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a mulher doente, sentada ao meu lado, não para de falar ao telefone. fala com a mãe. sossega-a, diz-lhe que não tenha medo, que nem ela mesma tem, que tem consultas marcadas com médicos convencionais para ouvir outras opiniões, e isto e aquilo de assuntos práticos.
quando desliga, pergunto-lhe eu como se sente. embora tenha emagrecido, sente-se cheia de energia, diz-me, e de esperança. e fala, fala, fala. eu ouço, ouço, ouço. as palavras dela nem sempre encontram o que eu sinto dela, mas não lho digo. o fio de esperança a que ela se agarra é tão frágil que só me cabe tentar fortalecê-lo.
ela conta que cada momento que vive, é intenso, é grande, é delicioso. eu, vou pensando no percurso dela, em tudo que através do seu sofrimento me foi dado conhecer, em tudo o que, por ter conhecimento, me torna responsável, e por ser responsável não ficarei impune. aquela mulher, pequena, frágil, inconstante, ressentida, inquieta, é um mestre, uma escola.
o homem-terra à minha frente, suspira, ou antes, bufa mesmo, de impaciência, de saturação
- mais do mesmo, mais do mesmo...
- mais do mesmo, o quê?...
- quantas vezes tenho que te dizer?... já te disse tantas vezes, mulher. já a raquel te disse também, e tu não ouves...
- diz-me, repete, a repetição é precisa para que eu integre e integre e integre...
digo, rindo-me, imitando-o na sua impaciência
- soubeste falar tão bem, mulher, quando se tratava de falar com a maria, e agora que te diz respeito, não vez nada... esforça-te. que parte do que tu te recusaste a viver, tens que resgatar?
- diz-me tu... é tão mais fácil falar dos outros... vá lá, fala tu de mim, e não me venhas com homens. não é de homem que eu preciso. isso fica para a próxima encarnação. estou cansada de dar com a cabeça na esquina da parede. acabou.
- não é de homens que te falo. falo de ti. tens que te permitir sentir, sentir-te, aceitar-te, ouvir-te. é de ti que te falo.
eu olho para ele, olho para a mulher turquesa, para a mulher doente e para a mulher crescente. é tudo tão simples, que não conseguimos ver, e vendo, vivê-lo.
Do sitio onde estou, encostada a um muro de um parque de estacionamento, adivinho o mar apenas pelo lugar onde se levanta o nevoeiro. Com as lágrimas que a brisa que vem de oeste faz correr no meu rosto, inspiro vagarosamente o ar fresco com cheiro a maresia e dentro de mim cresce a água salgada pelas algas e o doce massajar da areia na pele. Só eu sei onde estou. Quem passa por mim, vê uma mulher com um saco de peixe para o almoço, que chora à espera de alguém. Mas é o vento que fala comigo. Sereno, fresco, perfumado, fala-me da grandeza dos pequenos momentos que nos espreitam nas frestas da correria dos dias, dos intervalos entre as palavras, da imperceptível forma com que as letras manuscritas se ligam umas às outras, do espaço de tempo entre uma inspiração e uma expiração, o leve demorar de um olhar, o tempo de espera por uma resposta. Os dias que tantas vezes me parecem iguais, são cheios de peculiaridades.
há quem lhe chame 'ir desta para melhor'. por alguma razão há-de ser. mas quando eu passar para o outro plano, hão-de perguntar-me sobre o que fiz com a vida que me foi dada. eu direi que trabalhei. sobretudo passei os dias a trabalhar. dias como o de hoje, das seis e meia às vinte e trinta, um dia em que fiz de tudo. perante a minha resposta, serei entregue a hades que me há-de guardar no submundo sem direito a novas encarnações, sem direito a mais desperdícios. talvez me possa salvar este tomate cereja, perfeito, que fiz crescer e hoje comi, como se comendo-o, assimilasse o universo inteiro, em mim.
os meus olhos estão habituados a ver uma distância máxima de um metro. quando os fixo nas folhas verdes das árvores que balouçam do outro lado da varanda, choram. o meu coração está habituado a ver onde a vista não alcança, quando o fixo dentro do peito, chora.
- ah...pois... - diz-me com uma voz enjoada. tinha-me perguntado como estão os miúdos. - em casa estão muito bem. mudaram imenso de repente, até me custa a acreditar. sem ter que me chatear, sem os forçar, assim, de repente. ajudam, preocupam-se, são carinhosos... - toda a vida deles fui apontada por não ser dura, por permitir, por não obrigar, por não impor. que não os sabia criar, diziam. durante anos aguardaram pela oportunidade para me atirarem à cara um 'eu bem te disse', 'não foi por falta de aviso', 'não quiseste fazer o que te aconselhei'. agora, ah...pois... de um lado, um olhar parado de outro, apenas a minha gorda amiga - fico tão feliz, que nem imaginas... - eu sei, eu sei e eu sei... - ah...pois... - pimba!
em frente a mim a mulher dourada explica à mulher turquesa que a filha da segunda é sua mestre, que veio para ensiná-la, para curá-la.
- em que é que no comportamento da tua filha, tu te vês na vida que tens agora?
e a mulher turquesa fala de sonhos e vontades que teve toda a vida e não cumpriu
- não, isso é do passado, digo-te agora
diz a mulher dourada, enquanto a turquesa com o olhar viajante procura uma resposta
- não precisas de mo dizer. vais procurar perceber e quando curares essa parte em ti, estarás a curar a tua filha também.
eu observo e admiro-me sempre com a disponibilidade que a mulher turquesa mostra, de exposição da sua intimidade, com a qual aprendo sempre um bocadinho mais.
ainda me tentei a não atender à porta. estava a trabalhar, e sobem-me os pirolitos quando não respeitam o meu modo de sobrevivência. mas abri.
enquanto tento mergulhar o pensamento num texto sobre a crise no burundi, a gorda amiga ao meu lado fala-me das dificuldades posturais na intimidade com o seu gordissimo marido, que tem sérios problemas nos joelhos, assim como ela, nas articulações. e não, não é falta de imaginação. aliás, a imaginação, aqui, até é um problema a mais.
enquanto penso no que leio, ouço-a, e rio-me a bom rir com os gestos que faz ao tentar exemplificar a problemática da situação. problemática, mesmo, pois agravada por outros problemas de saúde além dos acima descritos.
- sabes o que é? - pergunta-me - é a velhice. envelhecer não devia ser assim, não nisto.
apesar da impaciência por estar a ficar com o trabalho todo atrasado, eu olho-a com ternura, sei o percurso dela, os altos e baixos do seu casamento, de ela abdicar dela mesma, do seu prazer, do ritmo do seu corpo, para que o marido tenha uma vida boa.
não lhe invejo a sorte, não queria nada que se parecesse com aquela vida para mim, mas acredito que seja a forma dela dedicar amor, a dela.
Adivinho o sorriso da mulher pela voz que ouço do outro lado do telefone. Também eu esboço um sorriso e sinto-me mais leve. É a minha fornecedora de cogumelos, uma mulher do campo com os olhos cheios de sol e o corpo a cheirar a terra fresca, como eu gostava de ser.
a dona fernanda passou cá com um ramo enorme de jarros, lá da casa que tem na aldeia. ela sabe que tenho sempre flores frescas na sala e que o gesto dela é sempre bem vindo. mas a dona fernanda quer conversar, ou, como de costume, ouvir-se pensar, pois não me exige grande participação no que fala.
- preciso que me ajude, vizinha, não tenho mão no meu sentir, e o meu sentir desregula-me o corpo, como sabe...
eu, que contava poder divagar enquanto ela monologava, volto do meu mundo e tento prestar atenção.
- então o que se passa vizinha?
- sabe daquele meu encantamento pelos falares daqueloutro. há muito tempo que não conversamos sobre isso, mas lembra-se de como as palavras dele se me entranhavam em todos os lados do corpo e da alma? um feitiço, vizinha, um feitiço...
eu lembrava-me do desatinamento em que andara a dona fernanda, mas pensava que o tempo tinha consumido um relacionamento não consumido e muito menos assumido.
enganei-me.
- o que eu lhe peço, vizinha - continua a dona fernanda - é que daí de fora, veja o que se passa dentro da minha vida, dentro de mim, que veja o que eu não consigo ver, que me livre do que eu sinto...
eu esbugalho os olhos, arqueio as sobrancelhas, respiro fundo, acomodo o rabo à pedra da banca, e tento preparar-me para o que aí vem, depois dos jarros.
- durante, e envergonho-me por dizê-lo, enfim...tempo demais, vizinha, duplicaram as estações, se quer que lhe diga. mas durante esse tempo andei enleada em conversas, em sintonias, em sinfonias, em intuições, em arrepios, em partilhas, enfim, em tudo que não fosse fruto de presença palpável, apenas manifestações de alma. mas andei, e pronto. neste tempo todo, os anjos, os arcanjos, os santos e os orixás, puseram-me no caminho provas provadas de que o taloutro não queria de mim além do que o que eu já tinha. ou seja, nada a que me encostar nas horas de cansaço. digo-lhe mesmo que até o próprio fez com que eu o entendesse claramente. mas eu não consigo vizinha, não o consigo largar, muito pelo contrário, de cada vez que me digo que vou largá-lo, deslargo, e quanto mais eu deslargo, mais o destino abre como se fossem janelas por onde eu vejo o que não quero. é enfeitiçamento, só pode ser, e sabe que eu sei do que falo. diga-me, vizinha, o que é que eu não consigo ver dentro de mim? será que se passou tanto tempo que a minha alma fossilizou a forma dele em mim?
bebo água para ajudar-me no raciocínio, que a água é um bom condutor de existências inexistentes, e invoco o poder das tarantellas do almoço.
- dona fernanda, a vizinha talvez esteja a pensar ao invés de sentir...
- sentir, sinto eu demais
diz-me ela, com o olhar agitado
- sente apenas com o corpo, dona fernanda, sinta com o coração da alma. é ciúme o que a senhora tem - sussurro - dê-lhe a mão, como quem diz, claro, e siga a sua vida. não o ampute de si, senão fica amputada mesmo, viva-o aceitando-o e siga vivendo o seu caminho.
a mulher sossega o seu olhar, e quase que ouço o seu bater desacelerar.
- eu vou tentar, mas sabe, quando as janelas se abrem...
a minha vontade é pôr a tocar a música endemoinhada, para que ela se solte como me acontece a mim quando a ouço, mas resolvo fazer uma infusão de alecrim e colher umas folhas de boldo e alfazema para que ela faça um banho antes de se deitar.