sexta-feira, 13 de outubro de 2017

desperdicio










não é nada disso! gritava deus a moisés, que corria desenfreadamente com as tábuas debaixo do braço, pela montanha abaixo. não é nada disso! é só um! não desperdiçarás a tua vida, nem a dos outros, nada mais!. mas moisés achava pouco, não poderia deixar a consciência dos homens livre para decidir, e escreveu uma lista de dez mandamentos.

















quinta-feira, 12 de outubro de 2017

o que eu quero dele








dele, eu quero que seja terra. terra arável. e se não for arável, quero arrancar as ervas daninhas com as mãos, fundo, com dedos e unhas e tudo, e sentir as raízes a soltarem-se do solo teimoso, e torná-lo macio, e fértil. quero semear nele, e plantar e colher. ao semear, quero poder demorar-me em cada estação e descansar no pousio em que ele procura, também, acolhimento. sendo ele terra arada, quero correr por ele afora e enterrar o meu corpo todo e ficar com o perfume da vida colado na pele, que é o aroma que exala dele também. eu quero que ele seja terra e nele enraizar-me e fazer dele meu abrigo, meu alimento, meu lar, e eu dele, razão de ser. dormirei nele, e ele em mim. ele, por todo o lado, eu, em todos os poros dele.










dia manso










é com urgência que chego ao mar e inspiro. inspiro o perfume imenso da maresia que afaga todo o azul manso de que se veste hoje o dia. inspiro como o afogado que, sufocado, emerge à tona. inspiro a água salgada, as algas, os pés frescos pisando a areia, os peixes, as gaivotas que me sobrevoam. inspiro o corpo consciente de cada milímetro de pele, de cada poro, de toda vida. inspiro como quem regressa a casa, ao abraço de onde nunca devia ter saído.












quarta-feira, 11 de outubro de 2017

dez minutos










   apresso-me em tudo o que tenho que fazer para poder estar às oito horas no espaço onde tenho aulas de yoga. depois de torções e exercícios de equilíbrio, que para mim são um desafio, por ser tão desequilibrada, vem o momento do relaxamento, a postura do cadáver. são cerca de dez minutos em que, embora a professora fale, oriente uma espécie de meditação, eu desligo-me de tudo e sou só eu. é aí que mergulho em mim, é aí que eu descanso. acho que correria o dia todo para chegar àqueles dez minutos.











raposa










a ana é tão castiça! diz a mulher sentada à minha frente, enquanto conversamos. apelida-me de castiça. não se cansa de me chamar castiça. francamente filipa! se o quer, seja manhosa! e aqui vem outro castiça emoldurado numa expressão de espanto. sabe o que se diz sobre as raposas terem a manha de sete mulheres e as mulheres a de sete raposas? pois ora... a mulher, que tem cerca de trinta e cinco anos e um rosto bonito, olha para mim receosa. por um breve instante pondero se devo continuar, mas ela por vezes enerva-me, noutras alturas comove-me. caramba, nós somos mulheres, sabemos como fazê-lo. insinue-se e recue, seja inteligente e bem humorada, quando ele estiver convencido de que a tem, mostre-lhe que não é assim. não se lamente, mostre-lhe que a vida pode ser leve, e não se ofereça, sobretudo não se ofereça, ele que não pense que a tem na mão. emudecida, a mulher olha, ora para mim, ora para o telemóvel na esperança de uma mensagem dele. pensa ela que é com roupas sofisticadas e quilos de maquilhagem na cara que o há-de conquistar. eu, conto o tempo que me sobra para preparar o jantar, olho para aquele nome online que me poderia ser tão útil, e penso nos prós e nos contras de aplicar o que digo à outra. tivesse eu, pelo menos, a manha da raposa...











terça-feira, 10 de outubro de 2017

desperdicio








Maria olha para as flores em cima da mesa onde janta, e repara que a jarra quase não tem água. pousa a cabeça nas mãos e respira fundo com os olhos húmidos de lágrimas. talvez chorasse se estivesse só e assim aliviasse o peso de alguns dias, o peso de alguma vida, mas naquele momento era preciso alimentar as plantas e levantou-se, encheu os copos que estavam na mesa com água, e verteu o líquido transparente, lentamente, pelo caule das margaridas brancas. o dia tinha chegado ao fim e apenas trabalhou. as horas esgotaram-se, ela esgotou-se. antes de dormir pedirá perdão, pelo desperdício.











segunda-feira, 9 de outubro de 2017

treme







o meu corpo treme, ou talvez devesse dizer que vibra, é mais requintado. o meu coração treme, a minha alma treme, tremo enquanto escrevo. 
hoje o dia está muito bom, o sol, a temperatura do ar e a leve brisa entranham-se em mim e fazem com que eu me torne ave ou folha de outono, perco o chão e não sei de mim. escrevo-lhe 'hoje o dia está muito bom', e só de poder escrever-lhe 'hoje o dia está muito bom', faz-me tremer também. 
caiu-me um bocado de massa folhada no tipo café que tomo de manhã
não preciso de mais nada, apenas confiar, confiar e aceitar. durante todo o fim de semana pensei nisso, durante toda a vida tento isso e tremo e temo não confiar.
poderei acreditar na resposta à pergunta 'posso confiar em si?' 'pode provar-me que posso confiar?'. é um salto de fé. a leap of faith. é o catano, diria o meu pai. diga pai.
e tremo.
será a alma a despegar-se do corpo?
o tempo voa e tremo.

















domingo, 8 de outubro de 2017

abstracto-me









- porque é que não pintas um quadro como eu e o gustavo?
- como assim?
- não te ia levar muito tempo...
- ah... eu nunca demoro muito tempo a pintar um quadro...
- isso é bom
- é bom?
- sim. é sinal de que não tens medo.
- olha, isso é uma coisa bonita de se ouvir. nunca tinha pensado nisso assim
- pelo menos não tens medo de pintar
- sabes que muitas vezes o medo vem pela insegurança de sermos avaliados pelos outros, em vez de nos preocuparmos apenas se gostamos ou não do que fazemos
- e acho que não é só isso. tenho medo de me decepcionar com o que faço
- se te decepcionares, corriges ou fazes de novo. não há que ter medo disso.
- uma das maiores dificuldades de um artista é não querer fazer uma obra de arte
- será sempre uma obra de arte, mesmo que não seja reconhecida pelos outros. que estilo de quadro pintaram?
- foi expressionista abstracto. devias experimentar. é bom para acalmar os nervos








manhã






















no momento em que lhe agradeço pelo lar, lar corpo, lar casa, lar terra, abro os olhos e o sol que nasce para lá das árvores e do rio que tenho em frente à minha varanda, faz com que me inunde do amarelo e verde das folhas e da luz tremeluzente da água. as sardinheiras que têm sobrevivido a dias e dias sem cuidados, sem rega, ainda oferecem cor-de-rosa e carmim. a gaivota ocupa o seu lugar na cruz no topo da capela e os pardais saltitam impacientes por comida. está vento, o vento que vem do sul. apenas o vento vem do sul, brinco comigo. 

em cada ponto do meu corpo que o homem-terra tocava, sentia uma dor que eu não sabia que tinha. ele diz que é bom, quer que eu fique contente por isso, que finalmente me permito sentir. as lágrimas que eu tenho vontade de soltar e que reprimo, não são de dor, são de alma, é também uma torrente desconhecida. não sabe o homem-terra que eu sinto demais, ele que vê as pessoas, por dentro, com os olhos fechados.

em vez de caminhar, escrevo, que é também uma forma de percorrer caminho. quando finalmente sair para a rua, já o barulho dos carros e das motas será insuportável para mim, e não passarei da rampa da doca onde a mulher lava o futuro nas margens do rio.

o coração que me pontapeia dentro do peito calça botas da tropa, só pode.














sábado, 7 de outubro de 2017

beija-flor










quando te magoam uma vez - explica a mulher que fala beija-flor enquanto as outras ondulam cantigas de amparar - e trazes isso à recordação, estás a permitir que te magoe outra vez, estás a dar-lhe força. respeita-te. não deixes que isso te aconteça.