conta a mulher que naquele momento em que a alma lhe sussurrou faça-se em mim segundo a tua vontade, transformou-se outra vez na criança assustada com medo da vida. então a sua oração tornou-se - senhor faz-me forte, senhor faz-me coragem, senhor faz-me visão, senhor faz-me audição, senhor faz-me partilha, senhor faz-me comunicação, senhor faz-me caminho, senhor faz-me destino, senhor faz-me confiança, senhor faz-me justiça, senhor faz-me descalça, senhor faz-me agasalho, senhor faz-me nação, senhor faz-me terra, senhor faz-me descanso, senhor faz-me silêncio. ela contava muito calmamente, como quem fala o que quer calar.
enquanto ouço pacientemente, e, mais ausente do que presente, a mulher que do outro lado do telefone me conta dos seus medos e crises de ansiedade, sou surpreendida com um 'e tu ana? caramba...não sabemos nada da tua vida, nunca falas de ti...', e eu, 'ups...fui apanhada...', e desato a contar que também eu já tive as minhas crises e que agora até ando bem, sim, equilibrada, em paz comigo mesma e com os outros, por isso não tenho nada para contar. e enquanto escrevo isto, espero lentamente que o meu corpo pare de protestar pelo desentendimento entre o meu coração e o meu cérebro. a cabeça a raciocinar razoavelmente, o coração coitado, a dizer 'mas então, e eu?', e o corpo a desfazer-se em enjoos, tonturas, dores de corpo e diarreias. 'que bom, ana, quem me dera poder dizer o mesmo que tu', diz-me ela do outro lado. então lembro-me de me terem dito 'quem te conhece não te conhece', e eu fico assim vazia de entrega, vazia de partilha, com a vida aprisionada num balão prestes a rebentar.
pois o selinho que aqui se vê, veio aqui parar pela generosa Susana, que me está a fazer ficar aqui quando já devia estar a tomar um duche para ir dormir. então se bem entendi, e para entender normalmente entendo tudo ao contrário, tenho que escolher "um blog que gostasses de ser", e eu acho que a ser, e se pudesse continuar a ser mulher, gostava de ser o Xilre e saber as coisas todas que ele sabe (ia dar-me um jeito que só eu é que sei) e ainda escrever assim que a modos de poesia e prosas com palavras difíceis e sentidos bonitos. se tiver que ser homem, desisto e passo a querer ser a Cuca, a Pirata, e fazer de toda a dor poesia, e, em calhando bem, humor.
os cinco blogues que escolho para dar seguimento a esta ideia como sempre genial do Pipoco, são:
olho para o livro pesado que acabou de chegar pelo correio. é a minha forma de entrar ainda mais em ti. ter perto de mim o que tu lês, nem que não o leia, enfeito a mesa de cabeceira com pedaços que te encaixam no peito, como se construísse o puzzle do que tu és, por dentro.
aconchego o edredon por cima e à volta do corpo moreno, enorme e peludo do rapaz. de fora fica a cabeça de onde uns olhos escuros semicerrados, dão sinal de querer continuar a dormir. por entre a barba negra, os lábios carnudos sorriem. 'queres continuar a dormir?', pergunto, sabendo já a resposta. ele diz que sim com a cabeça. eu sinto que estou a ter uma segunda oportunidade para ser mãe, agora, sem a canseira das fraldas, dos colos, das papas e das sopas. até aqui, embora sempre presente em casa, estive sempre ausente, absorta em tudo o que tive e tenho para fazer, para que a vida corra, e, não é raro o dia em que pense que lhes dei pouco carinho, carinho de toque, de beijo, de afago, carinho manifestado, para além de sentido. mas agora, eles todos já com mais de duas dezenas de anos, rodeiam-me com os seus braços, pousam as cabeças rapadas nos meus ombros, arranham-me as bochechas com as suas barbas densas, e, nem sei se eles me fazem menina, se eu os tenho meninos, outra vez, nem me interessa saber, fico é com uma profunda gratidão que até as minhas mãos tremem enquanto escrevo isto.
Então combinaram que a cada pensamento ou sensação maus, fosse buscar outros bons e lhes sobrepusesse. Concordavam que a vida por vezes é difícil, mas perante a ideia disso, procurariam a memória e esperança de dias bonitos.
hoje fiz uma coisa improvável e despropositada levada por motivos inválidos. o resultado visível foi nulo, mas por dentro fiquei desmesuradamente em paz. o homem à minha frente diz-me 'a minha mulher devia ouvir o que me está a dizer, fazia-lhe bem', e, quando saiu 'saio daqui bem melhor do que entrei'. é tão bom, sabes? tão bom. o rapaz pergunta-me durante o jantar, como se medita, e porque é que eu o faço, todas as noites antes de dormir. eles riem-se. faço-o ouvir música binaural e ele diz que está a ficar com o cérebro todo comido. cá em casa só se janta salada. desde que o tempo aqueceu que não se come outra coisa. todas as noites o mesmo e nem apetece variar e ninguém pede para variar.
o meu lado virginiano manifesta-se na caixa do supermercado, onde, disponho de forma excessivamente (reconheço) organizada (mas não consigo controlar-me) as compras, do artigo mais pesado para o mais leve, categoria por categoria, paralelos uns aos outros e ainda alinhados com as margens do tapete. hoje, dou por mim, também a organizar as compras do cliente que se segue, perante o seu olhar surpreso, e o meu embaraço ao encará-lo. claro que quando chego a casa, os sacos ficam espalhados pelo chão da cozinha ad eternum.