enquanto tento mergulhar o pensamento num texto sobre a crise no burundi, a gorda amiga ao meu lado fala-me das dificuldades posturais na intimidade com o seu gordissimo marido, que tem sérios problemas nos joelhos, assim como ela, nas articulações. e não, não é falta de imaginação. aliás, a imaginação, aqui, até é um problema a mais.
enquanto penso no que leio, ouço-a, e rio-me a bom rir com os gestos que faz ao tentar exemplificar a problemática da situação. problemática, mesmo, pois agravada por outros problemas de saúde além dos acima descritos.
- sabes o que é? - pergunta-me - é a velhice. envelhecer não devia ser assim, não nisto.
apesar da impaciência por estar a ficar com o trabalho todo atrasado, eu olho-a com ternura, sei o percurso dela, os altos e baixos do seu casamento, de ela abdicar dela mesma, do seu prazer, do ritmo do seu corpo, para que o marido tenha uma vida boa.
não lhe invejo a sorte, não queria nada que se parecesse com aquela vida para mim, mas acredito que seja a forma dela dedicar amor, a dela.


