quarta-feira, 19 de julho de 2017

essa ponte sagrada









tentei reanimá-las, às palavras. fiz respiração boca a boca, bofeteei-as, tentei assustá-las, fiz-lhes cócegas, dei-lhes a cheirar amoníaco, tentei o cheiro do mar, a nortada e a chuva. choveu toda a manhã, por dentro e por fora, mas choveu tanto que elas recolheram ainda mais num sufoco mudo enquanto eu sentia as gotas finas e frias, lembrando-me cada cantinho de pele morna, esquecida. mas as palavras continuaram caladas.

pego num livro qualquer, abro numa página vincada
quando ele me dirigiu a palavra, nesse primeirissimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. o que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. falar é outra coisa, vos digo. dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. 

depois as palavras desfizeram-me em poeira.
















terça-feira, 18 de julho de 2017

oitocentos e quarenta e cinco dias











foi precisamente no dia em que lhe disse
não deixes que te levem as palavras
que eu fiquei sem as minhas. não digo que 'o' mas tenha levado. seria muita presunção da minha parte pensar que lhe serviriam para alguma coisa, palavras simples e textos naifs que falam de sentidos e de mar e de vento e de pardais e de invisíveis e de árvores que falam e de olhos que entregam paisagens nos olhos de outro.
não, ele não me levou as palavras. perdi-as.
andei oitocentos e quarenta e cinco dias com o peito aberto, e as palavras que lhe dizia tinha-as trazido, até ali, fechadas a sete chaves junto com o coração. eram preciosas, para mim, que nunca fui de grandes conversas, e era criticada, até, por falar de menos. 
mas de tanto abrir o coração, elas foram caindo, escapando, corriam para ele. eu não tinha mão nelas, descaradas, despiam-se, enfiavam-se na cama com ele, brincavam com ele, aprendiam com ele. mas ele não as apanhou, não as quis, estava habituado a outra linguagem, mais cuidada, mais erudita, mais recatada, mais melodiosa. 
dele, entraram muitas palavras no meu peito, mas não posso usá-las, não, elas provocam arrepios na pele e os poros ficam todos em alvoroço. prefiro nem sequer balbuciá-las, deixarei que se esqueçam, que me esqueçam.
e foi assim. se hoje escrevo, é na esperança de que elas voltem, as palavras, claro. quem sabe, pode ser que saltem para aqui, lá dos lugares onde ficaram caídas, voltem, exaustas, desencantadas, e descansem, outra vez, dentro do meu peito, que eu prometo cuidar melhor delas.

sim é verdade, foi no dia em que disse
não deixes que te levem as palavras
que fiquei sem as minhas.
ele lá de cima, não perde uma oportunidade de brincar comigo.












segunda-feira, 17 de julho de 2017

pavlov











a mulher estremecia por dentro ao ouvir o som da gota de água que anunciava uma nova mensagem. nunca imaginara que seriam as notificações a levá-la de volta a um tempo desencontrado. teria que mudar o som do aviso e aí sim, será fácil esquecer.











domingo, 16 de julho de 2017

a lista










Há pesos, que sendo iguais, pesam mais nuns dias do que noutros, nuns minutos do que noutros, difere mesmo, a intensidade, de uma inspiração para outra.
Sento-me na beira da cama, naquele lado onde nunca me sento, olho para a sagrada família, para mim, naquela fotografia, com os filhos pequenos, para o meu pai, e pergunto-me o que é que na minha vida ando a fazer de maneira errada. A lista é extensa, talvez a deva escrever.
O gringo, aquele que trazia um pedaço do azul do céu nos olhos, onde me perdi por mais de mil dias, costumava dizer que se algo decorria com maus resultados, deveria ser feito de maneira inversa. Não é de hoje, perder-me no sem fim de dias, trazendo nas mãos apenas meia dúzia de palavras.











quarta-feira, 12 de julho de 2017

o que me falta












fazem-me mais falta dias de chuva que me lavem a varanda, do que tu. fazem-me falta as refeições prontas na mesa e a cozinha arrumada, faz-me mais falta o depósito cheio de gasolina, ah, e dava-me imenso jeito o ar condicionado a funcionar ou pelo menos que as duas janelas do carro subissem e descessem. tu não me fazes falta. faz-me falta sim uma noite de sono descansado pelo menos uma vez por semana, e o silêncio, sim, o silêncio faz-me muita falta. faz-me falta o frio, o frio de inverno, para que eu sinta o prazer da água quente no corpo e o aconchego de uma manta no final do banho. fazem-me falta as flores e a terra, mas a terra é tão inacessível quanto tu, mas a terra faz-me muita falta, e tu não. faz-me falta poder ver a lua cheia a subir no céu, aqui deste lugar onde agora escrevo, se fosse de noite, porque às nove da manhã o sol entra por todos os lados. queria muito uma casa onde não entrasse lixo, agora que a empregada desapareceu sem avisar, e que a roupa se auto-passasse a ferro, para que ao domingo, o meu dia do descanso santo, não tivesse que estar duas horas com aquela coisa a bufar vapor na mão. tu não me fazes falta. faz-me falta, muita falta não ter que pensar em como vou pagar propinas no próximo ano lectivo, e não ter medo de espreitar o meu saldo bancário. tu não me fazes falta. afinal o que me vinha de ti era apenas alegria sem explicação lógica, dedos entrelaçados em palavras, a sensibilidade à flor da pele. tu não me fazes falta. uns dias de férias também seria bom e faz-me falta alguém que me diga - ana, para de escrever, estás a enterrar-te.














terça-feira, 11 de julho de 2017

repouso







reparo que o momento que antecede a exaustão, é aquele em que percebemos que a hora do descanso se aproxima. 'morrer na praia', é ceder ao cansaço antes de atingir a meta. pergunto-me se o desconhecimento da hora do repouso, permitiria a continuação do esforço.













o esquilo


























inspiro lentamente o vento frio que me traz a maresia para dentro de casa, embalada pelas cortinas que esvoaçam. enche-me o peito. enquanto me movo, atento ao prazer do movimento. lembro-me do esquilo sobre o qual a escritora escreve, deslizando pelos ramos da árvore apenas pelo gozo do corpo. enquanto penso nisto, também as minhas pernas e braços se querem divertir, como de repente percebessem que têm vontade própria, e direito de saborear a vida de que são feitos. 
não. a falta de ti nunca me levará a volúpia dos detalhes.















bom dia



















do outro lado do telefone:
- estou quase pronta. já puseste o teu bom dia no facebook?
- já... olhe as horas...
- então não me digas. deixa-me só ligar o tablet...
há quem diga que faço com que comecem o dia a rir. eu, que ando com insónias , e, em vez de contar carneiros, conto fornadas de empadas, quase que me sinto responsável por ser o bobo da corte. ainda por cima tinha tanta matéria intelectual para publicar no facebook, e foi-me logo calhar uma reputação de palhaço a manter.












segunda-feira, 10 de julho de 2017

ele e ela

























ele gostava dos contornos, do esboço, da silhueta que percebia por entre a névoa das suposições. ele gostava do indefinido dela, gostava dos véus e da insinuação, da transparência esvoaçante. ela mostrou-se-lhe em todas as formas de nudez. ele partiu. ela ficou, com as mãos estendidas, sem saber o que fazer com a verdade. 















domingo, 9 de julho de 2017

porque hoje é domingo








hoje é domingo, ainda, e domingo, para mim, deve ser o dia em que paro, em que me escuto, em que, como aqui já escrevi, abro espaço a que kairos se alinhe com kronos.
eu já sabia há muito tempo que o dia de hoje não seria dia de descanso, e já tinha avisado o pessoal lá de cima que nem que chovessem canivetes, dia nove de julho seria dia de trabalhar como uma moura. e foi. só não sabia que o dia 'em que me escuto', viria da forma que descrevi em baixo, de sopetão, sem ser programado, e apanhou-me com os dedos no teclado. mas veio. e parte daquilo também sou eu, assim. olhos nos olhos comigo. 
se não olhar de frente o meu lado escuro, não saberei reconhecê-lo, amaciá-lo. escrever aqui ajuda-me nesse processo. acalma-me. obrigada pela partilha.