a dona fernanda consulta o oráculo. perante o que vê, abre uma garrafa de maduro branco fresco, e bebe, gole a gole, lentamente. ainda tem a esperança de mudar as sortes que lhe saem a cada tirada de cartas e que sempre se confirmam numa descarada provocação dizendo 'duvida, vá duvida. perde o teu tempo...', para de seguida dar com os burros na água, de trombas na parede, apanhar baldes de água fria. dizem-lhe as sortes que ela teve azar na direcção que a sua atenção tomou. depois do terceiro copo, bate-me à porta fora de horas, para mim, claro, que não conheço mais ninguém para quem 21h30 já seja fora de horas. nas mãos, traz-me a minha vizinha, recortes, recortes de textos, de palavras, de imagens, de cores, de alimentos, de músicas. então, diz-me que vai fazer colagens e reconstruir o que lhe está destinado, e depois enfeitiçá-lo. fá-lo-á no quarto crescente da lua, diz ela, a altura em que tudo a que se propõe, cresce, frutifica, fecunda. eu, eu olho para o relógio, acerto o despertador, e ofereço-lhe um café sem açúcar, para que ela se vá embora, mas sem antes, com o olhar, procurar a lua para ver em que fase está.
laura, a funcionária que todos os dias antecipa o que quero tomar a meio da manhã, comenta que a trovoada faz mal aos tolos, enquanto me olha de lado. ela não costuma aturar os meus humores, mas está certamente habituada a sentir quem se senta. todo o fim-de-semana evitei os noticiários, e tudo o que li foram as pequenas notificações dos jornais que me bombardeiam o lado direito do computador, mas esta manhã tive que mergulhar na tragédia, na exploração do imediatismo, na violação do direito à privacidade de quem sofre, na exploração dos desorientados que tudo perderam, na espera abútrea por mais mortes, por mais cabeçalhos.
o homem cuidou do jantar, decorou os pratos, preparou-lhe o prometido gin tónico, e falou. ele ri quando ela lhe diz que sempre que ele fala é porque ela tem que ouvir o que ele tem para dizer. antecipa-se o acto à necessidade, mas ele não acredita, 'isso é porque tu gostas de mim', diz, mas não é, e ela di-lo sorrindo, não é por isso. é que tudo o que ele diz e faz vai tornando o seu horizonte mais largo, é o grão de areia que acrescenta o seu areal, é mais um passo no seu caminhar. depois, ela desaparece e recomeça a observá-lo com a amplitude que torna corriqueira a vida de todos. é essa distância que os une, o cada vez maior desapego entre os dois.
então a mulher que pensava que não conseguia viver no passado, caminhava arrastando um cesto de trastes pegajosos de que não se conseguia livrar. a alma implorava liberdade mas ela agarrara-se de tal forma àquela espécie de princípios, àquele aglomerado de crenças, àquele quere-lo a ele sem ser por ele querida, à concha que o seu corpo modelou no rame-rame das horas, ao cómodo acomodar na sua vida, ao sufocar os desejos para o sereno consumir do tempo e ao cansaço que lhe assegurava a continuidade dos dias, que agora que o burburinho tomara conta da luz que dos seus poros exalava, tinha medo, um medo diferente, um medo da liberdade, da possibilidade, do espaço todo para além de si.
"There is a light in this world...a healing Spirit much stronger than any darkness we may encounter. We sometimes lose sight of this force when there is suffering or too much pain. And suddenly the Spirit will emerge...through the lives of ordinary people and answer in extraordinary ways." Madre Teresa de Calcuta
a mulher na mesa do café confidencia à amiga sobre os ímpetos do corpo, 'tão fora de horas', suspira-lhe. a amiga ri, diz que é do calor, que assim como puxa às plantas, a flor, arranca dela também as vontades. a outra suspira, não tem a quem direccionar o desejo, ao que parece, o homem anda embarcadiço no mar, enredado noutras redes. enquanto eu tomo o meu 'tipo' café, penso nos rodopios do corpo, no desfasamento das idades, nos desencontros das gentes, e pergunto-me se não será a impossibilidade que alimenta o desejo, ou se será do calor.
então, ao final do dia, a mulher pousa as mãos sobre o trabalho concluído, e agradece pelo tempo que dura, pelo tempo cresce, pelo tempo que se ajusta. veste um vestido, sai para a rua, e vai ser apenas mais uma que aplaude o artista.
vivera demasiado tempo enrodilhada numa ilusão. agora, com uma pinça, lentamente arranca as imagens vazias que enfeitara de palavras e melodias, uma a uma. desequilibra-se. habituou-se de tal forma àquele espaço repleto de tanto nada, que quando retira um pouco do tanto, esvoaça como uma folha seca em tarde de outono. o erro aqui, foi ela mesmo, do principio ao fim. demasiadas vezes sonhou, que vestiu-se de irreal, e de tanto se irrealizar, cobriram-se-lhe a pele, os olhos, os lábios, as vísceras, revestiram-se de toques sem mãos, aromas sem perfumes, temperatura sem calor, cor sem contraste, beijos sem boca. e é precisamente isso que tenta arrancar de si, tanto nada cheio de tudo. tanta saudade do outono.
à hora do jantar não é suposto haver trânsito no elevador. então, com este vestido que me inspiram as tarantellas, com as carnes todas à vontade e umas sapatilhas podres, resolvo descer à garagem. pára o dito no rés-do-chão, e entra um dos camarários cá da terrinha, um daqueles que duram e duram e duram e ficam e ficam e ficam. beijinho da direita, beijinho da esquerda - está bom, senhor engenheiro? - pergunto eu com a face pegajosa do suor do dito - há muito tempo que não a bejo. você tem andado pouco na rua... - enquanto fala, com os olhos à altura do fundo do meu pescoço, percorre a minha indumentária, lentamente, de cima até baixo, e, certamente terá gostado das sapatilhas escavacadas - bocê está com bom aspecto, carago... - arranhou, enquanto eu - muito obrigada, bom domingo, digo, feriado...