segunda-feira, 29 de maio de 2017
é isso
domingo, 28 de maio de 2017
se um dia chegares
tenho sido perseguida pelo imperativo de me ocupar mais com o que gosto sem encontrar o que nomear. dou comigo a pensar que no tempo que disponho, cada vez mais me apraz a minha companhia, aqueles que a minha alma reconhece, o silêncio, a partilha e a terra.
temo que se um dia chegares, eu já não tenha paixão para dar.
O que fazes hoje?
pergunta o homem da palestra:
"O que fazes hoje?
Nada. Hoje é domingo.
(...) vocês têm esta divisão do tempo semanal em módulos,
e sábado, para umas culturas, e domingo para outras, devia ser o dia em que o
tempo terrestre se alinha com o tempo cósmico, em que kronos se alinha com
kairos, e kairos e kronos se alinham com aéon.
hoje não foi domingo, para mim, e sinto-o no corpo, foi o peso do tempo terrestre sem a leveza do tempo cósmico.
[é aí que te encontro, em aéon.]
sábado, 27 de maio de 2017
maresia
chego da praia com os pés doridos e as mãos em concha. nelas trago tudo o que calo, tudo o que sinto, a pele e o sal e a brisa morna, deste fim de tarde, para ti.
dispo o casaco, descalço os pés, tomo água, respiro o silêncio.
sabes, o dia anoitece. o céu está quase quase negro e nem as estrelas vão pintar de luz o que vejo daqui, nem por dentro, nem por fora.
olho para as minhas mãos e vejo que afinal delas escorrem apenas ninharias.
triângulo
- faz crescer o tempo fazendo aquilo que gostas. ele está a esgotar-se.
tinha-lhe mostrado o tempo como triângulos, quando fazia o que gostava, o triângulo invertido criava espaço de tempo, quando fazia apenas o que urgia, o triângulo estreitava o tempo.
anuiu e murmurou
- mas e ele? eu gosto dele...
- é um desperdício de tempo. tira-o do teu coração.
- não consigo
- como uma cebola. tira cada camada lentamente, para que no final te consigas ver, a ti, ao teu coração
quinta-feira, 25 de maio de 2017
bezegol
- pensei lá eu quando acordei que ia estar a panar peixe a esta hora...
- pois, nem eu pensei isso alguma vez na vida.
respondi, mas verdade tão verdade, que sinto tanta gratidão, e sem que ele note, dirijo a minha alma para o lá de cima, e encho-o de beijos e cócegas nas barbas brancas.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
enquanto eu me perco com as horas
O homem da conferência que me diz que a palavra falada tem uma força afirmativa/curativa própria, fala de outra forma de inteligência, "Quando a nossa actividade é inteligente, nós somos elegantes. Não falamos demais, não acendemos botões a mais, não fazemos percursos de automóvel a mais. Entras numa espécie de estado minimal. A actividade inteligente é uma incrível economia prânica, uma incrível capacidade de lidar com o espaço e com o tempo e uma competência no dia-a-dia."
terça-feira, 23 de maio de 2017
o tipo de post que não deve ser publicado num blogue
tarantella
o rapaz entra de olhos semi-cerrados na cozinha. parece um zombie.
- fazes ideia de como esta música faz doer a minha cabeça?
pergunta, antes do beijo de bom dia, e tentando pousar a cabeça no meu ombro.
eu cozinho, aos saltinhos, ao som de uma tarantella.
- não percebo. alguma memória dos recônditos das tuas vidas passadas, que tu rejeitas. só pode ser...
eu sei que o que digo deve ser um disparate.
ele encolhe os ombros, abana a cabeça, e vai embora.
eu continuo a rodopiar.
não deve ser fácil para eles serem meus filhos. a sério. e tu sabes do que falo.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
interno
em 2016 registaram-se mais de 31 milhões de deslocados internos. pela fotografia se percebe que são pessoas que mudam de lugar com a vida às costas. como se lê no artigo, uma vez que não são refugidas, não têm estatuto que lhes conceda apoios.
daqui de onde me sento, alterno o meu olhar, entre as árvores que ondulam lá fora ao sabor do vento, e a imagem desta mulher com o filho amarrado ao corpo, os pertences às costas e as cabras presas por uma corda.
estava eu insatisfeita com o quê? saudades de ti?
Subscrever:
Mensagens (Atom)



