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naquele lugar, duas pessoas tentavam compreender o seu caso de amor. estavam presentes, para além das duas, o controlo, o desapego e o amor. condição primeira para a comunicação ser feita, era a mulher que trazia a batalha dentro de si sair do mental e passar para o coração.
- eu quero, eu quero. eu estou a tentar - mas quando pensava que estava a tentar, regressava ao mental, quando apenas sentia, regressava ao coração. uma batalha dentro dela mesma.
o controlo estava alegre, eufórico, sempre que a mulher não conseguia estar no coração. quando ela, extenuada, baixava a guarda, e apenas sentia, o controlo começava a perder força.
o desapego estava impávido, afastado da cena mas sereno. o controlo olhava-o com desconfiança, não queria aproximar-se, embora se risse para ele e fizesse piruetas, rebolava pelo chão de contentamento e gozo.
o amor foi-se afastando, não queria olhar para a mulher que trazia a batalha dentro de si. estava cansado e triste. só se sentia bem com o desapego. aninhado atrás dele, apetecia-lhe deitar com ele, entrelaçar as suas pernas nas dele, ficar ali aninhado. quando a mulher que trazia a batalha dentro de si, procurava justificações e responsabilidades, o amor criava remos nos braços e fazia-se canoa e remava para longe dali, ou então, virava um bichinho de conta e rebolava sem que ninguém o visse, dali para fora.
mas, à custa de muito cansaço e muito tempo, a mulher que trazia a batalha dentro de si viu caírem-lhe as máscaras e o coração ganhar boca e gestos e começar a falar. foi quando o amor sentiu a verdade entrar, que levantou o rosto e olhou para a mulher que trazia a batalha dentro dela. estava exausto, deitado no chão, com vontade de dormir muito tempo.
a mulher que trazia a batalha dentro do peito sentou-se distante do amor, pois ele não queria a sua presença, e perguntou-lhe o que sentia
- apenas me sinto bem com o desapego e só me interessei pela conversa quando me pareceu ouvir a verdade. estou muito cansado, muito.
a mulher que trazia a batalha dentro de si, chorava baixinho e dizia que ele tinha desistido dela. o amor, já com pouca força na voz, fez final com os dedos de que não, não tinha desistido, mas que ela tinha que trazer um sol dentro do seu peito.
o amor, com os olhos fechados, quando olhava para as pessoas, vi-as crianças. e ficou ali, deitado, triste, a descansar de um cansaço profundo.
- o único defeito da sua filha é não gostar de mim
assisto muda à conversa do bom homem com a minha mãe. ele é integro, generoso, tem um coração cristalino, honesto. enquanto os dois riem e planeiam, para mim, serões à beira-rio com conversas fluídas, eu pergunto-me sobre o que é que nos faz querer alguém.
resolvo tirar um curso de leitura de mãos. corro para o cesto dos papeis, recolho todos os pedacinhos rasgados das palmas das tuas mãos e reconstruo para análise. costurarei meticulosamente as linhas como me aprouver, para meu proveito. trocarei as voltas ao oráculo.
"ele chega a mim nos dias inúteis e nas horas vazias. para ele, eu sou o tarifário económico num contador bi-horário. aquele em que, embora exausto, tem vantagem por o preço ser mais baixo. as outras horas, por serem únicas e dispendiosas, ele reserva para quem realmente lhe dá prazer, e, como quem degusta uma especiaria, ele demora aí o seu olhar e o seu modo de falar calmo, e colhe sorrisos do rosto cuidado, e troca ideias com aroma de perfumes requintados."
hoje roubei um damasco. toda a gente viu. o dono da frutaria veio atrás de mim - pior do que as romenas! - dizia ele enquanto me metia outro podre no saco. - meta mais que eu como-os todos! - berrei eu, no meio da rua.
cheguei a casa e comi-o. uma delícia. ao outro, podre, com uma faca, cortei a parte que não prestava e também comi. rosado, cor do céu ao nascer do sol, doce, sumarento, macio, suavemente fresco. amanhã vou comprar um saco deles e come-los todos, vagarosamente.
a esta hora, a hora em que os mansos falam silêncios, lentamente dispo tudo o que me cobre protege disfarça defende enfeita molda, e chego a ti, humana nua, we melt, e o tempo expande.
acolhes-me. acolhes-me sempre na minha loucura, e quando me vês evadir, dás-me chão, chão de terra quente, molhada por chuva de verão.
aquele homem tinha um expressão e um modo de falar calmos. no entanto, as palavras saiam roucas da sua boca. ele falava do medo, do medo com que vivia todos os dias, sem especificar qual. o medo doía-lhe no corpo, tirava o seu sono, impedia os movimentos.
- medo, dizia, eu sinto um medo tão grande que às vezes se torna insuportável viver. acordo sempre por volta das quatro da manhã, e mal abro os olhos, parece que me vestem uma armadura que me impede de mexer e me cobre de medo, de pavor mesmo. e quando vos ouço a falar e me parece que sabem como lidar com estas emoções, eu sinto inveja, muita inveja, raiva, mesmo.
a voz dele era serena e os gesto mansos, nem o olhar fazia transparecer o desespero. mas ele tinha chegado ali, com esforço, como a derradeira hipótese de superar o que lhe condiciona a vida, e expôs a sua vulnerabilidade perante pessoas que, melhor ou pior, tentavam dar-lhe a mão, naquele momento. eu admirei-o por isso.
eu sei que o medo se vence sozinho, nós connosco, com uma palavra ou outra de encorajamento, mas é dentro de nós que se travam as batalhas, a sós. e é no momento de exaustão, no momento de entrega, quando o nosso olhar se encontra com o dele, no momento de rendição, que muitas vezes damos o salto, nos transcendemos.
cada vez vejo menos televisão. a música perturba-me e o silêncio é o som predominante dos meus pequenos momentos a só. ao almoço, sentada em frente a uma lasanha, dou preferência a um prato de legumes e uma laranja do algarve. desisti de me obrigar a sair e permito-me o tempo possível sentada a ver as árvores que sacodem as folhas, aqui mesmo em frente a mim. não consigo ler. convida-me para um passeio na praia, e eu aceito. fico sentada a pensar no tempo e na sua maleabilidade, não tenho nada de interessante para conversar.
só tenho medo de perder esta paixão por ti.
levanta o braço, acolhe-me se puderes.
então o homem que a mulher não queria apareceu-lhe, sem o saber, com um espelho colado no rosto, para que ela se visse naquilo de gostar do outro.
- olhe para dentro da sua vida como se estivesse do lado de fora dela - diz a mulher que vive com uma âncora agrilhoada à alma, para que ela não se perca no azul que brinca na pele dele.
depois de há uns dias atrás ter lido isto, e de ontem a primeira notícia que li ter sido esta, resolvi encomendar no continente online mantimentos e velas para um mês. é um trauma de vidas passadas do qual não me consigo livrar, e pensava eu que já me tinha passado. o problema agora vai ser arrumar isso tudo.