quinta-feira, 27 de julho de 2017

a música











    pouso o olhar no mar, manso, com a tonalidade própria do marinho que é, e a que cheira. da linha do horizonte eleva-se um nevoeiro escuro dando a sensação de um outro mar, acima deste. inútil paisagem, sussurra-me ao coração, com ironia, aquela parte de mim que armazena as memórias e que desperta num som, num aroma, num toque, num paladar, no simples facto de estar viva. para quê tanto mar, para quê... se não te prolongas como antes, murmura-me. pode ser que não venhas mais, que não venhas nunca mais, continua outra eu a azucrinar a eu que passa, impávida, na marginal. de repente toda eu sou a música que desperta cá dentro.

aprendo novamente a caminhar, manca. nos dias que eu trazia em mim, era a partilha que lhes dava a graciosidade, a alma. agora, neste hiato em que as tonalidades do mar não transbordam de mim, eu tento, com custo, não construir diques ao meu redor, que me tornem árida. 













terça-feira, 25 de julho de 2017

um homem que cabia numa pen







tudo o que tinha restado daquele homem cabia numa pen. palavras, cores, músicas, poemas, livros, e muito conhecimento. sim, conta-me ela que tinha um conhecimento imenso de tudo. inutilidades, dizia-lhe ele, ao que ela ria, vindo a dar-lhe razão mais tarde. sim, inutilidades. não era por tanto conhecimento que vivia menos só. não era por isso que fazia os outros menos sós. apenas uma ilusão efémera de sedução, estava ela convicta, até de manipulação. ele brincava com as suas emoções e com as suas sensações. na verdade, apesar de tanto saber que ele exibia, foi apenas tristeza que lhe deixou, abandono e  descrença. não é coisa bonita de se fazer acompanhar na vida.












segunda-feira, 24 de julho de 2017

dos medos











hoje o impontual convidou a blogosfera toda para, com ele, contar ondas e falar do que tem medo. quando lá cheguei, pensando que seria a única, não havia espaço livre no areal, nem ondas que restassem para contar.

mas fiquei eu a pensar nos medos, e, para além do medo de ter medo, tenho

medo de perder a confiança, na vida, nalgumas raras pessoas e em mim
e
medo de que o tempo seja pouco












domingo, 23 de julho de 2017

três mil duzentos e setenta dias











as folhas da árvore escondem no seu avesso a cor cinzenta do céu.
há três mil duzentos e setenta dias que tento ouvi-las e só hoje percebi o que me querem dizer, elas e o vento.










sábado, 22 de julho de 2017

















...Now we have met, we have look’d, we are safe...

ww

















quinta-feira, 20 de julho de 2017

conversa










a mulher fala de si com rapidez, com urgência. conta-me da doença e da forma como está a procurar a cura, dentro dela. fala muito, fala das raivas que está a reconhecer, da forma como se exterioriza, dos direitos que se tem que dar, de tudo o que merece, da revolta com o pai, do desprezo. e fala, como se disso dependesse a sua vida, e talvez dependa. 
falo tudo da minha vida, e tu nunca falas da tua...
acaba sempre por me dizer. a verdade é que eu não gosto falar da minha vida. aparentemente, é sempre igual, cada dia mais igual. um desperdício.
estás com um ar cansado
diz-me
estou, cansada de muitas formas. sabes, há alturas em que de repente, tudo cai, tudo é como não queríamos que fosse, em que a vida nos troca as voltas todas. e essa altura está a ser agora. tudo ao mesmo tempo. não é só comigo. está a acontecer com muita gente.
a mulher, já dentro do elevador, com os olhos entristecidos diz que não devia ser assim
e resolve quem, que não seja?
pergunto
pois... talvez tenhas que mudar
diz-me ela, assim como tantas outras pessoas. é tão evidente para todos que eu tenho que mudar
tenho o meu tempo, o meu caminho, os meus passos a dar
mascaro-me
não me fales em tempo. não gosto nada dessa palavra
diz a mulher que corre contra o tempo todos os minutos do seu dia
não é desse. não falo do tempo cronológico. é do outro.
e ela foi embora, a correr, fugindo da noção de tempo









quarta-feira, 19 de julho de 2017

essa ponte sagrada









tentei reanimá-las, às palavras. fiz respiração boca a boca, bofeteei-as, tentei assustá-las, fiz-lhes cócegas, dei-lhes a cheirar amoníaco, tentei o cheiro do mar, a nortada e a chuva. choveu toda a manhã, por dentro e por fora, mas choveu tanto que elas recolheram ainda mais num sufoco mudo enquanto eu sentia as gotas finas e frias, lembrando-me cada cantinho de pele morna, esquecida. mas as palavras continuaram caladas.

pego num livro qualquer, abro numa página vincada
quando ele me dirigiu a palavra, nesse primeirissimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. o que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. falar é outra coisa, vos digo. dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. 

depois as palavras desfizeram-me em poeira.
















terça-feira, 18 de julho de 2017

oitocentos e quarenta e cinco dias











foi precisamente no dia em que lhe disse
não deixes que te levem as palavras
que eu fiquei sem as minhas. não digo que 'o' mas tenha levado. seria muita presunção da minha parte pensar que lhe serviriam para alguma coisa, palavras simples e textos naifs que falam de sentidos e de mar e de vento e de pardais e de invisíveis e de árvores que falam e de olhos que entregam paisagens nos olhos de outro.
não, ele não me levou as palavras. perdi-as.
andei oitocentos e quarenta e cinco dias com o peito aberto, e as palavras que lhe dizia tinha-as trazido, até ali, fechadas a sete chaves junto com o coração. eram preciosas, para mim, que nunca fui de grandes conversas, e era criticada, até, por falar de menos. 
mas de tanto abrir o coração, elas foram caindo, escapando, corriam para ele. eu não tinha mão nelas, descaradas, despiam-se, enfiavam-se na cama com ele, brincavam com ele, aprendiam com ele. mas ele não as apanhou, não as quis, estava habituado a outra linguagem, mais cuidada, mais erudita, mais recatada, mais melodiosa. 
dele, entraram muitas palavras no meu peito, mas não posso usá-las, não, elas provocam arrepios na pele e os poros ficam todos em alvoroço. prefiro nem sequer balbuciá-las, deixarei que se esqueçam, que me esqueçam.
e foi assim. se hoje escrevo, é na esperança de que elas voltem, as palavras, claro. quem sabe, pode ser que saltem para aqui, lá dos lugares onde ficaram caídas, voltem, exaustas, desencantadas, e descansem, outra vez, dentro do meu peito, que eu prometo cuidar melhor delas.

sim é verdade, foi no dia em que disse
não deixes que te levem as palavras
que fiquei sem as minhas.
ele lá de cima, não perde uma oportunidade de brincar comigo.












segunda-feira, 17 de julho de 2017

pavlov











a mulher estremecia por dentro ao ouvir o som da gota de água que anunciava uma nova mensagem. nunca imaginara que seriam as notificações a levá-la de volta a um tempo desencontrado. teria que mudar o som do aviso e aí sim, será fácil esquecer.











domingo, 16 de julho de 2017

a lista










Há pesos, que sendo iguais, pesam mais nuns dias do que noutros, nuns minutos do que noutros, difere mesmo, a intensidade, de uma inspiração para outra.
Sento-me na beira da cama, naquele lado onde nunca me sento, olho para a sagrada família, para mim, naquela fotografia, com os filhos pequenos, para o meu pai, e pergunto-me o que é que na minha vida ando a fazer de maneira errada. A lista é extensa, talvez a deva escrever.
O gringo, aquele que trazia um pedaço do azul do céu nos olhos, onde me perdi por mais de mil dias, costumava dizer que se algo decorria com maus resultados, deveria ser feito de maneira inversa. Não é de hoje, perder-me no sem fim de dias, trazendo nas mãos apenas meia dúzia de palavras.