domingo, 25 de junho de 2017

credo, que sufoco








35 minutos ao telefone a falar com ela, a ouvi-la contar do homem que a deixa em suspenso, que não lhe responde às mensagens, que chega atrasado à festa sem uma justificação, que lhe dedica uma canção e sai, que a mantém expectante enquanto seduz a outra, que não lhe diz que a quer, mas que não diz que não quer, que a convida para tomar um café mostrando-se delicado e atencioso, ignorando-a nos dias seguintes. e ela, a gostar cada vez mais dele. e eu a ouvi-la. e eu a aconselhá-la a esclarecer a situação, lembrando que enquanto lhe dedica a atenção, indisponibiliza-se para quem realmente a quiser, que ele não está a ser honesto, que ela tem que saber o chão que pisa, que sempre procurou estabilidade, que sem confiança e transparência não há relacionamento algum, nem sequer amizade, muito menos amizade. e ela a ouvir-me, e eu a ouvir-me, e na minha cabeça a ecoar um 'não tinhas pedido pistas, orientação? não pediste para te ajudar a ver o que não consegues ver?', e ela do outro lado do telefone a falar nas palavras que ele lhe dedicou, e que no minuto a seguir deixou-a só, sem nada lhe dizer no dia seguinte. e eu ansiosa por desligar o telefone.











terramoto























- à medida que eu me amargo, a vida amarga-se comigo, e eu, amargo-me. não saio disto. - disse-lhe sem necessidade de o dizer
- quando tu mudas, tudo muda à tua volta - disse o homem - já o viste acontecer, sabes que é verdade. mas essa mudança não é pacífica, toda ela é violenta. tens que manter o equilíbrio enquanto a terra treme, e não tornares-te num terramoto tu mesma. tu mudas e tudo muda, se tudo mudar, tu permanece, serena, e alegre, não esqueças que a alegria é a maior acção de graças.













sábado, 24 de junho de 2017

o casal












ele e ela, sentados na mesa ao lado da minha, na véspera do dia de são joão, já são um casal há muitos muitos anos. sorriem. ela tem uma aparência calma, mas eu sei que aquela calma por vezes a queima por dentro. ele tem um ar distante, mas o ar à volta deles emana aceitação, entendimento. jantam sardinhas assadas, com batatas, pimentos, e acompanham com vinho tinto. ela come lentamente, com a sabedoria de quem sabe apreciar. mastiga devagar, sente o aroma do vinho antes de o tomar, e retém-no na boca breves momentos, antes de o engolir. conversam. ele, do seu lado esquerdo tem um telemóvel que é mais do que um smartphone, onde vai assistindo a um jogo de futebol. ela não se importa, olha-o com carinho, ele, respira tranquilidade pelo olhar. de vez em quando ela sorri na direcção da minha mesa, onde, o meu filho e antigo aluno dela, manifesta carinho pela avó. ele e ela ignoram as pessoas todas que enchem o restaurante, ávidas de motivos para comentários venenosos.














Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais







de cada vez que abro este aparelho que me liga, daqui, aí, aparece-me uma janela que me mostra a caixa de correio, e outra que me mostra odilon redon. poderia dizer que é uma declaração de amor, o que vejo enquanto escrevo estas palavras, mas não é, ou pelo menos pretendo que não seja, é antes uma teimosia, uma forma de prolongar a manifestação dele em tudo o que não é ele, sendo-o.

[o titulo é um verso de um poema de daniel faria]













Hipertermia






Prolongo a duração do banho. Sinto de novo o conforto, o aconchego, a envolvência da água quente que desliza pelo meu corpo. Finalmente arrefeci. Recordo que um dia te disse que a melhor invenção de sempre é a água quente a sair de um chuveiro. E é. Esta noite em que regresso fria da[e] rua[ti], é.










sexta-feira, 23 de junho de 2017

santo padroeiro










Vou solteira ao S. João,
mas para casar, não corro.
Não vou trocar meu manjerico,
por um qualquer alho porro.




















quinta-feira, 22 de junho de 2017

Festejos






É por baixo da minha varanda que actuam os artistas que o município contrata durante o mês de festejos do santo padroeiro. Neste momento, está lá um que faz de conta que se esforça, berrando. Não o ouviria mais alto se estivesse aqui sentado ao meu lado. O meu filho admira-se quando digo que vou dormir. Como consegues? - Consigo. Só não consigo se não meditar.






esta









o calor destes dias entranhou-se-me no corpo e ficou. os incêndios entranharam-se-me na alma e ficaram. acordo a meio da noite e a minha pele está a ferver, durante o dia pesa-me o corpo e falta-me o riso. não sou eu esta que tomou conta de mim.
as horas que o dia me oferece não chegam para o que preciso. enervo-me com assuntos sem importância e isso faz-me adoecer. cada vez tenho menos figuras de estilo para enfeitar a minha escrita e o meu coração parece um figo seco, olha uma figura, e nem sofro nem me alegro por amor. 
acho que o criador fala comigo e não o entendo. enquanto isso, mirro.












quarta-feira, 21 de junho de 2017

da vida








a minha mãe sobe com custo as escadas da casa da música. eu, sigo atrás, com medo que o joelho lhe falhe. procuro sempre a melhor posição para a amparar, sem que ela o note, em caso de fraqueza. se sobe, subo atrás dela, se desce, desço à frente, um bocado enviesada, confesso, para que seguindo à frente consiga ver o que se passa atrás. não quero que ela perceba que lhe noto a crescente fragilidade, acho que nem quero mesmo notá-la eu. procuro aceitar a força que ela me traz, o optimismo inabalável, a convicção de que o que importa é andar por cá para sentir o frio, o sol, a chuva, o calor, que não interessa se os netos têm sucesso nos estudos, mas sim que o que importa é saber se são felizes. claro que ela também é de gancho. ai se lhe pisam os calos, ou melhor dizendo, os joanetes, que calos ela não tem.

mas enquanto ontem, eu dizia à minha amiga que temos que apreciar o momento em que os temos, e não antecipar as fragilidades deles, dos nossos pais, eu sei que envelhecer acontece de repente. hoje somos filhos, amanhã somos pais dos nossos pais. é assim de repente. aconteceu com o meu pai e eu a revolver-me toda por dentro numa dor que não me lembro de outra igual. hoje, olhando para trás, para o que vivi com ele, agradeço o privilégio que tive por poder cuidar, amparar, socorrer nas quedas, nas horas de aflição, por poder segurar a mão dele enquanto partia.

se hoje escrevo isto, é precisamente (esta palavra faz-me lembrar de ti) para voltar aí, a essa noção da honra que me deu por ele me aceitar quando estava mais vulnerável, mais frágil, mais indefeso. por ter permitido que, numa escala pequeníssima, retribuísse todo o abraço que foi a sua vida comigo.

nos últimos tempos, ao olhar para as minhas pernas reparo na evolução rápida das varizes que me desenham o rio amazonas e os seus afluentes lembrando-me que somos todos parte do todo que é a terra, as galáxias, as constelações, como tu todo pintalgado de estrelas. 
mas olho para o corpo e noto o envelhecer a cobrir por fora e por dentro, num lembrar de que a vida foge, num lembrar de que a vida é humildade, num lembrar de que o amor é aceitar. aceitar-me. ouço com carinho a médica que me recomenda a hidroginástica e rio-me ao dizer que vou pertencer às tartarugas ninja.

chega um tempo que me vejo melhor nas palavras que escrevo do que no espelho. claro que a eficácia dos meus olhos não ajuda nada.













segunda-feira, 19 de junho de 2017

das fases da lua










a dona fernanda consulta o oráculo. perante o que vê, abre uma garrafa de maduro branco fresco, e bebe, gole a gole, lentamente. ainda tem a esperança de mudar as sortes que lhe saem a cada tirada de cartas e que sempre se confirmam numa descarada provocação dizendo 'duvida, vá duvida. perde o teu tempo...', para de seguida dar com os burros na água, de trombas na parede, apanhar baldes de água fria. dizem-lhe as sortes que ela teve azar na direcção que a sua atenção tomou. depois do terceiro copo, bate-me à porta fora de horas, para mim, claro, que não conheço mais ninguém para quem 21h30 já seja fora de horas. nas mãos, traz-me a minha vizinha, recortes, recortes de textos, de palavras, de imagens, de cores, de alimentos, de músicas. então, diz-me que vai fazer colagens e reconstruir o que lhe está destinado, e depois enfeitiçá-lo. fá-lo-á no quarto crescente da lua, diz ela, a altura em que tudo a que se propõe, cresce, frutifica, fecunda. eu, eu olho para o relógio, acerto o despertador, e ofereço-lhe um café sem açúcar, para que ela se vá embora, mas sem antes, com o olhar, procurar a lua para ver em que fase está.