não deixes que te levem as palavras
que eu fiquei sem as minhas. não digo que 'o' mas tenha levado. seria muita presunção da minha parte pensar que lhe serviriam para alguma coisa, palavras simples e textos naifs que falam de sentidos e de mar e de vento e de pardais e de invisíveis e de árvores que falam e de olhos que entregam paisagens nos olhos de outro.
não, ele não me levou as palavras. perdi-as.
andei oitocentos e quarenta e cinco dias com o peito aberto, e as palavras que lhe dizia tinha-as trazido, até ali, fechadas a sete chaves junto com o coração. eram preciosas, para mim, que nunca fui de grandes conversas, e era criticada, até, por falar de menos.
mas de tanto abrir o coração, elas foram caindo, escapando, corriam para ele. eu não tinha mão nelas, descaradas, despiam-se, enfiavam-se na cama com ele, brincavam com ele, aprendiam com ele. mas ele não as apanhou, não as quis, estava habituado a outra linguagem, mais cuidada, mais erudita, mais recatada, mais melodiosa.
dele, entraram muitas palavras no meu peito, mas não posso usá-las, não, elas provocam arrepios na pele e os poros ficam todos em alvoroço. prefiro nem sequer balbuciá-las, deixarei que se esqueçam, que me esqueçam.
e foi assim. se hoje escrevo, é na esperança de que elas voltem, as palavras, claro. quem sabe, pode ser que saltem para aqui, lá dos lugares onde ficaram caídas, voltem, exaustas, desencantadas, e descansem, outra vez, dentro do meu peito, que eu prometo cuidar melhor delas.
sim é verdade, foi no dia em que disse
não deixes que te levem as palavras
que fiquei sem as minhas.
ele lá de cima, não perde uma oportunidade de brincar comigo.




