segunda-feira, 19 de junho de 2017

a trovoada faz mal aos tolos








laura, a funcionária que todos os dias antecipa o que quero tomar a meio da manhã, comenta que a trovoada faz mal aos tolos, enquanto me olha de lado. ela não costuma aturar os meus humores, mas está certamente habituada a sentir quem se senta. 
todo o fim-de-semana evitei os noticiários, e tudo o que li foram as pequenas notificações dos jornais que me bombardeiam o lado direito do computador, mas esta manhã tive que mergulhar na tragédia, na exploração do imediatismo, na violação do direito à privacidade de quem sofre, na exploração dos desorientados que tudo perderam, na espera abútrea por mais mortes, por mais cabeçalhos.











domingo, 18 de junho de 2017

o que os une











o homem cuidou do jantar, decorou os pratos, preparou-lhe o prometido gin tónico, e falou. ele ri quando ela lhe diz que sempre que ele fala é porque ela tem que ouvir o que ele tem para dizer. antecipa-se o acto à necessidade, mas ele não acredita, 'isso é porque tu gostas de mim', diz, mas não é, e ela di-lo sorrindo, não é por isso. é que tudo o que ele diz e faz vai tornando o seu horizonte mais largo, é o grão de areia que acrescenta o seu areal, é mais um passo no seu caminhar. depois, ela desaparece e recomeça a observá-lo com a amplitude que torna corriqueira a vida de todos. é essa distância que os une, o cada vez maior desapego entre os dois.











um medo diferente











então a mulher que pensava que não conseguia viver no passado, caminhava arrastando um cesto de trastes pegajosos de que não se conseguia livrar. a alma implorava liberdade mas ela agarrara-se de tal forma àquela espécie de princípios, àquele aglomerado de crenças, àquele quere-lo a ele sem ser por ele querida, à concha que o seu corpo modelou no rame-rame das horas, ao cómodo acomodar na sua vida, ao sufocar os desejos para o sereno consumir do tempo e ao cansaço que lhe assegurava a continuidade dos dias, que agora que o burburinho tomara conta da luz que dos seus poros exalava, tinha medo, um medo diferente, um medo da liberdade, da possibilidade, do espaço todo para além de si. 



































"There is a light in this world...a healing Spirit much stronger than any darkness we may encounter. We sometimes lose sight of this force when there is suffering or too much pain. And suddenly the Spirit will emerge...through the lives of ordinary people and answer in extraordinary ways." Madre Teresa de Calcuta



















sábado, 17 de junho de 2017

temperatura









a mulher na mesa do café confidencia à amiga sobre os ímpetos do corpo, 'tão fora de horas', suspira-lhe. a amiga ri, diz que é do calor, que assim como puxa às plantas, a flor, arranca dela também as vontades. a outra suspira, não tem a quem direccionar o desejo, ao que parece, o homem anda embarcadiço no mar, enredado noutras redes. enquanto eu tomo o meu 'tipo' café, penso nos rodopios do corpo, no desfasamento das idades, nos desencontros das gentes, e pergunto-me se não será a impossibilidade que alimenta o desejo, ou se será do calor.










sexta-feira, 16 de junho de 2017

rituais









então, ao final do dia, a mulher pousa as mãos sobre o trabalho concluído, e agradece pelo tempo que dura, pelo tempo cresce, pelo tempo que se ajusta. veste um vestido, sai para a rua, e vai ser apenas mais uma que aplaude o artista.























porque eu também sei escrever sobre assuntos internacionais








e depois ainda nos perguntamos como foi possível os norte-americanos terem elegido donald trump como presidente dos eua. 












quinta-feira, 15 de junho de 2017

tanto nada cheio de tudo








vivera demasiado tempo enrodilhada numa ilusão. agora, com uma pinça, lentamente arranca as imagens vazias que enfeitara de palavras e melodias, uma a uma. 
desequilibra-se. 
habituou-se de tal forma àquele espaço repleto de tanto nada, que quando retira um pouco do tanto, esvoaça como uma folha seca em tarde de outono.  
o erro aqui, foi ela mesmo, do principio ao fim. demasiadas vezes sonhou, que vestiu-se de irreal, e de tanto se irrealizar,  cobriram-se-lhe a pele, os olhos, os lábios, as vísceras, revestiram-se de toques sem mãos, aromas sem perfumes, temperatura sem calor, cor sem contraste, beijos sem boca. e é precisamente isso que tenta arrancar de si, tanto nada cheio de tudo.
tanta saudade do outono.











bom aspecto










à hora do jantar não é suposto haver trânsito no elevador. então, com este vestido que me inspiram as tarantellas, com as carnes todas à vontade e umas sapatilhas podres, resolvo descer à garagem. pára o dito no rés-do-chão, e entra um dos camarários cá da terrinha, um daqueles que duram e duram e duram e ficam e ficam e ficam. beijinho da direita, beijinho da esquerda - está bom, senhor engenheiro? - pergunto eu com a face pegajosa do suor do dito - há muito tempo que não a bejo. você tem andado pouco na rua... - enquanto fala, com os olhos à altura do fundo do meu pescoço, percorre a minha indumentária, lentamente, de cima até baixo, e, certamente terá gostado das sapatilhas escavacadas - bocê está com bom aspecto, carago... - arranhou, enquanto eu - muito obrigada, bom domingo, digo, feriado...









Camaiz










pedi-lhe que me mostrasse as palavras dos poemas que escrevia. nas minhas mãos verteu líquido de ouro translúcido, cobrindo a pele onde escorria. à medida que mo ofertava, o escritor desaparecia.