terça-feira, 1 de agosto de 2017

a lavadeira
























a mulher com o olhar nocturno, há quase um mês que passa os dias nas pedras lodosas da rampa da doca, lodo como o brilho dos seus olhos, lodo como o peso da inércia nos seus ombros. era a ela que ela lavava, naquele esforço de esfregar a manta nas pedras. repetia os gestos vezes e vezes sem conta. passava sabão, enrouquecia-se no som de sovar os panos no chão, gretavam-se-lhe os dedos naquela repetição. era a ela que ela lavava, como se quisesse que aquela maré vazante levasse memórias que recusava ter. neste dia ao contrário, em que o rubor do pôr-do-sol se mostra a nascente, e eu procuro-me nos passos que dou à beira-rio, olho para a mulher que só se vai quando a noite lhe esconder o destino, e encontro-me nela, por dentro. 








chega a mulher que traz sem saber um espelho no rosto e diz que























[não terão sido estas as palavras exactas, mas foram as que me deixou por dentro]

ele era inteligente e conhecedor da natureza da mulher. entre tudo o resto, claro, mas dava-lhe prazer aprofundar-se nas mulheres, com delicadezas, cuidados, atenções, palavras mansas e muitas reticências. e elas deixavam aquele mergulhar dele e faziam-se água, todas elas emoção, todas elas a dedicação possível. eu sei do que falo pois eu fui uma delas, e durante tanto tempo me aguei na ideia dele por dentro de mim, que fundi também eu na essência do seu ser. por isso reconheço-o nelas, em cada mulher que traz água no olhar, que das mãos deixou vazar a vida para o segurar a ele, que no peito traz um lugar vazio. porque ele parte, ele parte sempre, e elas ficam com o corpo cheio de triste, com o inútil abandono na pele, com aquela saudade de nada. como eu, que fiquei tempo demais.














segunda-feira, 31 de julho de 2017

contágio










não tinha que ser assim, mas foi. e conto-lhe porque pago-lhe para me ouvir. nem precisa de dizer grande coisa. ouça-me, para que eu me ouça.
mas como lhe dizia, não tinha que ser assim, mas foi. reconheço que permiti que assim fosse, permiti tudo. confiei, sabe? pergunta-me em que é que confiei? olhe, sei lá. sei que coloquei o meu coração na ponta dos dedos, nem lhe vou dizer durante quantos dias, até tenho vergonha. agora ele? desapareceu. puff! sem mais, sem aviso, sem porquê. eu? nã... eu fico quieta no meu lugar. encho-lhe os ouvidos a si. o que sinto? ah...a confiança, sabe... acho que se foi, fiquei com um muro no olhar e pedaços de gelo nas mãos. até o corpo desafinou. parece-me que foi o que em mim ficou dele, a desconfiança, aquela que se prolonga, que contagia o que rodeia. mas tenho pena, muita pena. é muito feio tornar-me nisto por causa daquilo, mas é fácil de disfarçar.
















o senhor josé











as mãos do senhor josé têm a curvatura que lhe ficou de tanto acariciar os lombos dos peixes. o olhar tem a calma das marés e o cabelo encaracolado lembra as ondas do mar. o senhor josé foi pescador e agora tem uma peixaria. dona maria, sua mulher, olha para ele de lado, enquanto ele explica às freguesas como hão-de cozinhar o que levam. ele fala e amanha as pescadas, ao mesmo tempo. desliza lentamente a mão pelo lombo, e de seguida contra as escamas. diz que assim fica mais saborosa. depois fala da partilha, 'se fizer assim, dá mais partilha, se fizer à posta ou em filetes, não dá tanta.'
aquilo é um bailado, um namoro pegado, uma dança de roda com troca de pares. o senhor josé acaricia a pescada com as mãos, as clientes com o olhar, as palavras com os lábios. a dona maria tem razão em sentir ciúmes. eu cá fico-me pela partilha, que é dos conceitos mais bonitos que conheço. 
foi o senhor josé que me contou que se podem comprar pedaços de mar e que há pedaços mais valiosos do que outros. foi assim que eu criei o sonho de te comprar um pedaço de mar, daqueles mais baratos, daqueles com água azul cristalina e só meia dúzia de seixos no fundo, como a tua alma.












domingo, 30 de julho de 2017

#pareçoasvelhotasesecalharsou












lembro-me de, em tempos longínquos, um condutor ter batido na parte traseira do meu carro, e eu, assustada, mostrar-me pronta para assumir a culpa. só mais tarde percebi que a responsabilidade era do outro condutor. acho que foi a primeira vez em que disse para mim mesma
- que burra! partes sempre do principio que a culpa é tua.
mas não foi por ter consciência disso que mudei o que além desse adjectivo asneo, acrescento também casmurra.

hoje ele enviou-me uma mensagem às nove horas
- olá, bom dia
- bom dia. beijo
(eu a tentar despachar)
- que fazes?
- encomendas
- na rua?
- não, em casa
- estou à tua porta
telefonei-lhe e realmente estava à minha porta. tinha vindo de longe. eu, trabalhava, desgrenhada como sempre, ramelosa, preguiçosa, com a casa saída de um ataque terrorista, como de costume, e com trabalho que tinha aceitado porque preciso. 
o homem apareceu de surpresa e eu enfureci daquela fúria silenciosa que mina por dentro. troquei tudo o que estava a fazer, confundi alheira com vitela, frango com cogumelos, ofereci-lhe um café sem açúcar, e fui seca. mais seca do que o costume. fico como um animal enjaulado quando sinto que sou invadida. só falta espumar pelos olhos.
mas quando ele saiu, senti-me culpada. irreflectidamente culpada. por ele ter vindo em vão, por ter rejeitado o que me trazia, por ter-lhe dado um café sem açúcar,  por ter feito sentir que não era desejado.

- culpada porque o mundo é redondo. 
dizia uma mulher falando de outra, reconhecendo mais tarde que falava de si mesma também. 
sim, culpada porque o mundo é redondo. gerações e gerações atribuindo a culpa às mulheres. pela sensualidade, pela maternidade, pela educação dos filhos, pela harmonia familiar, pelo asseio do lar, pelo não sustento da casa, se trabalhando, pelo abandono da família. talvez coubesse aqui o hashtag da susana #parecesasvelhotas.

dizia a outra mulher, também naquela roda onde só se sentam mulheres, aquela mulher que eu gosto tanto de ouvir, pois quando fala traz o coração sangrando nas mãos e o brilho da lua no olhar, pois dizia ela 
- o respeito pelo meu corpo, acho que tudo vem daí, do respeito pelo meu corpo. culpo-me por não o respeitar.
então eu ouvia-a e concordava com ela, pensando
- o respeito por mim, ou antes, a falta de respeito por mim. culpo-me por não me respeitar, o corpo, a alma. lembro-me de oferecer o meu corpo sem desejar, de abrir mão da minha alma sem a respeitar.

não era isto que eu queria escrever, mas saiu-me. eu ia mesmo escrever é que realmente uso muitas ou muitos, não sei se são meninas ou meninos, hashtags. acho imensa piada clicar ali e ver o que aparece. então são: #vegan, #shiitake, #superalimentinhas, #corposfelizes, #vegetariano, e mais algumas.




















sábado, 29 de julho de 2017

agora já são 22h00











são 21h58 e eu faço horas, se é que se pode fazer horas, para não me deitar antes das dez num sábado à noite. está quase, até o sino já bate umas badaladas lá longe.












quinta-feira, 27 de julho de 2017

a música











    pouso o olhar no mar, manso, com a tonalidade própria do marinho que é, e a que cheira. da linha do horizonte eleva-se um nevoeiro escuro dando a sensação de um outro mar, acima deste. inútil paisagem, sussurra-me ao coração, com ironia, aquela parte de mim que armazena as memórias e que desperta num som, num aroma, num toque, num paladar, no simples facto de estar viva. para quê tanto mar, para quê... se não te prolongas como antes, murmura-me. pode ser que não venhas mais, que não venhas nunca mais, continua outra eu a azucrinar a eu que passa, impávida, na marginal. de repente toda eu sou a música que desperta cá dentro.

aprendo novamente a caminhar, manca. nos dias que eu trazia em mim, era a partilha que lhes dava a graciosidade, a alma. agora, neste hiato em que as tonalidades do mar não transbordam de mim, eu tento, com custo, não construir diques ao meu redor, que me tornem árida. 













terça-feira, 25 de julho de 2017

um homem que cabia numa pen







tudo o que tinha restado daquele homem cabia numa pen. palavras, cores, músicas, poemas, livros, e muito conhecimento. sim, conta-me ela que tinha um conhecimento imenso de tudo. inutilidades, dizia-lhe ele, ao que ela ria, vindo a dar-lhe razão mais tarde. sim, inutilidades. não era por tanto conhecimento que vivia menos só. não era por isso que fazia os outros menos sós. apenas uma ilusão efémera de sedução, estava ela convicta, até de manipulação. ele brincava com as suas emoções e com as suas sensações. na verdade, apesar de tanto saber que ele exibia, foi apenas tristeza que lhe deixou, abandono e  descrença. não é coisa bonita de se fazer acompanhar na vida.












segunda-feira, 24 de julho de 2017

dos medos











hoje o impontual convidou a blogosfera toda para, com ele, contar ondas e falar do que tem medo. quando lá cheguei, pensando que seria a única, não havia espaço livre no areal, nem ondas que restassem para contar.

mas fiquei eu a pensar nos medos, e, para além do medo de ter medo, tenho

medo de perder a confiança, na vida, nalgumas raras pessoas e em mim
e
medo de que o tempo seja pouco












domingo, 23 de julho de 2017

três mil duzentos e setenta dias











as folhas da árvore escondem no seu avesso a cor cinzenta do céu.
há três mil duzentos e setenta dias que tento ouvi-las e só hoje percebi o que me querem dizer, elas e o vento.