sábado, 20 de maio de 2017

Ainda sobre o sonho








Foi Amaterasu quem mo disse - ser autêntica é projectar na aparência o meu ser interior, já ser verdadeira é agir conforme aquilo em que acredito.






sexta-feira, 19 de maio de 2017

bom dia professor









naquele momento mínimo, exactamente antes de acordar, recebo uma mensagem no meu ainda sono que me diz para ser autêntica e verdadeira. ora, eu não sei qual é a diferença...

dez passos depois fora da cama, o homem da palestra no vimeo pergunta o que nos tira da cama de manhã, e, quais são as nossas fontes de entusiasmo. 

são oito horas e saí da cama para fazer bolachas (sabes...bolachas...).












quinta-feira, 18 de maio de 2017

táctil









o homem e a mulher sentaram-se na mesa do restaurante feio. conversavam. ao contrário do costume, ela também falava. pelo que se ouvia de vez em quando, trocavam ideias sobre política internacional, e, depois de uns copos de vinho e de um bacalhau cozido, passaram para questões de família. é só perto da rabanada e do pudim que colocam os telemóveis em cima da mesa. ela faz um telefonema, ele responde a uma mensagem, ela responde ao que parece ser um mail, depois outro, e ele volta a enviar uma sms. ele pede um cigarro a um funcionário e pergunta à mulher se quer ir para o jardim fazer-lhe companhia enquanto ele fuma. ela diz que não e fica só na mesa. parece aliviada. volta a responder a um mail, depois outro, olha à volta, vê o relógio e demonstra impaciência e vontade de ir embora, sozinha. o homem volta, pegam nos telemóveis e saem. ela, de mão dada com o ecrã táctil. 










breves noites










a mulher chega a casa, deixa a água tirar-lhe do corpo a poeira do dia, arrasta a âncora que lhe segura a alma para a mesa de cabeceira, e amarra cada um dos seus eus aos pés da cama e das cadeiras que trouxe para o quarto, para que nenhum lhe escape durante o sono. contudo, tem dias ou noites que pondera deixá-los ir. nem sempre a sua vida tem espaço para tantos eus e o seu corpo esgota-se com tantos empurrões. quando a apanham a dormir, fazem dela gato-sapato. de conluio com os sonhos, levam-na por medos, marés vivas, amores risíveis, impossibilidades, outros mundos. aí, a alma acorda-a e, procura poemas e textos que a ancorem, senão, reza, reza até adormecer outra vez, ou, na maior parte das vezes, até amanhecer.









quarta-feira, 17 de maio de 2017

brisa














"Breeze" by Xi Pan, oil, 2008











a mulher que trazia a batalha dentro de si










naquele lugar, duas pessoas tentavam compreender o seu caso de amor. estavam presentes, para além das duas, o controlo, o desapego e o amor. condição primeira para a comunicação ser feita, era a mulher que trazia a batalha dentro de si sair do mental e passar para o coração.
- eu quero, eu quero. eu estou a tentar - mas quando pensava que estava a tentar, regressava ao mental, quando apenas sentia, regressava ao coração. uma batalha dentro dela mesma.
o controlo estava alegre, eufórico, sempre que a mulher não conseguia estar no coração. quando ela, extenuada, baixava a guarda, e apenas sentia, o controlo começava a perder força. 
o desapego estava impávido, afastado da cena mas sereno. o controlo olhava-o com desconfiança, não queria aproximar-se, embora se risse para ele e fizesse piruetas, rebolava pelo chão de contentamento e gozo.
o amor foi-se afastando, não queria olhar para a mulher que trazia a batalha dentro de si. estava cansado e triste. só se sentia bem com o desapego. aninhado atrás dele, apetecia-lhe deitar com ele, entrelaçar as suas pernas nas dele, ficar ali aninhado. quando a mulher que trazia a batalha dentro de si, procurava justificações e responsabilidades, o amor criava remos nos braços e fazia-se canoa e remava para longe dali, ou então, virava um bichinho de conta e rebolava sem que ninguém o visse, dali para fora. 
mas, à custa de muito cansaço e muito tempo, a mulher que trazia a batalha dentro de si viu caírem-lhe as máscaras e o coração ganhar boca e gestos e começar a falar. foi quando o amor sentiu a verdade entrar, que levantou o rosto e olhou para a mulher que trazia a batalha dentro dela. estava exausto, deitado no chão, com vontade de dormir muito tempo. 
a mulher que trazia a batalha dentro do peito sentou-se distante do amor, pois ele não queria a sua presença, e perguntou-lhe o que sentia
- apenas me sinto bem com o desapego e só me interessei pela conversa quando me pareceu ouvir a verdade. estou muito cansado, muito.
a mulher que trazia a batalha dentro de si, chorava baixinho e dizia que ele tinha desistido dela. o amor, já com pouca força na voz, fez final com os dedos de que não, não tinha desistido, mas que ela tinha que trazer um sol dentro do seu peito. 
o amor, com os olhos fechados, quando olhava para as pessoas, vi-as crianças. e ficou ali, deitado, triste, a descansar de um cansaço profundo.









terça-feira, 16 de maio de 2017

o bom homem









- o único defeito da sua filha é não gostar de mim
assisto muda à conversa do bom homem com a minha mãe. ele é integro, generoso, tem um coração cristalino, honesto. enquanto os dois riem e planeiam, para mim, serões à beira-rio com conversas fluídas, eu pergunto-me sobre o que é que nos faz querer alguém. 















reciclagem








resolvo tirar um curso de leitura de mãos. corro para o cesto dos papeis, recolho todos os pedacinhos rasgados das palmas das tuas mãos e reconstruo para análise. costurarei meticulosamente as linhas como me aprouver, para meu proveito. trocarei as voltas ao oráculo.













segunda-feira, 15 de maio de 2017

tarifário económico







"ele chega a mim nos dias inúteis e nas horas vazias. para ele, eu sou o tarifário económico num contador bi-horário. aquele em que, embora exausto, tem vantagem por o preço ser mais baixo.  as outras horas, por serem únicas e dispendiosas, ele reserva para quem realmente lhe dá prazer, e, como quem degusta uma especiaria, ele demora aí o seu olhar e o seu modo de falar calmo, e colhe sorrisos do rosto cuidado, e troca ideias com aroma de perfumes requintados."









roubo e gula







hoje roubei um damasco. toda a gente viu. o dono da frutaria veio atrás de mim - pior do que as romenas! - dizia ele enquanto me metia outro podre no saco. - meta mais que eu como-os todos! - berrei eu, no meio da rua.
cheguei a casa e comi-o. uma delícia. ao outro, podre, com uma faca, cortei a parte que não prestava e também  comi. rosado, cor do céu ao nascer do sol, doce, sumarento, macio, suavemente fresco. amanhã vou comprar um saco deles e come-los todos, vagarosamente.