reclamei. aliás, andava já há muito tempo a reclamar. todos os viam, todos os ouviam. eles falavam, abraçavam, acolhiam, guiavam, e ele, comigo, nada. então reclamei. reclamei que não o via, que não o ouvia, que não lhe tocava, que não me guiava, que não me orientava. reclamei. reclamei de tudo. então, contornando-me, cobrindo-me pelos ombros, vestiu-me dele, e sussurrou-me 'não tens que me ver, nem ouvir, nem falar, nem tocar. não tenho que te guiar nem orientar. tens apenas que me sentir, e entender o que sentes'. de seguida, mergulhou-me no centro do sol e eu perguntei para quê, para quê o fogo, para quê o sul. ''entusiasmo', o fogo traz-te entusiasmo, e o entusiasmo te ajudará a caminhar, a cada dia queimará o desnecessário e todos os dias te fará renascer'.
a mulher que andava em círculos dentro de um labirinto, dirigiu o olhar para o interior de si e viu o lugar onde os lagos reflectem o céu. das lágrimas, nasceram-lhe asas e voou para lá dos muros. lá em baixo, à medida que a figura geométrica se distanciava, definiam-se os contornos do peito de um homem, tal como uma enseada, onde ela se ancorara em fundo lodoso. sabia que voltaria a ele nos dias chuvosos em que as águas se tornam cheias e as marés galgam as pedras, sedentas de arrepio.
não é nada disso! gritava deus a moisés, que corria desenfreadamente com as tábuas debaixo do braço, pela montanha abaixo. não é nada disso! é só um! não desperdiçarás a tua vida, nem a dos outros, nada mais!. mas moisés achava pouco, não poderia deixar a consciência dos homens livre para decidir, e escreveu uma lista de dez mandamentos.
dele, eu quero que seja terra. terra arável. e se não for arável, quero arrancar as ervas daninhas com as mãos, fundo, com dedos e unhas e tudo, e sentir as raízes a soltarem-se do solo teimoso, e torná-lo macio, e fértil. quero semear nele, e plantar e colher. ao semear, quero poder demorar-me em cada estação e descansar no pousio em que ele procura, também, acolhimento. sendo ele terra arada, quero correr por ele afora e enterrar o meu corpo todo e ficar com o perfume da vida colado na pele, que é o aroma que exala dele também. eu quero que ele seja terra e nele enraizar-me e fazer dele meu abrigo, meu alimento, meu lar, e eu dele, razão de ser. dormirei nele, e ele em mim. ele, por todo o lado, eu, em todos os poros dele.
é com urgência que chego ao mar e inspiro. inspiro o perfume imenso da maresia que afaga todo o azul manso de que se veste hoje o dia. inspiro como o afogado que, sufocado, emerge à tona. inspiro a água salgada, as algas, os pés frescos pisando a areia, os peixes, as gaivotas que me sobrevoam. inspiro o corpo consciente de cada milímetro de pele, de cada poro, de toda vida. inspiro como quem regressa a casa, ao abraço de onde nunca devia ter saído.
apresso-me em tudo o que tenho que fazer para poder estar às oito horas no espaço onde tenho aulas de yoga. depois de torções e exercícios de equilíbrio, que para mim são um desafio, por ser tão desequilibrada, vem o momento do relaxamento, a postura do cadáver. são cerca de dez minutos em que, embora a professora fale, oriente uma espécie de meditação, eu desligo-me de tudo e sou só eu. é aí que mergulho em mim, é aí que eu descanso. acho que correria o dia todo para chegar àqueles dez minutos.
a ana é tão castiça! diz a mulher sentada à minha frente, enquanto conversamos. apelida-me de castiça. não se cansa de me chamar castiça. francamente filipa! se o quer, seja manhosa! e aqui vem outro castiça emoldurado numa expressão de espanto. sabe o que se diz sobre as raposas terem a manha de sete mulheres e as mulheres a de sete raposas? pois ora... a mulher, que tem cerca de trinta e cinco anos e um rosto bonito, olha para mim receosa. por um breve instante pondero se devo continuar, mas ela por vezes enerva-me, noutras alturas comove-me. caramba, nós somos mulheres, sabemos como fazê-lo. insinue-se e recue, seja inteligente e bem humorada, quando ele estiver convencido de que a tem, mostre-lhe que não é assim. não se lamente, mostre-lhe que a vida pode ser leve, e não se ofereça, sobretudo não se ofereça, ele que não pense que a tem na mão. emudecida, a mulher olha, ora para mim, ora para o telemóvel na esperança de uma mensagem dele. pensa ela que é com roupas sofisticadas e quilos de maquilhagem na cara que o há-de conquistar. eu, conto o tempo que me sobra para preparar o jantar, olho para aquele nome online que me poderia ser tão útil, e penso nos prós e nos contras de aplicar o que digo à outra. tivesse eu, pelo menos, a manha da raposa...
Maria olha para as flores em cima da mesa onde janta, e repara que a jarra quase não tem água. pousa a cabeça nas mãos e respira fundo com os olhos húmidos de lágrimas. talvez chorasse se estivesse só e assim aliviasse o peso de alguns dias, o peso de alguma vida, mas naquele momento era preciso alimentar as plantas e levantou-se, encheu os copos que estavam na mesa com água, e verteu o líquido transparente, lentamente, pelo caule das margaridas brancas. o dia tinha chegado ao fim e apenas trabalhou. as horas esgotaram-se, ela esgotou-se. antes de dormir pedirá perdão, pelo desperdício.
o meu corpo treme, ou talvez devesse dizer que vibra, é mais requintado. o meu coração treme, a minha alma treme, tremo enquanto escrevo. hoje o dia está muito bom, o sol, a temperatura do ar e a leve brisa entranham-se em mim e fazem com que eu me torne ave ou folha de outono, perco o chão e não sei de mim. escrevo-lhe 'hoje o dia está muito bom', e só de poder escrever-lhe 'hoje o dia está muito bom', faz-me tremer também. caiu-me um bocado de massa folhada no tipo café que tomo de manhã não preciso de mais nada, apenas confiar, confiar e aceitar. durante todo o fim de semana pensei nisso, durante toda a vida tento isso e tremo e temo não confiar. poderei acreditar na resposta à pergunta 'posso confiar em si?' 'pode provar-me que posso confiar?'. é um salto de fé. a leap of faith. é o catano, diria o meu pai. diga pai. e tremo. será a alma a despegar-se do corpo? o tempo voa e tremo.
- porque é que não pintas um quadro como eu e o gustavo? - como assim? - não te ia levar muito tempo... - ah... eu nunca demoro muito tempo a pintar um quadro... - isso é bom - é bom? - sim. é sinal de que não tens medo. - olha, isso é uma coisa bonita de se ouvir. nunca tinha pensado nisso assim - pelo menos não tens medo de pintar - sabes que muitas vezes o medo vem pela insegurança de sermos avaliados pelos outros, em vez de nos preocuparmos apenas se gostamos ou não do que fazemos - e acho que não é só isso. tenho medo de me decepcionar com o que faço - se te decepcionares, corriges ou fazes de novo. não há que ter medo disso. - uma das maiores dificuldades de um artista é não querer
fazer uma obra de arte - será sempre uma obra de arte, mesmo que não seja reconhecida pelos outros. que estilo de quadro pintaram? - foi expressionista abstracto. devias experimentar. é bom para acalmar os nervos