terça-feira, 30 de maio de 2017

do dia







hoje fiz uma coisa improvável e despropositada levada por motivos inválidos. o resultado visível foi nulo, mas por dentro fiquei desmesuradamente em paz.

o homem à minha frente diz-me 'a minha mulher devia ouvir o que me está a dizer, fazia-lhe bem', e, quando saiu 'saio daqui bem melhor do que entrei'. é tão bom, sabes? tão bom.

o rapaz pergunta-me durante o jantar, como se medita, e porque é que eu o faço, todas as noites antes de dormir. eles riem-se. faço-o ouvir música binaural e ele diz que está a ficar com o cérebro todo comido.

cá em casa só se janta salada. desde que o tempo aqueceu que não se come outra coisa. todas as noites o mesmo e nem apetece variar e ninguém pede para variar.











segunda-feira, 29 de maio de 2017

ad etertum









o meu lado virginiano manifesta-se na caixa do supermercado, onde, disponho de forma excessivamente (reconheço) organizada (mas não consigo controlar-me) as compras, do artigo mais pesado para o mais leve, categoria por categoria, paralelos uns aos outros e ainda alinhados com as margens do tapete. hoje, dou por mim, também a organizar as compras do cliente que se segue, perante o seu olhar surpreso, e o meu embaraço ao encará-lo. claro que quando chego a casa, os sacos ficam espalhados pelo chão da cozinha ad eternum.












é isso








o que eu sinto por ele, apesar de tudo, doutor? é esta comoção por ele despertar em mim a possibilidade de sentir, amor, doutor. é isso.










domingo, 28 de maio de 2017

se um dia chegares









chove a chuva certa dos dias de quase verão. na hora do crepúsculo, a porta aberta traz o cheiro da relva molhada e o som do recolher das andorinhas, ouço o restolhar das folhas sacudidas pela água e não preciso de outro som.

tenho sido perseguida pelo imperativo de me ocupar mais com o que gosto sem encontrar o que nomear. dou comigo a pensar que no tempo que disponho, cada vez mais me apraz a minha companhia, aqueles que a minha alma reconhece, o silêncio, a partilha e a terra.

temo que se um dia chegares, eu já não tenha paixão para dar.








O que fazes hoje?








pergunta o homem da palestra:

"O que fazes hoje?
Nada. Hoje é domingo.

(...) vocês têm esta divisão do tempo semanal em módulos, e sábado, para umas culturas, e domingo para outras, devia ser o dia em que o tempo terrestre se alinha com o tempo cósmico, em que kronos se alinha com kairos, e kairos e kronos se alinham com aéon.

Kairos, é o tempo que não é dos deuses nem dos homens, o tempo intermédio, o tempo mágico, a sensação de tempo quando estamos profundamente entusiasmados, empenhados e energizados. A percepção do tempo resulta do entusiasmo. (…) kairos é a experiência de estar com um pé no tempo, e com um pé fora do tempo. Kairos é o que acontece quando estás a ver uma bailarina, ou uma companhia inteira de ballet e a ultima coisa que pensas é em tempo. Mas o tempo está a passar, mas a nossa percepção é que é diferente. Acima de kairos e de kronos existe aéon, tempo que não passa."

hoje não foi domingo, para mim, e sinto-o no corpo, foi o peso do tempo terrestre sem a leveza do tempo cósmico.

[é aí que te encontro, em aéon.]









sábado, 27 de maio de 2017

maresia





















chego da praia com os pés doridos e as mãos em concha. nelas trago tudo o que calo, tudo o que sinto, a pele e o sal e a brisa morna, deste fim de tarde, para ti. 
dispo o casaco, descalço os pés, tomo água, respiro o silêncio. 
sabes, o dia anoitece. o céu está quase quase negro e nem as estrelas vão pintar de luz o que vejo daqui, nem por dentro, nem por fora. 
olho para as minhas mãos e vejo que afinal delas escorrem apenas ninharias.














triângulo











não era ali que queria ir, nem onde lhe disseram para ir. o senhor do tempo surgiu no caminho que a levava à anciã.
- faz crescer o tempo fazendo aquilo que gostas. ele está a esgotar-se.
tinha-lhe mostrado o tempo como triângulos, quando fazia o que gostava, o triângulo invertido criava espaço de tempo, quando fazia apenas o que urgia, o triângulo estreitava o tempo.
anuiu e murmurou
- mas e ele? eu gosto dele...
- é um desperdício de tempo. tira-o do teu coração.
- não consigo
- como uma cebola. tira cada camada lentamente, para que no final te consigas ver, a ti, ao teu coração












quinta-feira, 25 de maio de 2017

bezegol











    enquanto passa verdinhos por farinha de milho, o mais velho explica ao do meio que o rap é um estilo de música e que o hip hop é um modo de vida. isto passa-se enquanto ouve, com o som bem alto, a maria do rui veloso e do bezegol (como gosto deste nome). quando o irmão se vai embora, diz-me
- pensei lá eu quando acordei que ia estar a panar peixe a esta hora...
- pois, nem eu pensei isso alguma vez na vida.
respondi, mas verdade tão verdade, que sinto tanta gratidão, e sem que ele note, dirijo a minha alma para o lá de cima, e encho-o de beijos e cócegas nas barbas brancas.











quarta-feira, 24 de maio de 2017

enquanto eu me perco com as horas








O homem da conferência que me diz que a palavra falada tem uma força afirmativa/curativa própria, fala de outra forma de inteligência, "Quando a nossa actividade é inteligente, nós somos elegantes. Não falamos demais, não acendemos botões a mais, não fazemos percursos de automóvel a mais. Entras numa espécie de estado minimal. A actividade inteligente é uma incrível economia prânica, uma incrível capacidade de lidar com o espaço e com o tempo e uma competência no dia-a-dia."















terça-feira, 23 de maio de 2017

o tipo de post que não deve ser publicado num blogue











enquanto a minha amiga me confidencia que não consegue falar com mais ninguém sobre a situação que vive com o filho mais velho, eu lembro-me dos momentos difíceis que vivi com os meus filhos, em que inúmeras vezes pensei não ter capacidade para os educar, e, agora, aqui sentada com a bochecha ainda arranhada pelas barbas deles, estou grata pelo que passei, pela oportunidade que a vida me deu de crescer com eles, de aprender a tolerância, o respeito, a paciência, a verdade, o amor, a compaixão, a infância, a espontaneidade, a vulnerabilidade, a solidariedade, a dor, a alegria, e outras coisas mais que eu não escrevo porque isto está a ficar muito lamechas.