domingo, 28 de maio de 2017

O que fazes hoje?








pergunta o homem da palestra:

"O que fazes hoje?
Nada. Hoje é domingo.

(...) vocês têm esta divisão do tempo semanal em módulos, e sábado, para umas culturas, e domingo para outras, devia ser o dia em que o tempo terrestre se alinha com o tempo cósmico, em que kronos se alinha com kairos, e kairos e kronos se alinham com aéon.

Kairos, é o tempo que não é dos deuses nem dos homens, o tempo intermédio, o tempo mágico, a sensação de tempo quando estamos profundamente entusiasmados, empenhados e energizados. A percepção do tempo resulta do entusiasmo. (…) kairos é a experiência de estar com um pé no tempo, e com um pé fora do tempo. Kairos é o que acontece quando estás a ver uma bailarina, ou uma companhia inteira de ballet e a ultima coisa que pensas é em tempo. Mas o tempo está a passar, mas a nossa percepção é que é diferente. Acima de kairos e de kronos existe aéon, tempo que não passa."

hoje não foi domingo, para mim, e sinto-o no corpo, foi o peso do tempo terrestre sem a leveza do tempo cósmico.

[é aí que te encontro, em aéon.]









sábado, 27 de maio de 2017

maresia





















chego da praia com os pés doridos e as mãos em concha. nelas trago tudo o que calo, tudo o que sinto, a pele e o sal e a brisa morna, deste fim de tarde, para ti. 
dispo o casaco, descalço os pés, tomo água, respiro o silêncio. 
sabes, o dia anoitece. o céu está quase quase negro e nem as estrelas vão pintar de luz o que vejo daqui, nem por dentro, nem por fora. 
olho para as minhas mãos e vejo que afinal delas escorrem apenas ninharias.














triângulo











não era ali que queria ir, nem onde lhe disseram para ir. o senhor do tempo surgiu no caminho que a levava à anciã.
- faz crescer o tempo fazendo aquilo que gostas. ele está a esgotar-se.
tinha-lhe mostrado o tempo como triângulos, quando fazia o que gostava, o triângulo invertido criava espaço de tempo, quando fazia apenas o que urgia, o triângulo estreitava o tempo.
anuiu e murmurou
- mas e ele? eu gosto dele...
- é um desperdício de tempo. tira-o do teu coração.
- não consigo
- como uma cebola. tira cada camada lentamente, para que no final te consigas ver, a ti, ao teu coração












quinta-feira, 25 de maio de 2017

bezegol











    enquanto passa verdinhos por farinha de milho, o mais velho explica ao do meio que o rap é um estilo de música e que o hip hop é um modo de vida. isto passa-se enquanto ouve, com o som bem alto, a maria do rui veloso e do bezegol (como gosto deste nome). quando o irmão se vai embora, diz-me
- pensei lá eu quando acordei que ia estar a panar peixe a esta hora...
- pois, nem eu pensei isso alguma vez na vida.
respondi, mas verdade tão verdade, que sinto tanta gratidão, e sem que ele note, dirijo a minha alma para o lá de cima, e encho-o de beijos e cócegas nas barbas brancas.











quarta-feira, 24 de maio de 2017

enquanto eu me perco com as horas








O homem da conferência que me diz que a palavra falada tem uma força afirmativa/curativa própria, fala de outra forma de inteligência, "Quando a nossa actividade é inteligente, nós somos elegantes. Não falamos demais, não acendemos botões a mais, não fazemos percursos de automóvel a mais. Entras numa espécie de estado minimal. A actividade inteligente é uma incrível economia prânica, uma incrível capacidade de lidar com o espaço e com o tempo e uma competência no dia-a-dia."















terça-feira, 23 de maio de 2017

o tipo de post que não deve ser publicado num blogue











enquanto a minha amiga me confidencia que não consegue falar com mais ninguém sobre a situação que vive com o filho mais velho, eu lembro-me dos momentos difíceis que vivi com os meus filhos, em que inúmeras vezes pensei não ter capacidade para os educar, e, agora, aqui sentada com a bochecha ainda arranhada pelas barbas deles, estou grata pelo que passei, pela oportunidade que a vida me deu de crescer com eles, de aprender a tolerância, o respeito, a paciência, a verdade, o amor, a compaixão, a infância, a espontaneidade, a vulnerabilidade, a solidariedade, a dor, a alegria, e outras coisas mais que eu não escrevo porque isto está a ficar muito lamechas. 















tarantella










      o rapaz entra de olhos semi-cerrados na cozinha. parece um zombie. 
- fazes ideia de como esta música faz doer a minha cabeça?
pergunta, antes do beijo de bom dia, e tentando pousar a cabeça no meu ombro.
eu cozinho, aos saltinhos, ao som de uma tarantella.
- não percebo. alguma memória dos recônditos das tuas vidas passadas, que tu rejeitas. só pode ser...
eu sei que o que digo deve ser um disparate.
ele encolhe os ombros, abana a cabeça, e vai embora. 
eu continuo a rodopiar. 
não deve ser fácil para eles serem meus filhos. a sério. e tu sabes do que falo.









segunda-feira, 22 de maio de 2017

interno





















em 2016 registaram-se mais de 31 milhões de deslocados internos. pela fotografia se percebe que são pessoas que mudam de lugar com a vida às costas. como se lê no artigo, uma vez que não são refugidas, não têm estatuto que lhes conceda apoios.

daqui de onde me sento, alterno o meu olhar, entre as árvores que ondulam lá fora ao sabor do vento, e a imagem desta mulher com o filho amarrado ao corpo, os pertences às costas e as cabras presas por uma corda.

estava eu insatisfeita com o quê? saudades de ti?











domingo, 21 de maio de 2017

mim











acho que posso dizer que vivo grande parte da minha vida desfasada. sinto o que não vejo, falo com quem não conheço, viajo para onde não vou, leio o que não está escrito. até o silêncio, hoje, tive que o procurar dentro de mim, por entre o ruído e o movimento do domingo, normal para qualquer pessoa, um exagero para mim. o i'm only human after all, não me contempla, a mulher do campo que vive dentro do meu peito, precisa de terra para pisar. esgoto-me nos dias que vivo e que não me parecem ter sido desenhados para mim. se ao menos chovesse...











indignação






ainda a cerca de 50 kms de casa, a mulher diz ao neto, pelo telemóvel, que está quase, mesmo quase a chegar. eu, que vou a conduzir, como sempre a velocidade de cruzeiro, sabendo do trânsito e da distância, digo, de forma a que me ouçam do outro lado do 'fio', que não, que ainda demoramos. a mulher ao meu lado, indignada, pergunta-me:
- se ele fica mais contente com a mentira, porque lhe dizes a verdade?