quinta-feira, 22 de junho de 2017

esta









o calor destes dias entranhou-se-me no corpo e ficou. os incêndios entranharam-se-me na alma e ficaram. acordo a meio da noite e a minha pele está a ferver, durante o dia pesa-me o corpo e falta-me o riso. não sou eu esta que tomou conta de mim.
as horas que o dia me oferece não chegam para o que preciso. enervo-me com assuntos sem importância e isso faz-me adoecer. cada vez tenho menos figuras de estilo para enfeitar a minha escrita e o meu coração parece um figo seco, olha uma figura, e nem sofro nem me alegro por amor. 
acho que o criador fala comigo e não o entendo. enquanto isso, mirro.












quarta-feira, 21 de junho de 2017

da vida








a minha mãe sobe com custo as escadas da casa da música. eu, sigo atrás, com medo que o joelho lhe falhe. procuro sempre a melhor posição para a amparar, sem que ela o note, em caso de fraqueza. se sobe, subo atrás dela, se desce, desço à frente, um bocado enviesada, confesso, para que seguindo à frente consiga ver o que se passa atrás. não quero que ela perceba que lhe noto a crescente fragilidade, acho que nem quero mesmo notá-la eu. procuro aceitar a força que ela me traz, o optimismo inabalável, a convicção de que o que importa é andar por cá para sentir o frio, o sol, a chuva, o calor, que não interessa se os netos têm sucesso nos estudos, mas sim que o que importa é saber se são felizes. claro que ela também é de gancho. ai se lhe pisam os calos, ou melhor dizendo, os joanetes, que calos ela não tem.

mas enquanto ontem, eu dizia à minha amiga que temos que apreciar o momento em que os temos, e não antecipar as fragilidades deles, dos nossos pais, eu sei que envelhecer acontece de repente. hoje somos filhos, amanhã somos pais dos nossos pais. é assim de repente. aconteceu com o meu pai e eu a revolver-me toda por dentro numa dor que não me lembro de outra igual. hoje, olhando para trás, para o que vivi com ele, agradeço o privilégio que tive por poder cuidar, amparar, socorrer nas quedas, nas horas de aflição, por poder segurar a mão dele enquanto partia.

se hoje escrevo isto, é precisamente (esta palavra faz-me lembrar de ti) para voltar aí, a essa noção da honra que me deu por ele me aceitar quando estava mais vulnerável, mais frágil, mais indefeso. por ter permitido que, numa escala pequeníssima, retribuísse todo o abraço que foi a sua vida comigo.

nos últimos tempos, ao olhar para as minhas pernas reparo na evolução rápida das varizes que me desenham o rio amazonas e os seus afluentes lembrando-me que somos todos parte do todo que é a terra, as galáxias, as constelações, como tu todo pintalgado de estrelas. 
mas olho para o corpo e noto o envelhecer a cobrir por fora e por dentro, num lembrar de que a vida foge, num lembrar de que a vida é humildade, num lembrar de que o amor é aceitar. aceitar-me. ouço com carinho a médica que me recomenda a hidroginástica e rio-me ao dizer que vou pertencer às tartarugas ninja.

chega um tempo que me vejo melhor nas palavras que escrevo do que no espelho. claro que a eficácia dos meus olhos não ajuda nada.













segunda-feira, 19 de junho de 2017

das fases da lua










a dona fernanda consulta o oráculo. perante o que vê, abre uma garrafa de maduro branco fresco, e bebe, gole a gole, lentamente. ainda tem a esperança de mudar as sortes que lhe saem a cada tirada de cartas e que sempre se confirmam numa descarada provocação dizendo 'duvida, vá duvida. perde o teu tempo...', para de seguida dar com os burros na água, de trombas na parede, apanhar baldes de água fria. dizem-lhe as sortes que ela teve azar na direcção que a sua atenção tomou. depois do terceiro copo, bate-me à porta fora de horas, para mim, claro, que não conheço mais ninguém para quem 21h30 já seja fora de horas. nas mãos, traz-me a minha vizinha, recortes, recortes de textos, de palavras, de imagens, de cores, de alimentos, de músicas. então, diz-me que vai fazer colagens e reconstruir o que lhe está destinado, e depois enfeitiçá-lo. fá-lo-á no quarto crescente da lua, diz ela, a altura em que tudo a que se propõe, cresce, frutifica, fecunda. eu, eu olho para o relógio, acerto o despertador, e ofereço-lhe um café sem açúcar, para que ela se vá embora, mas sem antes, com o olhar, procurar a lua para ver em que fase está.














a trovoada faz mal aos tolos








laura, a funcionária que todos os dias antecipa o que quero tomar a meio da manhã, comenta que a trovoada faz mal aos tolos, enquanto me olha de lado. ela não costuma aturar os meus humores, mas está certamente habituada a sentir quem se senta. 
todo o fim-de-semana evitei os noticiários, e tudo o que li foram as pequenas notificações dos jornais que me bombardeiam o lado direito do computador, mas esta manhã tive que mergulhar na tragédia, na exploração do imediatismo, na violação do direito à privacidade de quem sofre, na exploração dos desorientados que tudo perderam, na espera abútrea por mais mortes, por mais cabeçalhos.











domingo, 18 de junho de 2017

o que os une











o homem cuidou do jantar, decorou os pratos, preparou-lhe o prometido gin tónico, e falou. ele ri quando ela lhe diz que sempre que ele fala é porque ela tem que ouvir o que ele tem para dizer. antecipa-se o acto à necessidade, mas ele não acredita, 'isso é porque tu gostas de mim', diz, mas não é, e ela di-lo sorrindo, não é por isso. é que tudo o que ele diz e faz vai tornando o seu horizonte mais largo, é o grão de areia que acrescenta o seu areal, é mais um passo no seu caminhar. depois, ela desaparece e recomeça a observá-lo com a amplitude que torna corriqueira a vida de todos. é essa distância que os une, o cada vez maior desapego entre os dois.











um medo diferente











então a mulher que pensava que não conseguia viver no passado, caminhava arrastando um cesto de trastes pegajosos de que não se conseguia livrar. a alma implorava liberdade mas ela agarrara-se de tal forma àquela espécie de princípios, àquele aglomerado de crenças, àquele quere-lo a ele sem ser por ele querida, à concha que o seu corpo modelou no rame-rame das horas, ao cómodo acomodar na sua vida, ao sufocar os desejos para o sereno consumir do tempo e ao cansaço que lhe assegurava a continuidade dos dias, que agora que o burburinho tomara conta da luz que dos seus poros exalava, tinha medo, um medo diferente, um medo da liberdade, da possibilidade, do espaço todo para além de si. 



































"There is a light in this world...a healing Spirit much stronger than any darkness we may encounter. We sometimes lose sight of this force when there is suffering or too much pain. And suddenly the Spirit will emerge...through the lives of ordinary people and answer in extraordinary ways." Madre Teresa de Calcuta



















sábado, 17 de junho de 2017

temperatura









a mulher na mesa do café confidencia à amiga sobre os ímpetos do corpo, 'tão fora de horas', suspira-lhe. a amiga ri, diz que é do calor, que assim como puxa às plantas, a flor, arranca dela também as vontades. a outra suspira, não tem a quem direccionar o desejo, ao que parece, o homem anda embarcadiço no mar, enredado noutras redes. enquanto eu tomo o meu 'tipo' café, penso nos rodopios do corpo, no desfasamento das idades, nos desencontros das gentes, e pergunto-me se não será a impossibilidade que alimenta o desejo, ou se será do calor.










sexta-feira, 16 de junho de 2017

rituais









então, ao final do dia, a mulher pousa as mãos sobre o trabalho concluído, e agradece pelo tempo que dura, pelo tempo cresce, pelo tempo que se ajusta. veste um vestido, sai para a rua, e vai ser apenas mais uma que aplaude o artista.























porque eu também sei escrever sobre assuntos internacionais








e depois ainda nos perguntamos como foi possível os norte-americanos terem elegido donald trump como presidente dos eua.