quinta-feira, 15 de junho de 2017

tanto nada cheio de tudo








vivera demasiado tempo enrodilhada numa ilusão. agora, com uma pinça, lentamente arranca as imagens vazias que enfeitara de palavras e melodias, uma a uma. 
desequilibra-se. 
habituou-se de tal forma àquele espaço repleto de tanto nada, que quando retira um pouco do tanto, esvoaça como uma folha seca em tarde de outono.  
o erro aqui, foi ela mesmo, do principio ao fim. demasiadas vezes sonhou, que vestiu-se de irreal, e de tanto se irrealizar,  cobriram-se-lhe a pele, os olhos, os lábios, as vísceras, revestiram-se de toques sem mãos, aromas sem perfumes, temperatura sem calor, cor sem contraste, beijos sem boca. e é precisamente isso que tenta arrancar de si, tanto nada cheio de tudo.
tanta saudade do outono.











bom aspecto










à hora do jantar não é suposto haver trânsito no elevador. então, com este vestido que me inspiram as tarantellas, com as carnes todas à vontade e umas sapatilhas podres, resolvo descer à garagem. pára o dito no rés-do-chão, e entra um dos camarários cá da terrinha, um daqueles que duram e duram e duram e ficam e ficam e ficam. beijinho da direita, beijinho da esquerda - está bom, senhor engenheiro? - pergunto eu com a face pegajosa do suor do dito - há muito tempo que não a bejo. você tem andado pouco na rua... - enquanto fala, com os olhos à altura do fundo do meu pescoço, percorre a minha indumentária, lentamente, de cima até baixo, e, certamente terá gostado das sapatilhas escavacadas - bocê está com bom aspecto, carago... - arranhou, enquanto eu - muito obrigada, bom domingo, digo, feriado...









Camaiz










pedi-lhe que me mostrasse as palavras dos poemas que escrevia. nas minhas mãos verteu líquido de ouro translúcido, cobrindo a pele onde escorria. à medida que mo ofertava, o escritor desaparecia.










quarta-feira, 14 de junho de 2017

não me façam pensar nisto que eu não gosto
























o impontual, o ente e o pipoco fizeram-me voltar a pensar nisto das amizades nos blogues. pois eu acho que é aqui como na vida cá fora. entusiasmos, efervescências, decantações, evaporações, e o leque vai-se fechando. 











do dia









o vento norte no peito, o calor imenso na pele, trezentos quilómetros, 36 graus, um abraço, um sorriso, um amparo, cinco minutos, toda a vida.













recreio em tempo quase real











ao meu lado, no café, a minha mãe vai lendo em voz alta algumas notícias que me escapariam na minha pesquisa matinal. uma mulher a quem foi descoberto um telemóvel na vagina ao sair de um estabelecimento prisional, e não, não foi porque o aparelho tocou, mas sim devido às mãos talentosas da funcionária que inspeccionou a visitante; dois irmãos que se envolveram numa rixa causada por assuntos de dinheiros - coisa rara, comenta a quem lê para mim; diogo morgado que assumiu uma relação - bem bonito, o diogo; a qualquer coisa norton de matos que casou - de branco e flor de laranjeira com uma carrada de filhos atrás, acrescenta, dizendo 'gostas é que te leia as notícias...', sem dúvida que gosto, gostava também que me lesses ao final do dia. à minha frente está um casal, ela, magra, passaria despercebida, ele, um homenzarrão, moreno, crânio calvo e queixo peludo, calções azul turquesa e t-shirt justa ao corpo, verde água com flores no bolso, tatuagens que lhe cobrem o braço esquerdo todo, óculos de sol espelhados de cor-de-rosa, uma argola em cada orelha e um terço preto pendurado ao pescoço. tanto um como o outro deslizam os dedos pelos ecrãs dos telemóveis, enquanto eu rio ouvindo as actualidades do dia. lá fora, os polícias montaram uma operação stop na rotunda. ficamos a observar o prazer que têm na escolha das vítimas que decidem mandar encostar. descem o vidro, o agente dá a volta ao carro para verificar os selos expostos no lado direito do vidro, e eu ficava logo aqui com duas ou três multas, regressa à janela, pega no livrete, confirma matrícula e de seguida arranjam maneira de desencantar uma multa. a mim, desencantariam muitas, mesmo, e uma manhã perdida, por isso lhes fujo, como o diabo da cruz.

acaba-se o recreio. corre uma brisa fria com cheiro a algas vinda do mar. inspiro fundo e tento retê-la no peito para mais tarde quando estiver no interior quente e abafado da nossa terra.











terça-feira, 13 de junho de 2017

nas horas em que o cansaço é muito









é quando o cansaço é muito que chego a ele nua, despida de muralhas, de máscaras da alma, com o coração do lado de fora do peito. então se ele lê para mim ou pousa as mãos, com aquela maneira dele de tocar que traz aquele morninho que se molda às curvas das minhas ondas, então aí, o mar desagua no rio dos meus olhos e eu fico feita foz ao contrário com as correntes a apressarem-se para a nascente para logo de seguida fazerem-se onda em direcção ao porto que é ele, quando me acolhe nas horas em que o cansaço é muito e a noite nunca mais chega.










alperces













uma ode ao prazer, à voluptuosidade, à alegria. 

certamente um capricho do criador. frescos, sedosos, coloridos, sumarentos, subtilmente doces, com formas sugestivamente curvas, e ilegais.













O melhor do mundo





A pessoa ao meu lado lê em voz alta os pormenores da concepção dos filhos de cristiano ronaldo referindo os custos do negócio para o melhor do mundo. Peço que pare. Adentra-se-me uma náusea nauseabunda.