segunda-feira, 23 de outubro de 2017

domingo, 22 de outubro de 2017

do telemóvel








olhando para o telemóvel, a mulher lê para que eu a ouça:

um grupo junta-se para pedir que chova e apenas uma criança leva um guarda-chuva. a isso chama-se fé.
um pai atira o filho bebé ao ar, para o apanhar de seguida, e o bebé ri. a isso chama-se confiança.
adormecemos sem saber se acordamos na manhã seguinte, e mesmo assim ligamos o despertador. a isso chama-se esperança.













por ser domingo


























o sol nasce por detrás das árvores tornando as folhas douradas e eu daqui brinco de elas serem de ouro só para mim nesta manhã de domingo. ao meu lado, ele ouve com imensa generosidade e condescendência a minha forma aluada de sentir e recordar coisas que ele não me viu viver. está a crescer, a lua, viste ontem? tão finininha, tão fininha... depois falo-lhe das pegadas que a sua alma deixou naquele granito antigo e ele acarinha-me com a atenção que se concede à imaginação de uma criança. eu deixo. enchem-se-me os olhos de lágrimas e faço-me menina outra vez. abrigo-me nele. afinal é domingo.


















sábado, 21 de outubro de 2017

o jardim











a mulher parou no meio do jardim do claustro. parecia que aguardava alguém, mas na verdade já estava acompanhada. na sua mão demorava-se a sensação morna de outra pele, de outra mão na sua.
- já fui feliz aqui - murmurou de olhos cerrados, prolongando todos os minutos possíveis naquele recuar de tempo tão antigo.
a vida fora dela esperava-a. os amigos que assistiam ao render da guarda, os grupos de estrangeiros que seguiam guias que falavam um inglês tosco, as andorinhas dentro das capelas num esvoaçar alegre de boas vindas, os túmulos dos reis que não lhe interessavam para nada, a pomba de leque branca que teimava em não voar. e ela, ali, de mão dada à oportunidade de reviver um amor invisível por fora, rejeitando o calor do amor que lhe ofereciam.
que estava louca, era o que diziam alguns. 
quando regressar, irá lavar as memórias do futuro que não viverá nas pedras lodosas do rio, até que o cansaço a adormeça.

















sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Paula










a Paula resolveu interromper o blogue, e isto da interrupção sou eu que digo, porque a Paula diz que chegou ao fim, entendi eu. ora, eu já tinha prometido a mim mesma que não me importaria mais com os blogues que acabam e recomeçam, que interrompem e retomam, afinal de conta são só blogues e páginas escritas por figuras anónimas. mas pronto, eu tanto digo como desdigo.

eu leio blogues porque de alguma forma me acrescentam, na forma como são escritos, no que me ensinam, pela poesia, pela cultura, pelo humor, pela sensualidade, pela frontalidade, pela espontaneidade, pelo exemplo, pela vida real que mostram, por tudo.

mas a Paula humaniza-me. quantas vezes encontrei nas palavras da Paula o conforto para as minhas fragilidades, lucidez para as minhas dúvidas, o poema que precisava de ler, a melodia que precisava ouvir, a alegria em dias tristes, os meus sentimentos espelhados nas linhas que ela escreve, o mundo pelos olhos dela. 

num pequeno livro chamado Ajudar a cair, está descrita uma buganvília que 'refresca todos sem que lhe possamos agradecer, fora da memória, como um favor gratuito que já ninguém se lembra de quem terá plantado'. se a Paula fosse uma planta, seria esta buganvília, certamente. 








fim-de-semana








o homem-criança sobe as escadas do prédio desabotoando a camisa branca, pousa a mochila no chão da sala, deixa cair o blazer, desfaz-se do cinto e deixa escorregar as calças, bamboleia-se enquanto diz 'fim-de-semana!.











quinta-feira, 19 de outubro de 2017

corro


























então como uma criança habituada a que lhe digam que faz tudo errado, corro para ele. é a ele que volto sempre que me parece que o mundo vai ficar grande demais para mim. à beira do precipício do medo, peço-lhe amparo de todas as formas desfeitas que sei - um bom dia, um está a chover, um fica bem, um volto já - e ele ampara-me de todas as formas que lhe é possível - abre os braços em concha, faz borboletas com as palavras, sussurra flores à minha volta, planta-me raízes nos pés, e constrói pontes sem margens










quarta-feira, 18 de outubro de 2017

acordo









a mulher sentada no chão fala da sua relação com o antigo companheiro e diz que está consciente de que no tempo em que esteve com ele, ele não cresceu, que se recusa ter mais do que 12 anos, que agora que está doente, ele não está ao seu lado, e, que sabe que não pode esperar nada dele no futuro. garante ela, que tem sido assim ao longo de todas vidas em que se cruzaram. mesmo assim, diz ela, não consegue deixar de o querer. ela queria que ele concluísse as suas conclusões, que aceitasse as suas aceitações, que coincidisse nas suas esperanças e que o seu afecto acontecesse na sua carência. mas não é assim. vivem desencontrados de tempo, de quereres, de interesses, de vidas. ele seguindo a dele, ela abafando uma esperança.
mas sabendo ela que assim é, não sabe o porquê de assim ser. eu, que ouço os seus dizeres, esperava uma explicação para o meu sentir, que sabendo que não tem sustento, não sei porque persiste.
quem primeiro tiver uma resposta e uma solução inabalável, partilhará com a outra.












não há bela sem senão








e é sobre as aves que falo.
a ave canora voltou. aliás são vários os trinados que ouço desde madrugada, quer do lado nascente, quer do lado poente deste lugar onde moro, levando-me a pensar que são várias as aves canoras. fazem-me companhia nas horas silenciosas da insónia, e estão comigo enquanto tomo o pequeno almoço. talvez tenham vindo anunciar o outono, essa normalidade tardia que o meu corpo tanto ansiava.
os pardais vêem aos bandos. acreditem. no início eram migalhas, contentavam-se com elas, e eram discretos e amedrontados. mais tarde ofereci-lhes aveia, e, com eles vieram os melros, aves madrugadoras, pousam na varanda ainda de noite e aguardam a refeição da manhã. quando o dia clareia chegam os pardais, cheios de manhas e esquisitices. escolhem os flocos que mais gostam e rejeitam os outros, atirando-os para o chão, o que, agora com esta chuvinha, forma uma pasta pegajosa e castanha da poeira que andou no ar. e isto às dezenas, e a acrescentar a isto, o descontrolo intestinal dos ditos.
então é assim - se não lhes disponibilizar alimento, plantam-se nos varões à espera e sujam tudo. se o fizer, plantam-se nos varões e sujam tudo.
as gaivotas e as pêgas riem-se ao longe do que se passa aqui. penso até que é vingança planeada por elas por não as deixar frequentar a varanda.
valha-me o canto do desconhecido.

[e isto tudo para afastar aquele post em que falava de sexo]












segunda-feira, 16 de outubro de 2017

o outro desassossego de dona fernanda










dona fernanda só sente o corpo dar-lhe tréguas enquanto ouve o ave maria. ultimamente nem quer precisar se o mal que lhe vem é do corpo, se é do espírito. o que sabe é que o ar lhe falta, o coração pontapeia e o barulho é tanto dentro da cabeça dela, que frequentemente tapa os ouvidos para tentar perceber se é do exterior ou do interior. diz ela que pode ser dos fieis. e a agravar os fieis as desgraças todas que se acumulam por aí.
- sabe vizinha, esta altura dos fieis, em que as energias andam mais cá por baixo...a vizinha não sabe, mas é um desajuste no corpo que nos confunde tudo.
a vizinha, eu aqui, não sabe, mas ouço-a. sou das raras pessoas com quem ela pode falar o que sente, o que pensa.
então, a dona fernanda anda recolhida. sai de casa apenas o absolutamente necessário. vai para o emprego, o que, diz ela, é um suplicio, vai às compras e carrega tudo por junto para evitar as idas ao supermercado, e até caminhar é para ela um esforço hercúleo, como se lhe agarrassem as pernas.
quando entro em casa dela (pois já que moisés não vai à montanha...), ouve-se o ave maria de schubert. e eu gosto. mas logo de seguida, outra e outra e outra versão, de bach, do roberto carlos, da beyoncé, bebel gilberto, celtic woman... sei lá o que mais. dona fernanda tem uma play list de avé marias, e pede-me mais, mais avé marias, diz-me que só assim sossega aquela parte que vive nela mas não reconhece como sendo ela.