segunda-feira, 12 de junho de 2017

cuidar











acordo daqueles sonos que só acontecem quando induzidos por hipnóticos. mas não foi. dormi naturalmente como um drogado. afasto o edredon e reparo no meu corpo, mole, de pernas raiadas, deitado de lado. percorro-o lenta e carinhosamente com a minha mão, é ele que me permite sentir as coisas da carne, que me permite caminhar. sento-me na borda da cama para escrever estas palavras. de seguida vou pegar no tambor, na vela que ardeu metade, e colocá-los no lugar. a chama voltará a arder por ti. 
são tantas as formas de cuidar. 
nem sabes.










sábado, 10 de junho de 2017

a mulher doente











a mulher doente, sentada ao meu lado, não para de falar ao telefone. fala com a mãe. sossega-a, diz-lhe que não tenha medo, que nem ela mesma tem, que tem consultas marcadas com médicos convencionais para ouvir outras opiniões, e isto e aquilo de assuntos práticos.
quando desliga, pergunto-lhe eu como se sente. embora tenha emagrecido, sente-se cheia de energia, diz-me, e de esperança. e fala, fala, fala. eu ouço, ouço, ouço. as palavras dela nem sempre encontram o que eu sinto dela, mas não lho digo. o fio de esperança a que ela se agarra é tão frágil que só me cabe tentar fortalecê-lo.
ela conta que cada momento que vive, é intenso, é grande, é delicioso. eu, vou pensando no percurso dela, em tudo que através do seu sofrimento me foi dado conhecer, em tudo o que, por ter conhecimento, me torna responsável, e por ser responsável não ficarei impune. aquela mulher, pequena, frágil, inconstante, ressentida, inquieta, é um mestre, uma escola.












o homem-terra











o homem-terra à minha frente, suspira, ou antes, bufa mesmo, de impaciência, de saturação
- mais do mesmo, mais do mesmo... 
- mais do mesmo, o quê?...
- quantas vezes tenho que te dizer?... já te disse tantas vezes, mulher. já a raquel te disse também, e tu não ouves...
- diz-me, repete, a repetição é precisa para que eu integre e integre e integre...
digo, rindo-me, imitando-o na sua impaciência
- soubeste falar tão bem, mulher, quando se tratava de falar com a maria, e agora que te diz respeito, não vez nada... esforça-te. que parte do que tu te recusaste a viver, tens que resgatar?
- diz-me tu... é tão mais fácil falar dos outros... vá lá, fala tu de mim, e não me venhas com homens. não é de homem que eu preciso. isso fica para a próxima encarnação. estou cansada de dar com a cabeça na esquina da parede. acabou.
- não é de homens que te falo. falo de ti. tens que te permitir sentir, sentir-te, aceitar-te, ouvir-te. é de ti que te falo.
eu olho para ele, olho para a mulher turquesa, para a mulher doente e para a mulher crescente. é tudo tão simples, que não conseguimos ver, e vendo, vivê-lo.











sexta-feira, 9 de junho de 2017

do vento










Do sitio onde estou, encostada a um muro de um parque de estacionamento, adivinho o mar apenas pelo lugar onde se levanta o nevoeiro. Com as lágrimas que a brisa que vem de oeste faz correr no meu rosto, inspiro vagarosamente o ar fresco com cheiro a maresia e dentro de mim cresce a água salgada pelas algas e o doce massajar da areia na pele. Só eu sei onde estou. Quem passa por mim, vê uma mulher com um saco de peixe para o almoço, que chora à espera de alguém. Mas é o vento que fala comigo. Sereno, fresco, perfumado, fala-me da grandeza dos pequenos momentos que nos espreitam nas frestas da correria dos dias, dos intervalos entre as palavras, da imperceptível forma com que as letras manuscritas se ligam umas às outras, do espaço de tempo entre uma inspiração e uma expiração, o leve demorar de um olhar, o tempo de espera por uma resposta. Os dias que tantas vezes me parecem iguais, são cheios de peculiaridades.













quinta-feira, 8 de junho de 2017

o tomate





















há quem lhe chame 'ir desta para melhor'. por alguma razão há-de ser. mas quando eu passar para o outro plano, hão-de perguntar-me sobre o que fiz com a vida que me foi dada. eu direi que trabalhei. sobretudo passei os dias a trabalhar. dias como o de hoje, das seis e meia às vinte e trinta, um dia em que fiz de tudo. perante a minha resposta, serei entregue a hades que me há-de guardar no submundo sem direito a novas encarnações, sem direito a mais desperdícios. talvez me possa salvar este tomate cereja, perfeito, que fiz crescer e hoje comi, como se comendo-o, assimilasse o universo inteiro, em mim.












da proximidade









os meus olhos estão habituados a ver uma distância máxima de um metro. quando os fixo nas folhas verdes das árvores que balouçam do outro lado da varanda, choram. o meu coração está habituado a ver onde a vista não alcança, quando o fixo dentro do peito, chora.











quarta-feira, 7 de junho de 2017

ah... pois...









- ah...pois... - diz-me com uma voz enjoada. tinha-me perguntado como estão os miúdos. - em casa estão muito bem. mudaram imenso de repente, até me custa a acreditar. sem ter que me chatear, sem os forçar, assim, de repente. ajudam, preocupam-se, são carinhosos... - toda a vida deles fui apontada por não ser dura, por permitir, por não obrigar, por não impor. que não os sabia criar, diziam. durante anos aguardaram pela oportunidade para me atirarem à cara um 'eu bem te disse', 'não foi por falta de aviso', 'não quiseste fazer o que te aconselhei'. agora, ah...pois... de um lado, um olhar parado de outro, apenas a minha gorda amiga - fico tão feliz, que nem imaginas... - eu sei, eu sei e eu sei... - ah...pois... - pimba!









as mulheres










em frente a mim a mulher dourada explica à mulher turquesa que a filha da segunda é sua mestre, que veio para ensiná-la, para curá-la.
- em que é que no comportamento da tua filha, tu te vês na vida que tens agora?
e a mulher turquesa fala de sonhos e vontades que teve toda a vida e não cumpriu
- não, isso é do passado, digo-te agora
diz a mulher dourada, enquanto a turquesa com o olhar viajante procura uma resposta
- não precisas de mo dizer. vais procurar perceber e quando curares essa parte em ti, estarás a curar a tua filha também.
eu observo e admiro-me sempre com a disponibilidade que a mulher turquesa mostra, de exposição da sua intimidade, com a qual aprendo sempre um bocadinho mais.










terça-feira, 6 de junho de 2017

pode ser amor












ainda me tentei a não atender à porta. estava a trabalhar, e sobem-me os pirolitos quando não respeitam o meu modo de sobrevivência. mas abri.

enquanto tento mergulhar o pensamento num texto sobre a crise no burundi, a gorda amiga ao meu lado fala-me das dificuldades posturais na intimidade com o seu gordissimo marido, que tem sérios problemas nos joelhos, assim como ela, nas articulações. e não, não é falta de imaginação. aliás, a imaginação, aqui, até é um problema a mais.

enquanto penso no que leio, ouço-a, e rio-me a bom rir com os gestos que faz ao tentar exemplificar a problemática da situação. problemática, mesmo, pois agravada por outros problemas de saúde além dos acima descritos.
- sabes o que é? - pergunta-me - é a velhice. envelhecer não devia ser assim, não nisto.

apesar da impaciência por estar a ficar com o trabalho todo atrasado, eu olho-a com ternura, sei o percurso dela, os altos e baixos do seu casamento, de ela abdicar dela mesma, do seu prazer, do ritmo do seu corpo, para que o marido tenha uma vida boa.

não lhe invejo a sorte, não queria nada que se parecesse com aquela vida para mim, mas acredito que seja a forma dela dedicar amor, a dela.













Sorriso






Adivinho o sorriso da mulher pela voz que ouço do outro lado do telefone. Também eu esboço um sorriso e sinto-me mais leve. É a minha fornecedora de cogumelos, uma mulher do campo com os olhos cheios de sol e o corpo a cheirar a terra fresca, como eu gostava de ser.