surpreende-me a voz da escritora a recitar o poema, e de repente, o que segundos antes eu tinha lido, perde o efeito que tinha provocado em mim. não é a primeira vez que me acontece que a voz ou a imagem do autor alterem a percepção que tenho do que foi escrito. como se o que leio tomasse a forma e o significado que eu lhe dou, e não o propósito do autor ao escrever o texto. [agora fiquei a pensar nisto aqui nos blogues...]
chegamos a casa, pousamos no chão da cozinha os sacos de compras do supermercado com os ingredientes que ele precisa para fazer o almoço. a casa está fresca, contrastando com o calor absurdo que sente lá fora. digo-lhe - que bom. agora vou ouvir as minhas ave marias todas - não mãe, por favor. ainda por cima sou eu que vou cozinhar. vamos ouvir antes a minha ave maria... - qual? - os pearl jam no keep on rocking in the free world é o que se ouve agora, em vez de bach e schubert, e não é propriamente o que mais me acalma, a não ser que dance.
talvez tenha sido um sonho, mas o homem encostou a sua testa na minha, e por entre o cheiro a tabaco que exalava da boca, murmurou na sua voz grave e rouca, 'além do amor que dás, do amor que te dás, do amor que te permites receber e do amor que cura, há o amor que respeitas no outro. percebeste? não brinques'.
reclamei. aliás, andava já há muito tempo a reclamar. todos os viam, todos os ouviam. eles falavam, abraçavam, acolhiam, guiavam, e ele, comigo, nada. então reclamei. reclamei que não o via, que não o ouvia, que não lhe tocava, que não me guiava, que não me orientava. reclamei. reclamei de tudo. então, contornando-me, cobrindo-me pelos ombros, vestiu-me dele, e sussurrou-me 'não tens que me ver, nem ouvir, nem falar, nem tocar. não tenho que te guiar nem orientar. tens apenas que me sentir, e entender o que sentes'. de seguida, mergulhou-me no centro do sol e eu perguntei para quê, para quê o fogo, para quê o sul. ''entusiasmo', o fogo traz-te entusiasmo, e o entusiasmo te ajudará a caminhar, a cada dia queimará o desnecessário e todos os dias te fará renascer'.
a mulher que andava em círculos dentro de um labirinto, dirigiu o olhar para o interior de si e viu o lugar onde os lagos reflectem o céu. das lágrimas, nasceram-lhe asas e voou para lá dos muros. lá em baixo, à medida que a figura geométrica se distanciava, definiam-se os contornos do peito de um homem, tal como uma enseada, onde ela se ancorara em fundo lodoso. sabia que voltaria a ele nos dias chuvosos em que as águas se tornam cheias e as marés galgam as pedras, sedentas de arrepio.
não é nada disso! gritava deus a moisés, que corria desenfreadamente com as tábuas debaixo do braço, pela montanha abaixo. não é nada disso! é só um! não desperdiçarás a tua vida, nem a dos outros, nada mais!. mas moisés achava pouco, não poderia deixar a consciência dos homens livre para decidir, e escreveu uma lista de dez mandamentos.
dele, eu quero que seja terra. terra arável. e se não for arável, quero arrancar as ervas daninhas com as mãos, fundo, com dedos e unhas e tudo, e sentir as raízes a soltarem-se do solo teimoso, e torná-lo macio, e fértil. quero semear nele, e plantar e colher. ao semear, quero poder demorar-me em cada estação e descansar no pousio em que ele procura, também, acolhimento. sendo ele terra arada, quero correr por ele afora e enterrar o meu corpo todo e ficar com o perfume da vida colado na pele, que é o aroma que exala dele também. eu quero que ele seja terra e nele enraizar-me e fazer dele meu abrigo, meu alimento, meu lar, e eu dele, razão de ser. dormirei nele, e ele em mim. ele, por todo o lado, eu, em todos os poros dele.
é com urgência que chego ao mar e inspiro. inspiro o perfume imenso da maresia que afaga todo o azul manso de que se veste hoje o dia. inspiro como o afogado que, sufocado, emerge à tona. inspiro a água salgada, as algas, os pés frescos pisando a areia, os peixes, as gaivotas que me sobrevoam. inspiro o corpo consciente de cada milímetro de pele, de cada poro, de toda vida. inspiro como quem regressa a casa, ao abraço de onde nunca devia ter saído.
apresso-me em tudo o que tenho que fazer para poder estar às oito horas no espaço onde tenho aulas de yoga. depois de torções e exercícios de equilíbrio, que para mim são um desafio, por ser tão desequilibrada, vem o momento do relaxamento, a postura do cadáver. são cerca de dez minutos em que, embora a professora fale, oriente uma espécie de meditação, eu desligo-me de tudo e sou só eu. é aí que mergulho em mim, é aí que eu descanso. acho que correria o dia todo para chegar àqueles dez minutos.
a ana é tão castiça! diz a mulher sentada à minha frente, enquanto conversamos. apelida-me de castiça. não se cansa de me chamar castiça. francamente filipa! se o quer, seja manhosa! e aqui vem outro castiça emoldurado numa expressão de espanto. sabe o que se diz sobre as raposas terem a manha de sete mulheres e as mulheres a de sete raposas? pois ora... a mulher, que tem cerca de trinta e cinco anos e um rosto bonito, olha para mim receosa. por um breve instante pondero se devo continuar, mas ela por vezes enerva-me, noutras alturas comove-me. caramba, nós somos mulheres, sabemos como fazê-lo. insinue-se e recue, seja inteligente e bem humorada, quando ele estiver convencido de que a tem, mostre-lhe que não é assim. não se lamente, mostre-lhe que a vida pode ser leve, e não se ofereça, sobretudo não se ofereça, ele que não pense que a tem na mão. emudecida, a mulher olha, ora para mim, ora para o telemóvel na esperança de uma mensagem dele. pensa ela que é com roupas sofisticadas e quilos de maquilhagem na cara que o há-de conquistar. eu, conto o tempo que me sobra para preparar o jantar, olho para aquele nome online que me poderia ser tão útil, e penso nos prós e nos contras de aplicar o que digo à outra. tivesse eu, pelo menos, a manha da raposa...