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então como uma criança habituada a que lhe digam que faz tudo errado, corro para ele. é a ele que volto sempre que me parece que o mundo vai ficar grande demais para mim. à beira do precipício do medo, peço-lhe amparo de todas as formas desfeitas que sei - um bom dia, um está a chover, um fica bem, um volto já - e ele ampara-me de todas as formas que lhe é possível - abre os braços em concha, faz borboletas com as palavras, sussurra flores à minha volta, planta-me raízes nos pés, e constrói pontes sem margens
a mulher sentada no chão fala da sua relação com o antigo companheiro e diz que está consciente de que no tempo em que esteve com ele, ele não cresceu, que se recusa ter mais do que 12 anos, que agora que está doente, ele não está ao seu lado, e, que sabe que não pode esperar nada dele no futuro. garante ela, que tem sido assim ao longo de todas vidas em que se cruzaram. mesmo assim, diz ela, não consegue deixar de o querer. ela queria que ele concluísse as suas conclusões, que aceitasse as suas aceitações, que coincidisse nas suas esperanças e que o seu afecto acontecesse na sua carência. mas não é assim. vivem desencontrados de tempo, de quereres, de interesses, de vidas. ele seguindo a dele, ela abafando uma esperança.
mas sabendo ela que assim é, não sabe o porquê de assim ser. eu, que ouço os seus dizeres, esperava uma explicação para o meu sentir, que sabendo que não tem sustento, não sei porque persiste.
quem primeiro tiver uma resposta e uma solução inabalável, partilhará com a outra.
e é sobre as aves que falo.
a ave canora voltou. aliás são vários os trinados que ouço desde madrugada, quer do lado nascente, quer do lado poente deste lugar onde moro, levando-me a pensar que são várias as aves canoras. fazem-me companhia nas horas silenciosas da insónia, e estão comigo enquanto tomo o pequeno almoço. talvez tenham vindo anunciar o outono, essa normalidade tardia que o meu corpo tanto ansiava.
os pardais vêem aos bandos. acreditem. no início eram migalhas, contentavam-se com elas, e eram discretos e amedrontados. mais tarde ofereci-lhes aveia, e, com eles vieram os melros, aves madrugadoras, pousam na varanda ainda de noite e aguardam a refeição da manhã. quando o dia clareia chegam os pardais, cheios de manhas e esquisitices. escolhem os flocos que mais gostam e rejeitam os outros, atirando-os para o chão, o que, agora com esta chuvinha, forma uma pasta pegajosa e castanha da poeira que andou no ar. e isto às dezenas, e a acrescentar a isto, o descontrolo intestinal dos ditos.
então é assim - se não lhes disponibilizar alimento, plantam-se nos varões à espera e sujam tudo. se o fizer, plantam-se nos varões e sujam tudo.
as gaivotas e as pêgas riem-se ao longe do que se passa aqui. penso até que é vingança planeada por elas por não as deixar frequentar a varanda.
valha-me o canto do desconhecido.
[e isto tudo para afastar aquele post em que falava de sexo]
dona fernanda só sente o corpo dar-lhe tréguas enquanto ouve o ave maria. ultimamente nem quer precisar se o mal que lhe vem é do corpo, se é do espírito. o que sabe é que o ar lhe falta, o coração pontapeia e o barulho é tanto dentro da cabeça dela, que frequentemente tapa os ouvidos para tentar perceber se é do exterior ou do interior. diz ela que pode ser dos fieis. e a agravar os fieis as desgraças todas que se acumulam por aí.
- sabe vizinha, esta altura dos fieis, em que as energias andam mais cá por baixo...a vizinha não sabe, mas é um desajuste no corpo que nos confunde tudo.
a vizinha, eu aqui, não sabe, mas ouço-a. sou das raras pessoas com quem ela pode falar o que sente, o que pensa.
então, a dona fernanda anda recolhida. sai de casa apenas o absolutamente necessário. vai para o emprego, o que, diz ela, é um suplicio, vai às compras e carrega tudo por junto para evitar as idas ao supermercado, e até caminhar é para ela um esforço hercúleo, como se lhe agarrassem as pernas.
quando entro em casa dela (pois já que moisés não vai à montanha...), ouve-se o ave maria de schubert. e eu gosto. mas logo de seguida, outra e outra e outra versão, de bach, do roberto carlos, da beyoncé, bebel gilberto, celtic woman... sei lá o que mais. dona fernanda tem uma play list de avé marias, e pede-me mais, mais avé marias, diz-me que só assim sossega aquela parte que vive nela mas não reconhece como sendo ela.
surpreende-me a voz da escritora a recitar o poema, e de repente, o que segundos antes eu tinha lido, perde o efeito que tinha provocado em mim. não é a primeira vez que me acontece que a voz ou a imagem do autor alterem a percepção que tenho do que foi escrito. como se o que leio tomasse a forma e o significado que eu lhe dou, e não o propósito do autor ao escrever o texto.
[agora fiquei a pensar nisto aqui nos blogues...]
chegamos a casa, pousamos no chão da cozinha os sacos de compras do supermercado com os ingredientes que ele precisa para fazer o almoço. a casa está fresca, contrastando com o calor absurdo que sente lá fora. digo-lhe
- que bom. agora vou ouvir as minhas ave marias todas
- não mãe, por favor. ainda por cima sou eu que vou cozinhar. vamos ouvir antes a minha ave maria...
- qual?
- os pearl jam no keep on rocking in the free world
é o que se ouve agora, em vez de bach e schubert, e não é propriamente o que mais me acalma, a não ser que dance.
talvez tenha sido um sonho, mas o homem encostou a sua testa na minha, e por entre o cheiro a tabaco que exalava da boca, murmurou na sua voz grave e rouca, 'além do amor que dás, do amor que te dás, do amor que te permites receber e do amor que cura, há o amor que respeitas no outro. percebeste? não brinques'.
reclamei. aliás, andava já há muito tempo a reclamar. todos os viam, todos os ouviam. eles falavam, abraçavam, acolhiam, guiavam, e ele, comigo, nada. então reclamei. reclamei que não o via, que não o ouvia, que não lhe tocava, que não me guiava, que não me orientava. reclamei. reclamei de tudo. então, contornando-me, cobrindo-me pelos ombros, vestiu-me dele, e sussurrou-me 'não tens que me ver, nem ouvir, nem falar, nem tocar. não tenho que te guiar nem orientar. tens apenas que me sentir, e entender o que sentes'. de seguida, mergulhou-me no centro do sol e eu perguntei para quê, para quê o fogo, para quê o sul. ''entusiasmo', o fogo traz-te entusiasmo, e o entusiasmo te ajudará a caminhar, a cada dia queimará o desnecessário e todos os dias te fará renascer'.
a mulher que andava em círculos dentro de um labirinto, dirigiu o olhar para o interior de si e viu o lugar onde os lagos reflectem o céu. das lágrimas, nasceram-lhe asas e voou para lá dos muros. lá em baixo, à medida que a figura geométrica se distanciava, definiam-se os contornos do peito de um homem, tal como uma enseada, onde ela se ancorara em fundo lodoso. sabia que voltaria a ele nos dias chuvosos em que as águas se tornam cheias e as marés galgam as pedras, sedentas de arrepio.
não é nada disso! gritava deus a moisés, que corria desenfreadamente com as tábuas debaixo do braço, pela montanha abaixo. não é nada disso! é só um! não desperdiçarás a tua vida, nem a dos outros, nada mais!. mas moisés achava pouco, não poderia deixar a consciência dos homens livre para decidir, e escreveu uma lista de dez mandamentos.