terça-feira, 6 de junho de 2017

pode ser amor












ainda me tentei a não atender à porta. estava a trabalhar, e sobem-me os pirolitos quando não respeitam o meu modo de sobrevivência. mas abri.

enquanto tento mergulhar o pensamento num texto sobre a crise no burundi, a gorda amiga ao meu lado fala-me das dificuldades posturais na intimidade com o seu gordissimo marido, que tem sérios problemas nos joelhos, assim como ela, nas articulações. e não, não é falta de imaginação. aliás, a imaginação, aqui, até é um problema a mais.

enquanto penso no que leio, ouço-a, e rio-me a bom rir com os gestos que faz ao tentar exemplificar a problemática da situação. problemática, mesmo, pois agravada por outros problemas de saúde além dos acima descritos.
- sabes o que é? - pergunta-me - é a velhice. envelhecer não devia ser assim, não nisto.

apesar da impaciência por estar a ficar com o trabalho todo atrasado, eu olho-a com ternura, sei o percurso dela, os altos e baixos do seu casamento, de ela abdicar dela mesma, do seu prazer, do ritmo do seu corpo, para que o marido tenha uma vida boa.

não lhe invejo a sorte, não queria nada que se parecesse com aquela vida para mim, mas acredito que seja a forma dela dedicar amor, a dela.













Sorriso






Adivinho o sorriso da mulher pela voz que ouço do outro lado do telefone. Também eu esboço um sorriso e sinto-me mais leve. É a minha fornecedora de cogumelos, uma mulher do campo com os olhos cheios de sol e o corpo a cheirar a terra fresca, como eu gostava de ser.








domingo, 4 de junho de 2017

a dona fernanda e as impossibilidades invisíveis








a dona fernanda passou cá com um ramo enorme de jarros, lá da casa que tem na aldeia. ela sabe que tenho sempre flores frescas na sala e que o gesto dela é sempre bem vindo. mas a dona fernanda quer conversar, ou, como de costume, ouvir-se pensar, pois não me exige grande participação no que fala.

- preciso que me ajude, vizinha, não tenho mão no meu sentir, e o meu sentir desregula-me o corpo, como sabe...
eu, que contava poder divagar enquanto ela monologava, volto do meu mundo e tento prestar atenção.
- então o que se passa vizinha?
- sabe daquele meu encantamento pelos falares daqueloutro. há muito tempo que não conversamos sobre isso, mas lembra-se de como as palavras dele se me entranhavam em todos os lados do corpo e da alma? um feitiço, vizinha, um feitiço...
eu lembrava-me do desatinamento em que andara a dona fernanda, mas pensava que o tempo tinha consumido um relacionamento não consumido e muito menos assumido. 
enganei-me.

- o que eu lhe peço, vizinha - continua a dona fernanda - é que daí de fora, veja o que se passa dentro da minha vida, dentro de mim, que veja o que eu não consigo ver, que me livre do que eu sinto...
eu esbugalho os olhos, arqueio as sobrancelhas, respiro fundo, acomodo o rabo à pedra da banca, e tento preparar-me para o que aí vem, depois dos jarros.

- durante, e envergonho-me por dizê-lo, enfim...tempo demais, vizinha, duplicaram as estações, se quer que lhe diga. mas durante esse tempo andei enleada em conversas, em sintonias, em sinfonias, em intuições, em arrepios, em partilhas, enfim, em tudo que não fosse fruto de presença palpável, apenas manifestações de alma. mas andei, e pronto. neste tempo todo, os anjos, os arcanjos, os santos e os orixás, puseram-me no caminho provas provadas de que o taloutro não queria de mim além do que o que eu já tinha. ou seja, nada a que me encostar nas horas de cansaço. digo-lhe mesmo que até o próprio fez com que eu o entendesse claramente. mas eu não consigo vizinha, não o consigo largar, muito pelo contrário, de cada vez que me digo que vou largá-lo, deslargo, e quanto mais eu deslargo, mais o destino abre como se fossem janelas por onde eu vejo o que não quero. é enfeitiçamento, só pode ser, e sabe que eu sei do que falo. diga-me, vizinha, o que é que eu não consigo ver dentro de mim? será que se passou tanto tempo que a minha alma fossilizou a forma dele em mim?

bebo água para ajudar-me no raciocínio, que a água é um bom condutor de existências inexistentes, e invoco o poder das tarantellas do almoço.

- dona fernanda, a vizinha talvez esteja a pensar ao invés de sentir...
- sentir, sinto eu demais
diz-me ela, com o olhar agitado
- sente apenas com o corpo, dona fernanda, sinta com o coração da alma. é ciúme o que a senhora tem - sussurro - dê-lhe a mão, como quem diz, claro, e siga a sua vida. não o ampute de si, senão fica amputada mesmo, viva-o aceitando-o e siga vivendo o seu caminho.
a mulher sossega o seu olhar, e quase que ouço o seu bater desacelerar. 
- eu vou tentar, mas sabe, quando as janelas se abrem...
a minha vontade é pôr a tocar a música endemoinhada, para que ela se solte como me acontece a mim quando a ouço, mas resolvo fazer uma infusão de alecrim e colher umas folhas de boldo e alfazema para que ela faça um banho antes de se deitar.









a dança










- estás tola?
pergunta-me o rapaz quando entra na cozinha
- se calhar estou, filho
-vais-te partir toda
diz ele, sabendo que há uma semana tudo me dói
- pior não fico
respondo enquanto invento uma dança ao som das tarantellas, e, ao mesmo tempo estendo no balcão, uma massa para as pizza do almoço.
em cada salto, em cada rodopio, no levantar dos braços, vou escamando uma tristeza que se me colou à pele, mas o rapaz não sabe.
por instantes a alegria volta, o corpo solta-se, a vida aligeira-se.












sábado, 3 de junho de 2017

a oração









conta a mulher que naquele momento em que a alma lhe sussurrou faça-se em mim segundo a tua vontade, transformou-se outra vez na criança assustada com medo da vida. então a sua oração tornou-se - senhor faz-me forte, senhor faz-me coragem, senhor faz-me visão, senhor faz-me audição, senhor faz-me partilha, senhor faz-me comunicação, senhor faz-me caminho, senhor faz-me destino, senhor faz-me confiança, senhor faz-me justiça, senhor faz-me descalça, senhor faz-me agasalho, senhor faz-me nação, senhor faz-me terra, senhor faz-me descanso, senhor faz-me silêncio. 
ela contava muito calmamente, como quem fala o que quer calar.











desencontradas








a primeira pessoa do plural entramela-se-me na voz. 
pronuncio a palavra nunca dita, ao vento que sopra de norte, em voz alta. 


a mulher do outro lado do mundo, grita enlouquecida, ao som do ribombar do tambor
'eu quero esse homem'
dobra-se exausta sobre o instrumento, 
desencontrada de si mesma.

tu estás tão longe.


estilhaçando desígnios de vidas.










num perpétuo adeus












Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
E os abraços que dás
São rasgos de luz e de paz
Num céu de asas feridas
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Dos teus olhos de Deus
Num perpétuo adeus
Azuis de sol e de lágrimas
Dizes: 'Fica comigo
És o meu porto de abrigo
E a despedida uma lâmina! '
não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim
Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim

Tens os olhos de Deus
E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento
Que cada beijo trouxer
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Nos teus olhos de Deus
Habitam astros e céus
Foguetes rosa e carmim
Rodas na festa da aldeia
Palpitam sinos na veia
Cantam ao longe que 'sim! '
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim
Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim


Pedro Abrunhosa





















sexta-feira, 2 de junho de 2017

ups...










enquanto ouço pacientemente, e, mais ausente do que presente, a mulher que do outro lado do telefone me conta dos seus medos e crises de ansiedade, sou surpreendida com um 'e tu ana? caramba...não sabemos nada da tua vida, nunca falas de ti...', e eu, 'ups...fui apanhada...', e desato a contar que também eu já tive as minhas crises e que agora até ando bem, sim, equilibrada, em paz comigo mesma e com os outros, por isso não tenho nada para contar. e enquanto escrevo isto, espero lentamente que o meu corpo pare de protestar pelo desentendimento entre o meu coração e o meu cérebro. a cabeça a raciocinar razoavelmente, o coração coitado, a dizer 'mas então, e eu?', e o corpo a desfazer-se em enjoos, tonturas, dores de corpo e diarreias. 'que bom, ana, quem me dera poder dizer o mesmo que tu', diz-me ela do outro lado. então lembro-me de me terem dito 'quem te conhece não te conhece', e eu fico assim vazia de entrega, vazia de partilha, com a vida aprisionada num balão prestes a rebentar.












quinta-feira, 1 de junho de 2017

Selinho Blog em Bom (SBeB)













pois o selinho que aqui se vê, veio aqui parar pela generosa Susana, que me está a fazer ficar aqui quando já devia estar a tomar um duche para ir dormir. então se bem entendi, e para entender normalmente entendo tudo ao contrário, tenho que escolher "um blog que gostasses de ser", e eu acho que a ser, e se pudesse continuar a ser mulher, gostava de ser o Xilre e saber as coisas todas que ele sabe (ia dar-me um jeito que só eu é que sei) e ainda escrever assim que a modos de poesia e prosas com palavras difíceis e sentidos bonitos. se tiver que ser homem, desisto e passo a querer ser a Cuca, a Pirata, e fazer de toda a dor poesia, e, em calhando bem, humor.

os cinco blogues que escolho para dar seguimento a esta ideia como sempre genial do Pipoco, são:

o Cigano vadio
aquele que me chama untuosa (wtf?)
the candle
a serena
what's the use of crying?

ups... esgotei...











o livro











olho para o livro pesado que acabou de chegar pelo correio. é a minha forma de entrar ainda mais em ti. ter perto de mim o que tu lês, nem que não o leia, enfeito a mesa de cabeceira com pedaços que te encaixam no peito, como se construísse o puzzle do que tu és, por dentro.