sábado, 8 de julho de 2017

final do dia



























dizem que é nas horas de extremo cansaço que deixamos visível aos olhos dos outros, o que realmente somos. para mim é a hora da redenção, em que me entrego ao momento, em que sinto o corpo, em que sento e ouço o recolher das andorinhas, em que me dispo do dia, em que me aquieto, em que calo, em que os pensamentos seguem o rumo do acaso. como agora. é a hora da entrega. seria a hora em que chegaria a ele. 
se um dia chegasse.











sexta-feira, 7 de julho de 2017

vive com gosto























não me lembro com exactidão onde começou o carinho que tenho por ele. se retroceder no tempo, chegarei aos meus doze ou treze anos quando o ajudava na celebração, fazendo as leituras, recolhendo as gratificações. até que um dia toda aquela repetição, todos os crentes debitando palavras que não sentiam, repetindo mecanicamente frases em que não reflectiam, me afastaram do ritual da missa. mas, além de ser amigo e visita habitual de casa, ele também foi meu professor de moral. vives com gosto? perguntava-nos ele enquanto acenávamos que sim e apertava os nossos ossos todos da mão e nos torcíamos com dor. deixem passar herculano o presbítero, anunciava para abrir caminho entre os estudantes, e abria.
hoje o frei fez 80 anos e vive com gosto, eu sei. além disso mostrou-o, ao falar do receio de que a doença de parkinson o leve para uma vida que sempre recusou explicar-me, talvez porque o que acredita não esteja de acordo com o que prega. 
sentado à mesa do restaurante, comigo e com a minha mãe, de cada vez que tenta cortar a carne ou levá-la à boca, a mesa abana toda e os pratos tilintam ruidosamente. sirvo-o de vinho com cautela, pouco de cada vez, para que não entorne enquanto o toma. durante a conversa, e apesar da memória fresca de sempre, custa-lhe a articular as palavras como se as cordas vocais também tivessem dificuldade em alinhar-se com a fala. 
eu não estava avisada do estado de saúde do meu padre e senti o seu descontrolo crescendo dentro de mim. então, silenciosamente pedi-lhes serenidade e entoei um mantra na alma, um mantra que me traz paz. eu serenei, a tremura do frei abrandou, com ternura vi-o levar o garfo até à boca com calma, e voltou a contar anedotas com as palavras fluídas de sempre. 
foi um dia bom.











quinta-feira, 6 de julho de 2017

o homem











estavam cerca de cinco mesas ocupadas, esta manhã, no café onde me adivinham a vontade. em todas as mesas estava alguém, com o olhar inclinado para um telemóvel, onde deslizava o dedo, suponho que à procura de ligação com um lugar que não aquele, onde se encontravam. também eu de vez em quando olhava para o meu ecrã em busca de algo que não tinha no momento. mas à minha frente, junto à janela, estava um homem luminoso. não sei se a luminosidade lhe vinha do cabelo e barba quase brancos, se da camisa, se do suave sorriso que tinha no rosto ou do brilho do olhar. sei que não tinha telemóvel pousado na mesa, nem jornal. apenas a chávena vazia do café. de vez em quando olhava à volta, reparava nos disparates que as funcionárias atiravam para a minha mesa, e fixava-se muito ligeiramente no lugar onde eu sabia estar a televisão. por vezes cruzava os pés debaixo da mesa, voltando a colocá-los a par. e esteve ali, sereno com tudo, calado, sem dedilhar, sem ler, ali, apenas. quando se levantou, vi que o televisor estava desligado. fez-me recordar o tempo em que não havia fugas de bolso, em que quando estávamos, estávamos. segui-o com o olhar até onde consegui alcançar.












é isto






















quarta-feira, 5 de julho de 2017

o que me falta










o que me falta, sobretudo e sobre tudo, é estar só, é o silêncio ou apenas o som das gaivotas em alvoroço longínquo. esta necessidade é de tal forma premente, que me sinto como um animal encurralado nestes dias em que tenho sempre, sempre, alguém por perto. é um vício que não sabia que tinha e que sinto agora, não só na alma, mas também de forma dolorosa, no corpo, no desnorteio. faz-me lembrar da dependência que eu não sabia que tinha do café, até ao dia em que o médico mo proibiu. apenas um, disse-me ele quando eu insisti, mas de preferência um carioca, aquela coisa para enganar tolos que eu tomo, assim tipo café, tu sabes. o meu corpo contraiu-se durante semanas pedindo cafeína, até habituar-se. agora o cérebro contrai-se pedindo silêncio e solidão, mas não pretendo que se habitue.











e tu ana, como passas os teus dias?










por exemplo hoje, acordei com a claridade do dia, tomei um copo de água, e é aqui que falo com o pessoal semi-invisível, fiz massa para empadas, muita, e aqui falo outra vez com as gentes lá de cima, tomei o pequeno almoço, tratei de umas notícias, fui buscar cogumelos, voltei para as noticias enquanto ouvi os desabafos de uma amiga, fiz etiquetas, fui à padaria, fui entregar encomendas, fui ao café tomar uma espécie de café e comer meio pastel, aproveitei para passar facturas, fui à peixaria, fui ao staples, entreguei outra encomenda, deixei a mãe no cabeleireiro, fui ao talho buscar cadáveres, fui ao lidl, voltei para casa carregada como uma jerica, pus os cadáveres a cozinhar, grelhei peixe para o almoço, almocei, voltei para as notícias, depois vou arrumar a cozinha, vou consultar as cartas para dar umas respostas (ensinou-me a dona fernanda), vou transformar os cadáveres em empadas, depois faço uma salada gigante, jantarei, descansarei uns 15 minutos no sofá, tomarei um duche, medito, falo com o pessoal lá de cima, e dormirei, se calhar bem. não me tem apetecido escrever. 
ontem ainda consegui ir a uma sardinhada, mas há qualquer coisa na minha vida que não está bem e eu não consigo perceber o quê.













terça-feira, 4 de julho de 2017

não fosse ele ser jeitoso












a alexandra, uma mulher com cerca de 45 anos, que rodopia levando e trazendo cafés, torradas, pasteis e copos de água fresca, com uma competência que a distingue das raparigas mais novas, pisca o olho e faz sinal para que se olhe para a mesa atrás dela, onde está sentado um homem que se entretém a deslizar o dedo pelo ecrã de um aparelho digital. 'é o meu homem', diz ela só com os lábios, sem soltar palavras com som. 'olha que é muito bom!' dizem-lhe. 'pois é. eu sei. é por isso que o aturo, senão já lhe tinha dado um pontapé e mandado daqui para fora. veio do brasil, sabe?'. a alexandra não precisa de diálogo, basta-lhe um monólogo direccionado para soltar o que lhe vai na alma. 'mas chateamo-nos. não fosse ele ser jeitoso, dizia-lhe onde ia parar. ontem, à saída do restaurante, depois de jantar, moeu-me o juízo como sei lá o quê. abri a carteira, tirei um calmante - trago-os sempre comigo - meti à boca, encostei a cabeça e deixei-o falar a viagem toda de volta a casa. quando cheguei, deitei-me e dormi como um anjinho. viver não custa, o que custa é saber viver. olhe o que eu lhe digo'. eu olhei.











domingo, 2 de julho de 2017

tablet











encontro o meu rosto reflectido no ecrã negro do tablet que me entregam nas mãos. no reflexo deparo com uma ruga funda perto do lábio, que não conhecia, assim como com a flacidez da pele que responde à inclinação a que me obriga o aparelho pousado nos meus joelhos. o tempo, por fora, corre a um ritmo que não coincide com o de dentro, de uma forma trocista, matreira, como aquela criança que aos dois anos ainda não tinha dito uma palavra, e de repente diz que não quer comer puré. penso nele. quisera um dia ter um corpo que não mostrasse as marcas do tempo, para lhe entregar, que fosse minimamente fresco, leve, se possível. mas esse dia ficou irremediavelmente perdido numa inoportunidade, num hiato da vida, e, os dias foram passando, as semanas, os meses, passaram os anos, também. enquanto isso, fui-lhe mostrando o pior da minha alma, sem pudor, sem vergonha, sem preconceito, sem véus. pensei que ele se fosse embora, que partisse, que me deixasse sem sequer dizer adeus. mas não foi isso que aconteceu, ainda. ele conhece todas as minhas invisibilidades e ainda está por cá.










sábado, 1 de julho de 2017

manca









tanto tempo esperou por ele, sem que ele chegasse, que caminhava manca e ninguém percebia.










O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida








O escorpião perseguia-me. Dele via apenas a cauda curva e o ferrão, enormes, do tamanho da minha altura. Enquanto eu tentava ignorá-lo, ele insistia que eu o visse. Tinha-se tornado na minha sombra e era o meu prolongamento. 

O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida, nem olha para mim enquanto me fala. O animal é a parte feia de ti, aquela que rejeitas, aquela que não queres olhar. Não caminhas inteira enquanto não dialogares com ela. 
Agora a vida corre-te ao contrário. É fácil ter fé quando assistes a milagres. Agora que tudo desaba, quero ver onde assentas os pés. 
Houve um tempo em que agradecias, agora, só pedes, e mesmo pedindo, e mesmo sendo te concedido, não o vês, não deixas o acontecer, não dás espaço à manifestação. 
Numb, vives numbiando. 
O que fizeste com o que aprendeste? 
Do tempo, foi-te dado tudo e tudo deixaste do lado de fora da alma. 
Até o teu corpo deixaste de ouvir desde que os químicos adormeceram os sintomas que faziam o teu coração falar. 
Querias curar o homem? Como, se lhe entregas apenas o amor que sentes por ele? 
Vive, fala, respira com o corpo todo. Ouve e vê de olhos fechados. Encontra-te no ruído e no silêncio.