quinta-feira, 6 de julho de 2017

o homem











estavam cerca de cinco mesas ocupadas, esta manhã, no café onde me adivinham a vontade. em todas as mesas estava alguém, com o olhar inclinado para um telemóvel, onde deslizava o dedo, suponho que à procura de ligação com um lugar que não aquele, onde se encontravam. também eu de vez em quando olhava para o meu ecrã em busca de algo que não tinha no momento. mas à minha frente, junto à janela, estava um homem luminoso. não sei se a luminosidade lhe vinha do cabelo e barba quase brancos, se da camisa, se do suave sorriso que tinha no rosto ou do brilho do olhar. sei que não tinha telemóvel pousado na mesa, nem jornal. apenas a chávena vazia do café. de vez em quando olhava à volta, reparava nos disparates que as funcionárias atiravam para a minha mesa, e fixava-se muito ligeiramente no lugar onde eu sabia estar a televisão. por vezes cruzava os pés debaixo da mesa, voltando a colocá-los a par. e esteve ali, sereno com tudo, calado, sem dedilhar, sem ler, ali, apenas. quando se levantou, vi que o televisor estava desligado. fez-me recordar o tempo em que não havia fugas de bolso, em que quando estávamos, estávamos. segui-o com o olhar até onde consegui alcançar.












é isto






















quarta-feira, 5 de julho de 2017

o que me falta










o que me falta, sobretudo e sobre tudo, é estar só, é o silêncio ou apenas o som das gaivotas em alvoroço longínquo. esta necessidade é de tal forma premente, que me sinto como um animal encurralado nestes dias em que tenho sempre, sempre, alguém por perto. é um vício que não sabia que tinha e que sinto agora, não só na alma, mas também de forma dolorosa, no corpo, no desnorteio. faz-me lembrar da dependência que eu não sabia que tinha do café, até ao dia em que o médico mo proibiu. apenas um, disse-me ele quando eu insisti, mas de preferência um carioca, aquela coisa para enganar tolos que eu tomo, assim tipo café, tu sabes. o meu corpo contraiu-se durante semanas pedindo cafeína, até habituar-se. agora o cérebro contrai-se pedindo silêncio e solidão, mas não pretendo que se habitue.











e tu ana, como passas os teus dias?










por exemplo hoje, acordei com a claridade do dia, tomei um copo de água, e é aqui que falo com o pessoal semi-invisível, fiz massa para empadas, muita, e aqui falo outra vez com as gentes lá de cima, tomei o pequeno almoço, tratei de umas notícias, fui buscar cogumelos, voltei para as noticias enquanto ouvi os desabafos de uma amiga, fiz etiquetas, fui à padaria, fui entregar encomendas, fui ao café tomar uma espécie de café e comer meio pastel, aproveitei para passar facturas, fui à peixaria, fui ao staples, entreguei outra encomenda, deixei a mãe no cabeleireiro, fui ao talho buscar cadáveres, fui ao lidl, voltei para casa carregada como uma jerica, pus os cadáveres a cozinhar, grelhei peixe para o almoço, almocei, voltei para as notícias, depois vou arrumar a cozinha, vou consultar as cartas para dar umas respostas (ensinou-me a dona fernanda), vou transformar os cadáveres em empadas, depois faço uma salada gigante, jantarei, descansarei uns 15 minutos no sofá, tomarei um duche, medito, falo com o pessoal lá de cima, e dormirei, se calhar bem. não me tem apetecido escrever. 
ontem ainda consegui ir a uma sardinhada, mas há qualquer coisa na minha vida que não está bem e eu não consigo perceber o quê.













terça-feira, 4 de julho de 2017

não fosse ele ser jeitoso












a alexandra, uma mulher com cerca de 45 anos, que rodopia levando e trazendo cafés, torradas, pasteis e copos de água fresca, com uma competência que a distingue das raparigas mais novas, pisca o olho e faz sinal para que se olhe para a mesa atrás dela, onde está sentado um homem que se entretém a deslizar o dedo pelo ecrã de um aparelho digital. 'é o meu homem', diz ela só com os lábios, sem soltar palavras com som. 'olha que é muito bom!' dizem-lhe. 'pois é. eu sei. é por isso que o aturo, senão já lhe tinha dado um pontapé e mandado daqui para fora. veio do brasil, sabe?'. a alexandra não precisa de diálogo, basta-lhe um monólogo direccionado para soltar o que lhe vai na alma. 'mas chateamo-nos. não fosse ele ser jeitoso, dizia-lhe onde ia parar. ontem, à saída do restaurante, depois de jantar, moeu-me o juízo como sei lá o quê. abri a carteira, tirei um calmante - trago-os sempre comigo - meti à boca, encostei a cabeça e deixei-o falar a viagem toda de volta a casa. quando cheguei, deitei-me e dormi como um anjinho. viver não custa, o que custa é saber viver. olhe o que eu lhe digo'. eu olhei.











domingo, 2 de julho de 2017

tablet











encontro o meu rosto reflectido no ecrã negro do tablet que me entregam nas mãos. no reflexo deparo com uma ruga funda perto do lábio, que não conhecia, assim como com a flacidez da pele que responde à inclinação a que me obriga o aparelho pousado nos meus joelhos. o tempo, por fora, corre a um ritmo que não coincide com o de dentro, de uma forma trocista, matreira, como aquela criança que aos dois anos ainda não tinha dito uma palavra, e de repente diz que não quer comer puré. penso nele. quisera um dia ter um corpo que não mostrasse as marcas do tempo, para lhe entregar, que fosse minimamente fresco, leve, se possível. mas esse dia ficou irremediavelmente perdido numa inoportunidade, num hiato da vida, e, os dias foram passando, as semanas, os meses, passaram os anos, também. enquanto isso, fui-lhe mostrando o pior da minha alma, sem pudor, sem vergonha, sem preconceito, sem véus. pensei que ele se fosse embora, que partisse, que me deixasse sem sequer dizer adeus. mas não foi isso que aconteceu, ainda. ele conhece todas as minhas invisibilidades e ainda está por cá.










sábado, 1 de julho de 2017

manca









tanto tempo esperou por ele, sem que ele chegasse, que caminhava manca e ninguém percebia.










O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida








O escorpião perseguia-me. Dele via apenas a cauda curva e o ferrão, enormes, do tamanho da minha altura. Enquanto eu tentava ignorá-lo, ele insistia que eu o visse. Tinha-se tornado na minha sombra e era o meu prolongamento. 

O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida, nem olha para mim enquanto me fala. O animal é a parte feia de ti, aquela que rejeitas, aquela que não queres olhar. Não caminhas inteira enquanto não dialogares com ela. 
Agora a vida corre-te ao contrário. É fácil ter fé quando assistes a milagres. Agora que tudo desaba, quero ver onde assentas os pés. 
Houve um tempo em que agradecias, agora, só pedes, e mesmo pedindo, e mesmo sendo te concedido, não o vês, não deixas o acontecer, não dás espaço à manifestação. 
Numb, vives numbiando. 
O que fizeste com o que aprendeste? 
Do tempo, foi-te dado tudo e tudo deixaste do lado de fora da alma. 
Até o teu corpo deixaste de ouvir desde que os químicos adormeceram os sintomas que faziam o teu coração falar. 
Querias curar o homem? Como, se lhe entregas apenas o amor que sentes por ele? 
Vive, fala, respira com o corpo todo. Ouve e vê de olhos fechados. Encontra-te no ruído e no silêncio.












sexta-feira, 30 de junho de 2017

prioridades








a mulher despede-se de mim depois de ter enumerado detalhadamente os sucessos profissionais do filho mais velho. do mais novo, nem um pio. pelo meu lado, que não tenho grandes resultados académicos e muito menos profissionais para exibir, ouvi calada, arriscando, para despedida um 'o que interessa é que sejam felizes', ao que ela foi dizendo, enquanto saía 'felizes? não, isso não é o mais importante'. muda, fiquei, e queda, por uns segundos, estática de raciocínio.











quinta-feira, 29 de junho de 2017

sono









tenho o rapaz deitado, no sofá, ao meu lado, e passo lentamente o polegar no intervalo entre as suas sobrancelhas até à curva onde o rosto lhe começa a erguer o nariz. repito. ele deixa as pálpebras semicerrar. o que me fazes? pergunta-me com o sorriso que tinha em criança, quando era feliz e não o sabia. faço-te sono, sentes? ele, que ainda exala o aroma do café acabado de tomar, diz-me 'não me fazes sono porque eu não quero dormir, mas estás a fazer-me tanta preguiça. num tempo muito longínquo, eu fazia alguém, perdido do sono e da vida, adormecer assim, como por magia.