sábado, 1 de julho de 2017

manca









tanto tempo esperou por ele, sem que ele chegasse, que caminhava manca e ninguém percebia.










O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida








O escorpião perseguia-me. Dele via apenas a cauda curva e o ferrão, enormes, do tamanho da minha altura. Enquanto eu tentava ignorá-lo, ele insistia que eu o visse. Tinha-se tornado na minha sombra e era o meu prolongamento. 

O homem que está sempre a varrer a estrada de terra batida, nem olha para mim enquanto me fala. O animal é a parte feia de ti, aquela que rejeitas, aquela que não queres olhar. Não caminhas inteira enquanto não dialogares com ela. 
Agora a vida corre-te ao contrário. É fácil ter fé quando assistes a milagres. Agora que tudo desaba, quero ver onde assentas os pés. 
Houve um tempo em que agradecias, agora, só pedes, e mesmo pedindo, e mesmo sendo te concedido, não o vês, não deixas o acontecer, não dás espaço à manifestação. 
Numb, vives numbiando. 
O que fizeste com o que aprendeste? 
Do tempo, foi-te dado tudo e tudo deixaste do lado de fora da alma. 
Até o teu corpo deixaste de ouvir desde que os químicos adormeceram os sintomas que faziam o teu coração falar. 
Querias curar o homem? Como, se lhe entregas apenas o amor que sentes por ele? 
Vive, fala, respira com o corpo todo. Ouve e vê de olhos fechados. Encontra-te no ruído e no silêncio.












sexta-feira, 30 de junho de 2017

prioridades








a mulher despede-se de mim depois de ter enumerado detalhadamente os sucessos profissionais do filho mais velho. do mais novo, nem um pio. pelo meu lado, que não tenho grandes resultados académicos e muito menos profissionais para exibir, ouvi calada, arriscando, para despedida um 'o que interessa é que sejam felizes', ao que ela foi dizendo, enquanto saía 'felizes? não, isso não é o mais importante'. muda, fiquei, e queda, por uns segundos, estática de raciocínio.











quinta-feira, 29 de junho de 2017

sono









tenho o rapaz deitado, no sofá, ao meu lado, e passo lentamente o polegar no intervalo entre as suas sobrancelhas até à curva onde o rosto lhe começa a erguer o nariz. repito. ele deixa as pálpebras semicerrar. o que me fazes? pergunta-me com o sorriso que tinha em criança, quando era feliz e não o sabia. faço-te sono, sentes? ele, que ainda exala o aroma do café acabado de tomar, diz-me 'não me fazes sono porque eu não quero dormir, mas estás a fazer-me tanta preguiça. num tempo muito longínquo, eu fazia alguém, perdido do sono e da vida, adormecer assim, como por magia.










quarta-feira, 28 de junho de 2017

sabe, doutor











sabe doutor, ele não me quer. ah, não olhe assim para mim, doutor, não se preocupe, eu estou bem, aliviada até. sim, estava cansada, tão cansada, cansada de esperar, de ver o tempo correr, fugir, mesmo, de contar os meses, sabe? como me sinto agora? olhe, por enquanto, aliviada mesmo, como lhe disse. sinto que posso envelhecer com calma, sem a angústia de querer parar o tempo para que ele me recebesse. não, o futuro não me apoquenta, vou viver devagar. alegria? sim, o doutor sabe, isso é que é pior, ainda não consigo fechar aquela fresta que faz com que a alegria me venha dele. quando dou por mim, estou mais leve devido a, sei lá, um olá, uma ninharia.













espelho










desliga o telefone. pousa a cabeça em cima das mãos fechadas, e as lágrimas assomam aos olhos. outra vez. outro espelho. saíram da sua boca, destinadas à mulher do outro lado do país, as palavras que ela mesma precisa de, repetidamente, ouvir. 'está a repetir um padrão. olhe para o que lhe acontece recorrentemente e perceba o que tem que aprender. senão, continuará a viver essas situações. respeite-se, valorize-se, trate de si em primeiro lugar, mas em consciência, não porque me ouviu dizer, ou porque reconhece que tenho razão. sinta-o. faça-o. viva-o. ampare os seus filhos, mas deixe que sofram. não mascare a realidade ou o sofrimento deles. estará a impedir que cresçam, também eles têm que atravessar essa estrada e aprender com isso. o seu papel é tentar que não cresçam amargurados, mostre-lhes o outro lado da vida, docemente." do outro lado a mulher chorava as lágrimas que ela mesma nunca tivera coragem de chorar. "não se esqueça do que lhe digo. é provável que eu esqueça muito em breve."












terça-feira, 27 de junho de 2017

o gesto











Foi naquela tarde, naquela enfermaria, àquele homem debilitado, que aquela mulher, sentada ao lado do cadeirão, insistentemente colocava-lhe uma bola nas mãos para que ele exercitasse, com os seus gestos frágeis e desarticulados. - sabes, Zé, a nossa força vem daqui, daqui! - dizia-lhe enquanto batia com a mão no peito do marido, e ele anuía. 
Eu sei que naquele momento, aquela força interior não teve resultado visível. Tinha tido durante duas vidas inteiras. Continuou a ter gravada a fogo na minha memória, propagando-se para além de mim. Aquele gesto não terá salvado aquele corpo, mas é orientação para a minha vida e para as vidas que toco.












segunda-feira, 26 de junho de 2017

Duelo de cinzas







É de dentro para fora, insisto. Até o azul do céu se acinzenta se o coração não estiver alegre. É de fora para dentro, insiste comigo. De cada vez que ele se ausenta, o meu coração torna-se cinzento.








a calma da dona fernanda









a calma que a dona fernanda alcançou, não a faz feliz. anda pelos dias como se lhe pesasse o corpo, passaram-lhe os achaques que lhe despertavam os sentidos, e o reboliço de pele que lhe enxotava o sono, também morreu, de morte forçada, diz ela, explicando que não foi morte encomendada por ela. 
eu, que pensava que era a calma a que ela aspirava, surpreendi-me. diz ela que até a face a contraria, quando força um sorriso, e não sorri. pergunto o que lhe falta, e ela diz que não é de falta que se trata, é pelo contrário, de demasia, evidências a mais que a trazem naquela calma, naquela falta de motivos.











domingo, 25 de junho de 2017

credo, que sufoco








35 minutos ao telefone a falar com ela, a ouvi-la contar do homem que a deixa em suspenso, que não lhe responde às mensagens, que chega atrasado à festa sem uma justificação, que lhe dedica uma canção e sai, que a mantém expectante enquanto seduz a outra, que não lhe diz que a quer, mas que não diz que não quer, que a convida para tomar um café mostrando-se delicado e atencioso, ignorando-a nos dias seguintes. e ela, a gostar cada vez mais dele. e eu a ouvi-la. e eu a aconselhá-la a esclarecer a situação, lembrando que enquanto lhe dedica a atenção, indisponibiliza-se para quem realmente a quiser, que ele não está a ser honesto, que ela tem que saber o chão que pisa, que sempre procurou estabilidade, que sem confiança e transparência não há relacionamento algum, nem sequer amizade, muito menos amizade. e ela a ouvir-me, e eu a ouvir-me, e na minha cabeça a ecoar um 'não tinhas pedido pistas, orientação? não pediste para te ajudar a ver o que não consegues ver?', e ela do outro lado do telefone a falar nas palavras que ele lhe dedicou, e que no minuto a seguir deixou-a só, sem nada lhe dizer no dia seguinte. e eu ansiosa por desligar o telefone.