terça-feira, 13 de junho de 2017

alperces













uma ode ao prazer, à voluptuosidade, à alegria. 

certamente um capricho do criador. frescos, sedosos, coloridos, sumarentos, subtilmente doces, com formas sugestivamente curvas, e ilegais.













O melhor do mundo





A pessoa ao meu lado lê em voz alta os pormenores da concepção dos filhos de cristiano ronaldo referindo os custos do negócio para o melhor do mundo. Peço que pare. Adentra-se-me uma náusea nauseabunda.




segunda-feira, 12 de junho de 2017

anoitece








na hora em que os telhados velhos e o negrume do céu são um só, permito-me o cansaço, a saudade, o cuidado, o anoitecer.
ao telefone, a mulher doente falou-me da permissão para sentir e lembra-me o sofrimento todo que recusou ver em si. 'não mo permiti e ele existia. cristalizou, sabes? enquistou. tudo o que não me permiti calcificou em mim.'
fomos educados para recusar o sofrimento, mesmo que ele exista. amputamo-nos em vez de chorar e berrar aos quatro ventos.
naquele dia, a mulher doente chorou incontrolavelmente sem saber de onde lhe vinha o pranto, 'as lágrimas saltavam-me dos olhos sem eu saber como. chorei uma vida inteira. se eu morrer daqui a três meses, sabes, saberei que por fim fui verdadeira'. 'telefonei-te porque tenho shitake acabado de fazer, queres crepes, antes de congelar?' pouco mais posso fazer além de a ouvir e cozinhar para ela.







outra vez a massa












junto à farinha, manteiga, ovos, água e sal, e amasso. reparo na amálgama que crio com as minhas mãos. a capacidade de transformação deve ser o que nos distingue das outras espécies, penso enquanto tento tirar a mistura dos dedos. lembro também da mulher desconhecida que ontem me abordou na rua com um 'as suas empadas são tão boas!', para logo de seguida, dizer a quem a acompanhava, 'é esta senhora que faz as empadas', e eu ali com cara de espanto e com um sorriso dominical de lado a lado, já a pensar que elas são um milagre de dia santo.

[trabalhar sozinha permite-me estes devaneios. por exemplo, estou aqui a coordenar gestos com as mãos tentando sentir até onde alcança o calor que o corpo emana.]

(pronto, vou trabalhar)












cuidar











acordo daqueles sonos que só acontecem quando induzidos por hipnóticos. mas não foi. dormi naturalmente como um drogado. afasto o edredon e reparo no meu corpo, mole, de pernas raiadas, deitado de lado. percorro-o lenta e carinhosamente com a minha mão, é ele que me permite sentir as coisas da carne, que me permite caminhar. sento-me na borda da cama para escrever estas palavras. de seguida vou pegar no tambor, na vela que ardeu metade, e colocá-los no lugar. a chama voltará a arder por ti. 
são tantas as formas de cuidar. 
nem sabes.










sábado, 10 de junho de 2017

a mulher doente











a mulher doente, sentada ao meu lado, não para de falar ao telefone. fala com a mãe. sossega-a, diz-lhe que não tenha medo, que nem ela mesma tem, que tem consultas marcadas com médicos convencionais para ouvir outras opiniões, e isto e aquilo de assuntos práticos.
quando desliga, pergunto-lhe eu como se sente. embora tenha emagrecido, sente-se cheia de energia, diz-me, e de esperança. e fala, fala, fala. eu ouço, ouço, ouço. as palavras dela nem sempre encontram o que eu sinto dela, mas não lho digo. o fio de esperança a que ela se agarra é tão frágil que só me cabe tentar fortalecê-lo.
ela conta que cada momento que vive, é intenso, é grande, é delicioso. eu, vou pensando no percurso dela, em tudo que através do seu sofrimento me foi dado conhecer, em tudo o que, por ter conhecimento, me torna responsável, e por ser responsável não ficarei impune. aquela mulher, pequena, frágil, inconstante, ressentida, inquieta, é um mestre, uma escola.












o homem-terra











o homem-terra à minha frente, suspira, ou antes, bufa mesmo, de impaciência, de saturação
- mais do mesmo, mais do mesmo... 
- mais do mesmo, o quê?...
- quantas vezes tenho que te dizer?... já te disse tantas vezes, mulher. já a raquel te disse também, e tu não ouves...
- diz-me, repete, a repetição é precisa para que eu integre e integre e integre...
digo, rindo-me, imitando-o na sua impaciência
- soubeste falar tão bem, mulher, quando se tratava de falar com a maria, e agora que te diz respeito, não vez nada... esforça-te. que parte do que tu te recusaste a viver, tens que resgatar?
- diz-me tu... é tão mais fácil falar dos outros... vá lá, fala tu de mim, e não me venhas com homens. não é de homem que eu preciso. isso fica para a próxima encarnação. estou cansada de dar com a cabeça na esquina da parede. acabou.
- não é de homens que te falo. falo de ti. tens que te permitir sentir, sentir-te, aceitar-te, ouvir-te. é de ti que te falo.
eu olho para ele, olho para a mulher turquesa, para a mulher doente e para a mulher crescente. é tudo tão simples, que não conseguimos ver, e vendo, vivê-lo.











sexta-feira, 9 de junho de 2017

do vento










Do sitio onde estou, encostada a um muro de um parque de estacionamento, adivinho o mar apenas pelo lugar onde se levanta o nevoeiro. Com as lágrimas que a brisa que vem de oeste faz correr no meu rosto, inspiro vagarosamente o ar fresco com cheiro a maresia e dentro de mim cresce a água salgada pelas algas e o doce massajar da areia na pele. Só eu sei onde estou. Quem passa por mim, vê uma mulher com um saco de peixe para o almoço, que chora à espera de alguém. Mas é o vento que fala comigo. Sereno, fresco, perfumado, fala-me da grandeza dos pequenos momentos que nos espreitam nas frestas da correria dos dias, dos intervalos entre as palavras, da imperceptível forma com que as letras manuscritas se ligam umas às outras, do espaço de tempo entre uma inspiração e uma expiração, o leve demorar de um olhar, o tempo de espera por uma resposta. Os dias que tantas vezes me parecem iguais, são cheios de peculiaridades.













quinta-feira, 8 de junho de 2017

o tomate





















há quem lhe chame 'ir desta para melhor'. por alguma razão há-de ser. mas quando eu passar para o outro plano, hão-de perguntar-me sobre o que fiz com a vida que me foi dada. eu direi que trabalhei. sobretudo passei os dias a trabalhar. dias como o de hoje, das seis e meia às vinte e trinta, um dia em que fiz de tudo. perante a minha resposta, serei entregue a hades que me há-de guardar no submundo sem direito a novas encarnações, sem direito a mais desperdícios. talvez me possa salvar este tomate cereja, perfeito, que fiz crescer e hoje comi, como se comendo-o, assimilasse o universo inteiro, em mim.












da proximidade









os meus olhos estão habituados a ver uma distância máxima de um metro. quando os fixo nas folhas verdes das árvores que balouçam do outro lado da varanda, choram. o meu coração está habituado a ver onde a vista não alcança, quando o fixo dentro do peito, chora.