"escrevo para me ver livre de mim"
clarice lispector
domingo, 18 de junho de 2017
"There is a light in this world...a healing Spirit much stronger than any darkness we may encounter. We sometimes lose sight of this force when there is suffering or too much pain. And suddenly the Spirit will emerge...through the lives of ordinary people and answer in extraordinary ways." Madre Teresa de Calcuta
a mulher na mesa do café confidencia à amiga sobre os ímpetos do corpo, 'tão fora de horas', suspira-lhe. a amiga ri, diz que é do calor, que assim como puxa às plantas, a flor, arranca dela também as vontades. a outra suspira, não tem a quem direccionar o desejo, ao que parece, o homem anda embarcadiço no mar, enredado noutras redes. enquanto eu tomo o meu 'tipo' café, penso nos rodopios do corpo, no desfasamento das idades, nos desencontros das gentes, e pergunto-me se não será a impossibilidade que alimenta o desejo, ou se será do calor.
então, ao final do dia, a mulher pousa as mãos sobre o trabalho concluído, e agradece pelo tempo que dura, pelo tempo cresce, pelo tempo que se ajusta. veste um vestido, sai para a rua, e vai ser apenas mais uma que aplaude o artista.
vivera demasiado tempo enrodilhada numa ilusão. agora, com uma pinça, lentamente arranca as imagens vazias que enfeitara de palavras e melodias, uma a uma. desequilibra-se. habituou-se de tal forma àquele espaço repleto de tanto nada, que quando retira um pouco do tanto, esvoaça como uma folha seca em tarde de outono. o erro aqui, foi ela mesmo, do principio ao fim. demasiadas vezes sonhou, que vestiu-se de irreal, e de tanto se irrealizar, cobriram-se-lhe a pele, os olhos, os lábios, as vísceras, revestiram-se de toques sem mãos, aromas sem perfumes, temperatura sem calor, cor sem contraste, beijos sem boca. e é precisamente isso que tenta arrancar de si, tanto nada cheio de tudo. tanta saudade do outono.
à hora do jantar não é suposto haver trânsito no elevador. então, com este vestido que me inspiram as tarantellas, com as carnes todas à vontade e umas sapatilhas podres, resolvo descer à garagem. pára o dito no rés-do-chão, e entra um dos camarários cá da terrinha, um daqueles que duram e duram e duram e ficam e ficam e ficam. beijinho da direita, beijinho da esquerda - está bom, senhor engenheiro? - pergunto eu com a face pegajosa do suor do dito - há muito tempo que não a bejo. você tem andado pouco na rua... - enquanto fala, com os olhos à altura do fundo do meu pescoço, percorre a minha indumentária, lentamente, de cima até baixo, e, certamente terá gostado das sapatilhas escavacadas - bocê está com bom aspecto, carago... - arranhou, enquanto eu - muito obrigada, bom domingo, digo, feriado...
pedi-lhe que me mostrasse as palavras dos poemas que escrevia. nas minhas mãos verteu líquido de ouro translúcido, cobrindo a pele onde escorria. à medida que mo ofertava, o escritor desaparecia.
o impontual, o ente e o pipoco fizeram-me voltar a pensar nisto das amizades nos blogues. pois eu acho que é aqui como na vida cá fora. entusiasmos, efervescências, decantações, evaporações, e o leque vai-se fechando.
ao meu lado, no café, a minha mãe vai lendo em voz alta algumas notícias que me escapariam na minha pesquisa matinal. uma mulher a quem foi descoberto um telemóvel na vagina ao sair de um estabelecimento prisional, e não, não foi porque o aparelho tocou, mas sim devido às mãos talentosas da funcionária que inspeccionou a visitante; dois irmãos que se envolveram numa rixa causada por assuntos de dinheiros - coisa rara, comenta a quem lê para mim; diogo morgado que assumiu uma relação - bem bonito, o diogo; a qualquer coisa norton de matos que casou - de branco e flor de laranjeira com uma carrada de filhos atrás, acrescenta, dizendo 'gostas é que te leia as notícias...', sem dúvida que gosto, gostava também que me lesses ao final do dia. à minha frente está um casal, ela, magra, passaria despercebida, ele, um homenzarrão, moreno, crânio calvo e queixo peludo, calções azul turquesa e t-shirt justa ao corpo, verde água com flores no bolso, tatuagens que lhe cobrem o braço esquerdo todo, óculos de sol espelhados de cor-de-rosa, uma argola em cada orelha e um terço preto pendurado ao pescoço. tanto um como o outro deslizam os dedos pelos ecrãs dos telemóveis, enquanto eu rio ouvindo as actualidades do dia. lá fora, os polícias montaram uma operação stop na rotunda. ficamos a observar o prazer que têm na escolha das vítimas que decidem mandar encostar. descem o vidro, o agente dá a volta ao carro para verificar os selos expostos no lado direito do vidro, e eu ficava logo aqui com duas ou três multas, regressa à janela, pega no livrete, confirma matrícula e de seguida arranjam maneira de desencantar uma multa. a mim, desencantariam muitas, mesmo, e uma manhã perdida, por isso lhes fujo, como o diabo da cruz. acaba-se o recreio. corre uma brisa fria com cheiro a algas vinda do mar. inspiro fundo e tento retê-la no peito para mais tarde quando estiver no interior quente e abafado da nossa terra.