criança sobe as escadas do prédio desabotoando a camisa branca, pousa a mochila no chão da sala, deixa cair o blazer, desfaz-se do cinto e deixa escorregar as calças, bamboleia-se enquanto diz 'fim-de-semana!.