a mulher fala de si com rapidez, com urgência. conta-me da doença e da forma como está a procurar a cura, dentro dela. fala muito, fala das raivas que está a reconhecer, da forma como se exterioriza, dos direitos que se tem que dar, de tudo o que merece, da revolta com o pai, do desprezo. e fala, como se disso dependesse a sua vida, e talvez dependa.
falo tudo da minha vida, e tu nunca falas da tua...
acaba sempre por me dizer. a verdade é que eu não gosto falar da minha vida. aparentemente, é sempre igual, cada dia mais igual. um desperdício.
estás com um ar cansado
diz-me
estou, cansada de muitas formas. sabes, há alturas em que de repente, tudo cai, tudo é como não queríamos que fosse, em que a vida nos troca as voltas todas. e essa altura está a ser agora. tudo ao mesmo tempo. não é só comigo. está a acontecer com muita gente.
a mulher, já dentro do elevador, com os olhos entristecidos diz que não devia ser assim
e resolve quem, que não seja?
pergunto
pois... talvez tenhas que mudar
diz-me ela, assim como tantas outras pessoas. é tão evidente para todos que eu tenho que mudar
tenho o meu tempo, o meu caminho, os meus passos a dar
mascaro-me
não me fales em tempo. não gosto nada dessa palavra
diz a mulher que corre contra o tempo todos os minutos do seu dia
não é desse. não falo do tempo cronológico. é do outro.
e ela foi embora, a correr, fugindo da noção de tempo