segunda-feira, 26 de junho de 2017

Duelo de cinzas







É de dentro para fora, insisto. Até o azul do céu se acinzenta se o coração não estiver alegre. É de fora para dentro, insiste comigo. De cada vez que ele se ausenta, o meu coração torna-se cinzento.








a calma da dona fernanda









a calma que a dona fernanda alcançou, não a faz feliz. anda pelos dias como se lhe pesasse o corpo, passaram-lhe os achaques que lhe despertavam os sentidos, e o reboliço de pele que lhe enxotava o sono, também morreu, de morte forçada, diz ela, explicando que não foi morte encomendada por ela. 
eu, que pensava que era a calma a que ela aspirava, surpreendi-me. diz ela que até a face a contraria, quando força um sorriso, e não sorri. pergunto o que lhe falta, e ela diz que não é de falta que se trata, é pelo contrário, de demasia, evidências a mais que a trazem naquela calma, naquela falta de motivos.











domingo, 25 de junho de 2017

credo, que sufoco








35 minutos ao telefone a falar com ela, a ouvi-la contar do homem que a deixa em suspenso, que não lhe responde às mensagens, que chega atrasado à festa sem uma justificação, que lhe dedica uma canção e sai, que a mantém expectante enquanto seduz a outra, que não lhe diz que a quer, mas que não diz que não quer, que a convida para tomar um café mostrando-se delicado e atencioso, ignorando-a nos dias seguintes. e ela, a gostar cada vez mais dele. e eu a ouvi-la. e eu a aconselhá-la a esclarecer a situação, lembrando que enquanto lhe dedica a atenção, indisponibiliza-se para quem realmente a quiser, que ele não está a ser honesto, que ela tem que saber o chão que pisa, que sempre procurou estabilidade, que sem confiança e transparência não há relacionamento algum, nem sequer amizade, muito menos amizade. e ela a ouvir-me, e eu a ouvir-me, e na minha cabeça a ecoar um 'não tinhas pedido pistas, orientação? não pediste para te ajudar a ver o que não consegues ver?', e ela do outro lado do telefone a falar nas palavras que ele lhe dedicou, e que no minuto a seguir deixou-a só, sem nada lhe dizer no dia seguinte. e eu ansiosa por desligar o telefone.











terramoto























- à medida que eu me amargo, a vida amarga-se comigo, e eu, amargo-me. não saio disto. - disse-lhe sem necessidade de o dizer
- quando tu mudas, tudo muda à tua volta - disse o homem - já o viste acontecer, sabes que é verdade. mas essa mudança não é pacífica, toda ela é violenta. tens que manter o equilíbrio enquanto a terra treme, e não tornares-te num terramoto tu mesma. tu mudas e tudo muda, se tudo mudar, tu permanece, serena, e alegre, não esqueças que a alegria é a maior acção de graças.













sábado, 24 de junho de 2017

o casal












ele e ela, sentados na mesa ao lado da minha, na véspera do dia de são joão, já são um casal há muitos muitos anos. sorriem. ela tem uma aparência calma, mas eu sei que aquela calma por vezes a queima por dentro. ele tem um ar distante, mas o ar à volta deles emana aceitação, entendimento. jantam sardinhas assadas, com batatas, pimentos, e acompanham com vinho tinto. ela come lentamente, com a sabedoria de quem sabe apreciar. mastiga devagar, sente o aroma do vinho antes de o tomar, e retém-no na boca breves momentos, antes de o engolir. conversam. ele, do seu lado esquerdo tem um telemóvel que é mais do que um smartphone, onde vai assistindo a um jogo de futebol. ela não se importa, olha-o com carinho, ele, respira tranquilidade pelo olhar. de vez em quando ela sorri na direcção da minha mesa, onde, o meu filho e antigo aluno dela, manifesta carinho pela avó. ele e ela ignoram as pessoas todas que enchem o restaurante, ávidas de motivos para comentários venenosos.














Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais







de cada vez que abro este aparelho que me liga, daqui, aí, aparece-me uma janela que me mostra a caixa de correio, e outra que me mostra odilon redon. poderia dizer que é uma declaração de amor, o que vejo enquanto escrevo estas palavras, mas não é, ou pelo menos pretendo que não seja, é antes uma teimosia, uma forma de prolongar a manifestação dele em tudo o que não é ele, sendo-o.

[o titulo é um verso de um poema de daniel faria]













Hipertermia






Prolongo a duração do banho. Sinto de novo o conforto, o aconchego, a envolvência da água quente que desliza pelo meu corpo. Finalmente arrefeci. Recordo que um dia te disse que a melhor invenção de sempre é a água quente a sair de um chuveiro. E é. Esta noite em que regresso fria da[e] rua[ti], é.










sexta-feira, 23 de junho de 2017

santo padroeiro










Vou solteira ao S. João,
mas para casar, não corro.
Não vou trocar meu manjerico,
por um qualquer alho porro.




















quinta-feira, 22 de junho de 2017

Festejos






É por baixo da minha varanda que actuam os artistas que o município contrata durante o mês de festejos do santo padroeiro. Neste momento, está lá um que faz de conta que se esforça, berrando. Não o ouviria mais alto se estivesse aqui sentado ao meu lado. O meu filho admira-se quando digo que vou dormir. Como consegues? - Consigo. Só não consigo se não meditar.






esta









o calor destes dias entranhou-se-me no corpo e ficou. os incêndios entranharam-se-me na alma e ficaram. acordo a meio da noite e a minha pele está a ferver, durante o dia pesa-me o corpo e falta-me o riso. não sou eu esta que tomou conta de mim.
as horas que o dia me oferece não chegam para o que preciso. enervo-me com assuntos sem importância e isso faz-me adoecer. cada vez tenho menos figuras de estilo para enfeitar a minha escrita e o meu coração parece um figo seco, olha uma figura, e nem sofro nem me alegro por amor. 
acho que o criador fala comigo e não o entendo. enquanto isso, mirro.