terça-feira, 23 de maio de 2017

tarantella










      o rapaz entra de olhos semi-cerrados na cozinha. parece um zombie. 
- fazes ideia de como esta música faz doer a minha cabeça?
pergunta, antes do beijo de bom dia, e tentando pousar a cabeça no meu ombro.
eu cozinho, aos saltinhos, ao som de uma tarantella.
- não percebo. alguma memória dos recônditos das tuas vidas passadas, que tu rejeitas. só pode ser...
eu sei que o que digo deve ser um disparate.
ele encolhe os ombros, abana a cabeça, e vai embora. 
eu continuo a rodopiar. 
não deve ser fácil para eles serem meus filhos. a sério. e tu sabes do que falo.









segunda-feira, 22 de maio de 2017

interno





















em 2016 registaram-se mais de 31 milhões de deslocados internos. pela fotografia se percebe que são pessoas que mudam de lugar com a vida às costas. como se lê no artigo, uma vez que não são refugidas, não têm estatuto que lhes conceda apoios.

daqui de onde me sento, alterno o meu olhar, entre as árvores que ondulam lá fora ao sabor do vento, e a imagem desta mulher com o filho amarrado ao corpo, os pertences às costas e as cabras presas por uma corda.

estava eu insatisfeita com o quê? saudades de ti?











domingo, 21 de maio de 2017

mim











acho que posso dizer que vivo grande parte da minha vida desfasada. sinto o que não vejo, falo com quem não conheço, viajo para onde não vou, leio o que não está escrito. até o silêncio, hoje, tive que o procurar dentro de mim, por entre o ruído e o movimento do domingo, normal para qualquer pessoa, um exagero para mim. o i'm only human after all, não me contempla, a mulher do campo que vive dentro do meu peito, precisa de terra para pisar. esgoto-me nos dias que vivo e que não me parecem ter sido desenhados para mim. se ao menos chovesse...











indignação






ainda a cerca de 50 kms de casa, a mulher diz ao neto, pelo telemóvel, que está quase, mesmo quase a chegar. eu, que vou a conduzir, como sempre a velocidade de cruzeiro, sabendo do trânsito e da distância, digo, de forma a que me ouçam do outro lado do 'fio', que não, que ainda demoramos. a mulher ao meu lado, indignada, pergunta-me:
- se ele fica mais contente com a mentira, porque lhe dizes a verdade?









sábado, 20 de maio de 2017

à mulher que nunca tinha gerado um filho no seu ventre











e depois ainda havia, naquela roda de mulheres sentadas no chão, aquela que nunca tinha gerado um filho no seu ventre. a ela, a sacerdotisa colocou um dedo entre as sobrancelhas, e fez com que viajasse até verdes prados. aí, fê-la una com a terra, mãe, criadora, fértil, e falou-lhe que ela também era semente na terra, que podia fazer crescer do solo, cuidando da natureza. depois, encostou-lhe a mão no centro do peito, e disse-lhe que tudo o que dali transmitisse para os outros, seria fecundo e fazer-se-ia vida. por fim apontou-lhe o laríngeo e disse-lhe que também pela palavra seria mãe, pela palavra também ela semente. falou-lhe ainda que cantar e dançar eram uma forma de unir a sua parte terrena com a divina, e que cantasse e dançasse. 









Ainda sobre o sonho - T2








Sobre o undying love foi Isolt quem me contou. Mostrou-me um espelho, onde, para além da minha imagem, via em profundidade outros vultos, podiam ser eus. Falou-me da reverência por mim mesma, de poder criar o futuro com a força do amor.












Ainda sobre o sonho








Foi Amaterasu quem mo disse - ser autêntica é projectar na aparência o meu ser interior, já ser verdadeira é agir conforme aquilo em que acredito.






sexta-feira, 19 de maio de 2017

bom dia professor









naquele momento mínimo, exactamente antes de acordar, recebo uma mensagem no meu ainda sono que me diz para ser autêntica e verdadeira. ora, eu não sei qual é a diferença...

dez passos depois fora da cama, o homem da palestra no vimeo pergunta o que nos tira da cama de manhã, e, quais são as nossas fontes de entusiasmo. 

são oito horas e saí da cama para fazer bolachas (sabes...bolachas...).












quinta-feira, 18 de maio de 2017

táctil









o homem e a mulher sentaram-se na mesa do restaurante feio. conversavam. ao contrário do costume, ela também falava. pelo que se ouvia de vez em quando, trocavam ideias sobre política internacional, e, depois de uns copos de vinho e de um bacalhau cozido, passaram para questões de família. é só perto da rabanada e do pudim que colocam os telemóveis em cima da mesa. ela faz um telefonema, ele responde a uma mensagem, ela responde ao que parece ser um mail, depois outro, e ele volta a enviar uma sms. ele pede um cigarro a um funcionário e pergunta à mulher se quer ir para o jardim fazer-lhe companhia enquanto ele fuma. ela diz que não e fica só na mesa. parece aliviada. volta a responder a um mail, depois outro, olha à volta, vê o relógio e demonstra impaciência e vontade de ir embora, sozinha. o homem volta, pegam nos telemóveis e saem. ela, de mão dada com o ecrã táctil. 










breves noites










a mulher chega a casa, deixa a água tirar-lhe do corpo a poeira do dia, arrasta a âncora que lhe segura a alma para a mesa de cabeceira, e amarra cada um dos seus eus aos pés da cama e das cadeiras que trouxe para o quarto, para que nenhum lhe escape durante o sono. contudo, tem dias ou noites que pondera deixá-los ir. nem sempre a sua vida tem espaço para tantos eus e o seu corpo esgota-se com tantos empurrões. quando a apanham a dormir, fazem dela gato-sapato. de conluio com os sonhos, levam-na por medos, marés vivas, amores risíveis, impossibilidades, outros mundos. aí, a alma acorda-a e, procura poemas e textos que a ancorem, senão, reza, reza até adormecer outra vez, ou, na maior parte das vezes, até amanhecer.