quarta-feira, 28 de junho de 2017

sabe, doutor











sabe doutor, ele não me quer. ah, não olhe assim para mim, doutor, não se preocupe, eu estou bem, aliviada até. sim, estava cansada, tão cansada, cansada de esperar, de ver o tempo correr, fugir, mesmo, de contar os meses, sabe? como me sinto agora? olhe, por enquanto, aliviada mesmo, como lhe disse. sinto que posso envelhecer com calma, sem a angústia de querer parar o tempo para que ele me recebesse. não, o futuro não me apoquenta, vou viver devagar. alegria? sim, o doutor sabe, isso é que é pior, ainda não consigo fechar aquela fresta que faz com que a alegria me venha dele. quando dou por mim, estou mais leve devido a, sei lá, um olá, uma ninharia.













espelho










desliga o telefone. pousa a cabeça em cima das mãos fechadas, e as lágrimas assomam aos olhos. outra vez. outro espelho. saíram da sua boca, destinadas à mulher do outro lado do país, as palavras que ela mesma precisa de, repetidamente, ouvir. 'está a repetir um padrão. olhe para o que lhe acontece recorrentemente e perceba o que tem que aprender. senão, continuará a viver essas situações. respeite-se, valorize-se, trate de si em primeiro lugar, mas em consciência, não porque me ouviu dizer, ou porque reconhece que tenho razão. sinta-o. faça-o. viva-o. ampare os seus filhos, mas deixe que sofram. não mascare a realidade ou o sofrimento deles. estará a impedir que cresçam, também eles têm que atravessar essa estrada e aprender com isso. o seu papel é tentar que não cresçam amargurados, mostre-lhes o outro lado da vida, docemente." do outro lado a mulher chorava as lágrimas que ela mesma nunca tivera coragem de chorar. "não se esqueça do que lhe digo. é provável que eu esqueça muito em breve."












terça-feira, 27 de junho de 2017

o gesto











Foi naquela tarde, naquela enfermaria, àquele homem debilitado, que aquela mulher, sentada ao lado do cadeirão, insistentemente colocava-lhe uma bola nas mãos para que ele exercitasse, com os seus gestos frágeis e desarticulados. - sabes, Zé, a nossa força vem daqui, daqui! - dizia-lhe enquanto batia com a mão no peito do marido, e ele anuía. 
Eu sei que naquele momento, aquela força interior não teve resultado visível. Tinha tido durante duas vidas inteiras. Continuou a ter gravada a fogo na minha memória, propagando-se para além de mim. Aquele gesto não terá salvado aquele corpo, mas é orientação para a minha vida e para as vidas que toco.












segunda-feira, 26 de junho de 2017

Duelo de cinzas







É de dentro para fora, insisto. Até o azul do céu se acinzenta se o coração não estiver alegre. É de fora para dentro, insiste comigo. De cada vez que ele se ausenta, o meu coração torna-se cinzento.








a calma da dona fernanda









a calma que a dona fernanda alcançou, não a faz feliz. anda pelos dias como se lhe pesasse o corpo, passaram-lhe os achaques que lhe despertavam os sentidos, e o reboliço de pele que lhe enxotava o sono, também morreu, de morte forçada, diz ela, explicando que não foi morte encomendada por ela. 
eu, que pensava que era a calma a que ela aspirava, surpreendi-me. diz ela que até a face a contraria, quando força um sorriso, e não sorri. pergunto o que lhe falta, e ela diz que não é de falta que se trata, é pelo contrário, de demasia, evidências a mais que a trazem naquela calma, naquela falta de motivos.











domingo, 25 de junho de 2017

credo, que sufoco








35 minutos ao telefone a falar com ela, a ouvi-la contar do homem que a deixa em suspenso, que não lhe responde às mensagens, que chega atrasado à festa sem uma justificação, que lhe dedica uma canção e sai, que a mantém expectante enquanto seduz a outra, que não lhe diz que a quer, mas que não diz que não quer, que a convida para tomar um café mostrando-se delicado e atencioso, ignorando-a nos dias seguintes. e ela, a gostar cada vez mais dele. e eu a ouvi-la. e eu a aconselhá-la a esclarecer a situação, lembrando que enquanto lhe dedica a atenção, indisponibiliza-se para quem realmente a quiser, que ele não está a ser honesto, que ela tem que saber o chão que pisa, que sempre procurou estabilidade, que sem confiança e transparência não há relacionamento algum, nem sequer amizade, muito menos amizade. e ela a ouvir-me, e eu a ouvir-me, e na minha cabeça a ecoar um 'não tinhas pedido pistas, orientação? não pediste para te ajudar a ver o que não consegues ver?', e ela do outro lado do telefone a falar nas palavras que ele lhe dedicou, e que no minuto a seguir deixou-a só, sem nada lhe dizer no dia seguinte. e eu ansiosa por desligar o telefone.











terramoto























- à medida que eu me amargo, a vida amarga-se comigo, e eu, amargo-me. não saio disto. - disse-lhe sem necessidade de o dizer
- quando tu mudas, tudo muda à tua volta - disse o homem - já o viste acontecer, sabes que é verdade. mas essa mudança não é pacífica, toda ela é violenta. tens que manter o equilíbrio enquanto a terra treme, e não tornares-te num terramoto tu mesma. tu mudas e tudo muda, se tudo mudar, tu permanece, serena, e alegre, não esqueças que a alegria é a maior acção de graças.













sábado, 24 de junho de 2017

o casal












ele e ela, sentados na mesa ao lado da minha, na véspera do dia de são joão, já são um casal há muitos muitos anos. sorriem. ela tem uma aparência calma, mas eu sei que aquela calma por vezes a queima por dentro. ele tem um ar distante, mas o ar à volta deles emana aceitação, entendimento. jantam sardinhas assadas, com batatas, pimentos, e acompanham com vinho tinto. ela come lentamente, com a sabedoria de quem sabe apreciar. mastiga devagar, sente o aroma do vinho antes de o tomar, e retém-no na boca breves momentos, antes de o engolir. conversam. ele, do seu lado esquerdo tem um telemóvel que é mais do que um smartphone, onde vai assistindo a um jogo de futebol. ela não se importa, olha-o com carinho, ele, respira tranquilidade pelo olhar. de vez em quando ela sorri na direcção da minha mesa, onde, o meu filho e antigo aluno dela, manifesta carinho pela avó. ele e ela ignoram as pessoas todas que enchem o restaurante, ávidas de motivos para comentários venenosos.














Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais







de cada vez que abro este aparelho que me liga, daqui, aí, aparece-me uma janela que me mostra a caixa de correio, e outra que me mostra odilon redon. poderia dizer que é uma declaração de amor, o que vejo enquanto escrevo estas palavras, mas não é, ou pelo menos pretendo que não seja, é antes uma teimosia, uma forma de prolongar a manifestação dele em tudo o que não é ele, sendo-o.

[o titulo é um verso de um poema de daniel faria]













Hipertermia






Prolongo a duração do banho. Sinto de novo o conforto, o aconchego, a envolvência da água quente que desliza pelo meu corpo. Finalmente arrefeci. Recordo que um dia te disse que a melhor invenção de sempre é a água quente a sair de um chuveiro. E é. Esta noite em que regresso fria da[e] rua[ti], é.