quinta-feira, 15 de junho de 2017

Camaiz










pedi-lhe que me mostrasse as palavras dos poemas que escrevia. nas minhas mãos verteu líquido de ouro translúcido, cobrindo a pele onde escorria. à medida que mo ofertava, o escritor desaparecia.










quarta-feira, 14 de junho de 2017

não me façam pensar nisto que eu não gosto
























o impontual, o ente e o pipoco fizeram-me voltar a pensar nisto das amizades nos blogues. pois eu acho que é aqui como na vida cá fora. entusiasmos, efervescências, decantações, evaporações, e o leque vai-se fechando. 











do dia









o vento norte no peito, o calor imenso na pele, trezentos quilómetros, 36 graus, um abraço, um sorriso, um amparo, cinco minutos, toda a vida.













recreio em tempo quase real











ao meu lado, no café, a minha mãe vai lendo em voz alta algumas notícias que me escapariam na minha pesquisa matinal. uma mulher a quem foi descoberto um telemóvel na vagina ao sair de um estabelecimento prisional, e não, não foi porque o aparelho tocou, mas sim devido às mãos talentosas da funcionária que inspeccionou a visitante; dois irmãos que se envolveram numa rixa causada por assuntos de dinheiros - coisa rara, comenta a quem lê para mim; diogo morgado que assumiu uma relação - bem bonito, o diogo; a qualquer coisa norton de matos que casou - de branco e flor de laranjeira com uma carrada de filhos atrás, acrescenta, dizendo 'gostas é que te leia as notícias...', sem dúvida que gosto, gostava também que me lesses ao final do dia. à minha frente está um casal, ela, magra, passaria despercebida, ele, um homenzarrão, moreno, crânio calvo e queixo peludo, calções azul turquesa e t-shirt justa ao corpo, verde água com flores no bolso, tatuagens que lhe cobrem o braço esquerdo todo, óculos de sol espelhados de cor-de-rosa, uma argola em cada orelha e um terço preto pendurado ao pescoço. tanto um como o outro deslizam os dedos pelos ecrãs dos telemóveis, enquanto eu rio ouvindo as actualidades do dia. lá fora, os polícias montaram uma operação stop na rotunda. ficamos a observar o prazer que têm na escolha das vítimas que decidem mandar encostar. descem o vidro, o agente dá a volta ao carro para verificar os selos expostos no lado direito do vidro, e eu ficava logo aqui com duas ou três multas, regressa à janela, pega no livrete, confirma matrícula e de seguida arranjam maneira de desencantar uma multa. a mim, desencantariam muitas, mesmo, e uma manhã perdida, por isso lhes fujo, como o diabo da cruz.

acaba-se o recreio. corre uma brisa fria com cheiro a algas vinda do mar. inspiro fundo e tento retê-la no peito para mais tarde quando estiver no interior quente e abafado da nossa terra.











terça-feira, 13 de junho de 2017

nas horas em que o cansaço é muito









é quando o cansaço é muito que chego a ele nua, despida de muralhas, de máscaras da alma, com o coração do lado de fora do peito. então se ele lê para mim ou pousa as mãos, com aquela maneira dele de tocar que traz aquele morninho que se molda às curvas das minhas ondas, então aí, o mar desagua no rio dos meus olhos e eu fico feita foz ao contrário com as correntes a apressarem-se para a nascente para logo de seguida fazerem-se onda em direcção ao porto que é ele, quando me acolhe nas horas em que o cansaço é muito e a noite nunca mais chega.










alperces













uma ode ao prazer, à voluptuosidade, à alegria. 

certamente um capricho do criador. frescos, sedosos, coloridos, sumarentos, subtilmente doces, com formas sugestivamente curvas, e ilegais.













O melhor do mundo





A pessoa ao meu lado lê em voz alta os pormenores da concepção dos filhos de cristiano ronaldo referindo os custos do negócio para o melhor do mundo. Peço que pare. Adentra-se-me uma náusea nauseabunda.




segunda-feira, 12 de junho de 2017

anoitece








na hora em que os telhados velhos e o negrume do céu são um só, permito-me o cansaço, a saudade, o cuidado, o anoitecer.
ao telefone, a mulher doente falou-me da permissão para sentir e lembra-me o sofrimento todo que recusou ver em si. 'não mo permiti e ele existia. cristalizou, sabes? enquistou. tudo o que não me permiti calcificou em mim.'
fomos educados para recusar o sofrimento, mesmo que ele exista. amputamo-nos em vez de chorar e berrar aos quatro ventos.
naquele dia, a mulher doente chorou incontrolavelmente sem saber de onde lhe vinha o pranto, 'as lágrimas saltavam-me dos olhos sem eu saber como. chorei uma vida inteira. se eu morrer daqui a três meses, sabes, saberei que por fim fui verdadeira'. 'telefonei-te porque tenho shitake acabado de fazer, queres crepes, antes de congelar?' pouco mais posso fazer além de a ouvir e cozinhar para ela.







outra vez a massa












junto à farinha, manteiga, ovos, água e sal, e amasso. reparo na amálgama que crio com as minhas mãos. a capacidade de transformação deve ser o que nos distingue das outras espécies, penso enquanto tento tirar a mistura dos dedos. lembro também da mulher desconhecida que ontem me abordou na rua com um 'as suas empadas são tão boas!', para logo de seguida, dizer a quem a acompanhava, 'é esta senhora que faz as empadas', e eu ali com cara de espanto e com um sorriso dominical de lado a lado, já a pensar que elas são um milagre de dia santo.

[trabalhar sozinha permite-me estes devaneios. por exemplo, estou aqui a coordenar gestos com as mãos tentando sentir até onde alcança o calor que o corpo emana.]

(pronto, vou trabalhar)












cuidar











acordo daqueles sonos que só acontecem quando induzidos por hipnóticos. mas não foi. dormi naturalmente como um drogado. afasto o edredon e reparo no meu corpo, mole, de pernas raiadas, deitado de lado. percorro-o lenta e carinhosamente com a minha mão, é ele que me permite sentir as coisas da carne, que me permite caminhar. sento-me na borda da cama para escrever estas palavras. de seguida vou pegar no tambor, na vela que ardeu metade, e colocá-los no lugar. a chama voltará a arder por ti. 
são tantas as formas de cuidar. 
nem sabes.