quarta-feira, 12 de julho de 2017

o que me falta












fazem-me mais falta dias de chuva que me lavem a varanda, do que tu. fazem-me falta as refeições prontas na mesa e a cozinha arrumada, faz-me mais falta o depósito cheio de gasolina, ah, e dava-me imenso jeito o ar condicionado a funcionar ou pelo menos que as duas janelas do carro subissem e descessem. tu não me fazes falta. faz-me falta sim uma noite de sono descansado pelo menos uma vez por semana, e o silêncio, sim, o silêncio faz-me muita falta. faz-me falta o frio, o frio de inverno, para que eu sinta o prazer da água quente no corpo e o aconchego de uma manta no final do banho. fazem-me falta as flores e a terra, mas a terra é tão inacessível quanto tu, mas a terra faz-me muita falta, e tu não. faz-me falta poder ver a lua cheia a subir no céu, aqui deste lugar onde agora escrevo, se fosse de noite, porque às nove da manhã o sol entra por todos os lados. queria muito uma casa onde não entrasse lixo, agora que a empregada desapareceu sem avisar, e que a roupa se auto-passasse a ferro, para que ao domingo, o meu dia do descanso santo, não tivesse que estar duas horas com aquela coisa a bufar vapor na mão. tu não me fazes falta. faz-me falta, muita falta não ter que pensar em como vou pagar propinas no próximo ano lectivo, e não ter medo de espreitar o meu saldo bancário. tu não me fazes falta. afinal o que me vinha de ti era apenas alegria sem explicação lógica, dedos entrelaçados em palavras, a sensibilidade à flor da pele. tu não me fazes falta. uns dias de férias também seria bom e faz-me falta alguém que me diga - ana, para de escrever, estás a enterrar-te.














terça-feira, 11 de julho de 2017

repouso







reparo que o momento que antecede a exaustão, é aquele em que percebemos que a hora do descanso se aproxima. 'morrer na praia', é ceder ao cansaço antes de atingir a meta. pergunto-me se o desconhecimento da hora do repouso, permitiria a continuação do esforço.













o esquilo


























inspiro lentamente o vento frio que me traz a maresia para dentro de casa, embalada pelas cortinas que esvoaçam. enche-me o peito. enquanto me movo, atento ao prazer do movimento. lembro-me do esquilo sobre o qual a escritora escreve, deslizando pelos ramos da árvore apenas pelo gozo do corpo. enquanto penso nisto, também as minhas pernas e braços se querem divertir, como de repente percebessem que têm vontade própria, e direito de saborear a vida de que são feitos. 
não. a falta de ti nunca me levará a volúpia dos detalhes.















bom dia



















do outro lado do telefone:
- estou quase pronta. já puseste o teu bom dia no facebook?
- já... olhe as horas...
- então não me digas. deixa-me só ligar o tablet...
há quem diga que faço com que comecem o dia a rir. eu, que ando com insónias , e, em vez de contar carneiros, conto fornadas de empadas, quase que me sinto responsável por ser o bobo da corte. ainda por cima tinha tanta matéria intelectual para publicar no facebook, e foi-me logo calhar uma reputação de palhaço a manter.












segunda-feira, 10 de julho de 2017

ele e ela

























ele gostava dos contornos, do esboço, da silhueta que percebia por entre a névoa das suposições. ele gostava do indefinido dela, gostava dos véus e da insinuação, da transparência esvoaçante. ela mostrou-se-lhe em todas as formas de nudez. ele partiu. ela ficou, com as mãos estendidas, sem saber o que fazer com a verdade. 















domingo, 9 de julho de 2017

porque hoje é domingo








hoje é domingo, ainda, e domingo, para mim, deve ser o dia em que paro, em que me escuto, em que, como aqui já escrevi, abro espaço a que kairos se alinhe com kronos.
eu já sabia há muito tempo que o dia de hoje não seria dia de descanso, e já tinha avisado o pessoal lá de cima que nem que chovessem canivetes, dia nove de julho seria dia de trabalhar como uma moura. e foi. só não sabia que o dia 'em que me escuto', viria da forma que descrevi em baixo, de sopetão, sem ser programado, e apanhou-me com os dedos no teclado. mas veio. e parte daquilo também sou eu, assim. olhos nos olhos comigo. 
se não olhar de frente o meu lado escuro, não saberei reconhecê-lo, amaciá-lo. escrever aqui ajuda-me nesse processo. acalma-me. obrigada pela partilha.












fartinha









sabe? e escrevo-lhe isto aqui enquanto lhe escrevo outras coisas ali noutra janela onde não é suposto que eu lhe escreva isto que escrevo aqui, mas sabe, às vezes queria dar-me o direito de ser humana, apenas humana. humana de raça, um animal assim desta espécie, toda eu terra, toda eu carne, toda eu apelo, toda eu urgência, toda eu exigência. e dar-me o direito de estar cansada, e se preciso, chorar de exaustão e recusar-me a mais, como uma criança que faz birra e espolinha-se no chão chorando e babando. não quero mais. e exigir liberdade, alimento, prazer. lutar por isso até ao limite. chegar lá e dizer - este homem é meu! eu cheguei primeiro! e esgadanhar-me toda, como uma fêmea luta pelo seu macho, ou o contrário, sei lá, mas lutar, sangrar, romper, gritar. e nem querer saber se ele me quer, não interessa. eu quero, é meu, cheguei primeiro. e, quando morta de cansaço, repousar, dormir.
há dias em que quero deixar de ser esta que dá de comer aos pardais e ficar com a aveia toda só para mim e correr para a varanda a enxotá-los, pois afinal de contas eles apenas sujam tudo e se não comerem aqui irão comer a outro lado qualquer. queria deixar de ser esta a compreender e a aceitar sempre todos, deixar de ver o que não se vê, e garantir que uma árvore é apenas aquela coisa ali em frente que cresce porque tem terra e água e que os animais existem para que nos alimentemos. queria ser a que defende que o mundo é uma coincidência de circunstâncias e azar tiveram os que nasceram num país desgraçado, temos pena mas não temos culpa e temos é que levar a nossa vidinha da melhor forma e os outros que se cuidem, cada um que trate da sua, sabe? às vezes queria deixar de ser esta espécie de louca que fala com a lua e com o sol e escuta a voz do vento e de olhos fechados, chega aí com o coração nas mãos. queria deixar de ser isso tudo e ser apenas tacto e saliva, corpo.
sabe? às vezes canso-me de ser esta que aceita. fartinha de tudo mesmo, de tudo. 











sábado, 8 de julho de 2017

final do dia



























dizem que é nas horas de extremo cansaço que deixamos visível aos olhos dos outros, o que realmente somos. para mim é a hora da redenção, em que me entrego ao momento, em que sinto o corpo, em que sento e ouço o recolher das andorinhas, em que me dispo do dia, em que me aquieto, em que calo, em que os pensamentos seguem o rumo do acaso. como agora. é a hora da entrega. seria a hora em que chegaria a ele. 
se um dia chegasse.











sexta-feira, 7 de julho de 2017

vive com gosto























não me lembro com exactidão onde começou o carinho que tenho por ele. se retroceder no tempo, chegarei aos meus doze ou treze anos quando o ajudava na celebração, fazendo as leituras, recolhendo as gratificações. até que um dia toda aquela repetição, todos os crentes debitando palavras que não sentiam, repetindo mecanicamente frases em que não reflectiam, me afastaram do ritual da missa. mas, além de ser amigo e visita habitual de casa, ele também foi meu professor de moral. vives com gosto? perguntava-nos ele enquanto acenávamos que sim e apertava os nossos ossos todos da mão e nos torcíamos com dor. deixem passar herculano o presbítero, anunciava para abrir caminho entre os estudantes, e abria.
hoje o frei fez 80 anos e vive com gosto, eu sei. além disso mostrou-o, ao falar do receio de que a doença de parkinson o leve para uma vida que sempre recusou explicar-me, talvez porque o que acredita não esteja de acordo com o que prega. 
sentado à mesa do restaurante, comigo e com a minha mãe, de cada vez que tenta cortar a carne ou levá-la à boca, a mesa abana toda e os pratos tilintam ruidosamente. sirvo-o de vinho com cautela, pouco de cada vez, para que não entorne enquanto o toma. durante a conversa, e apesar da memória fresca de sempre, custa-lhe a articular as palavras como se as cordas vocais também tivessem dificuldade em alinhar-se com a fala. 
eu não estava avisada do estado de saúde do meu padre e senti o seu descontrolo crescendo dentro de mim. então, silenciosamente pedi-lhes serenidade e entoei um mantra na alma, um mantra que me traz paz. eu serenei, a tremura do frei abrandou, com ternura vi-o levar o garfo até à boca com calma, e voltou a contar anedotas com as palavras fluídas de sempre. 
foi um dia bom.











quinta-feira, 6 de julho de 2017

o homem











estavam cerca de cinco mesas ocupadas, esta manhã, no café onde me adivinham a vontade. em todas as mesas estava alguém, com o olhar inclinado para um telemóvel, onde deslizava o dedo, suponho que à procura de ligação com um lugar que não aquele, onde se encontravam. também eu de vez em quando olhava para o meu ecrã em busca de algo que não tinha no momento. mas à minha frente, junto à janela, estava um homem luminoso. não sei se a luminosidade lhe vinha do cabelo e barba quase brancos, se da camisa, se do suave sorriso que tinha no rosto ou do brilho do olhar. sei que não tinha telemóvel pousado na mesa, nem jornal. apenas a chávena vazia do café. de vez em quando olhava à volta, reparava nos disparates que as funcionárias atiravam para a minha mesa, e fixava-se muito ligeiramente no lugar onde eu sabia estar a televisão. por vezes cruzava os pés debaixo da mesa, voltando a colocá-los a par. e esteve ali, sereno com tudo, calado, sem dedilhar, sem ler, ali, apenas. quando se levantou, vi que o televisor estava desligado. fez-me recordar o tempo em que não havia fugas de bolso, em que quando estávamos, estávamos. segui-o com o olhar até onde consegui alcançar.