terça-feira, 16 de maio de 2017

o bom homem









- o único defeito da sua filha é não gostar de mim
assisto muda à conversa do bom homem com a minha mãe. ele é integro, generoso, tem um coração cristalino, honesto. enquanto os dois riem e planeiam, para mim, serões à beira-rio com conversas fluídas, eu pergunto-me sobre o que é que nos faz querer alguém. 















reciclagem








resolvo tirar um curso de leitura de mãos. corro para o cesto dos papeis, recolho todos os pedacinhos rasgados das palmas das tuas mãos e reconstruo para análise. costurarei meticulosamente as linhas como me aprouver, para meu proveito. trocarei as voltas ao oráculo.













segunda-feira, 15 de maio de 2017

tarifário económico







"ele chega a mim nos dias inúteis e nas horas vazias. para ele, eu sou o tarifário económico num contador bi-horário. aquele em que, embora exausto, tem vantagem por o preço ser mais baixo.  as outras horas, por serem únicas e dispendiosas, ele reserva para quem realmente lhe dá prazer, e, como quem degusta uma especiaria, ele demora aí o seu olhar e o seu modo de falar calmo, e colhe sorrisos do rosto cuidado, e troca ideias com aroma de perfumes requintados."









roubo e gula







hoje roubei um damasco. toda a gente viu. o dono da frutaria veio atrás de mim - pior do que as romenas! - dizia ele enquanto me metia outro podre no saco. - meta mais que eu como-os todos! - berrei eu, no meio da rua.
cheguei a casa e comi-o. uma delícia. ao outro, podre, com uma faca, cortei a parte que não prestava e também  comi. rosado, cor do céu ao nascer do sol, doce, sumarento, macio, suavemente fresco. amanhã vou comprar um saco deles e come-los todos, vagarosamente.








domingo, 14 de maio de 2017

na hora dos mansos







a esta hora, a hora em que os mansos falam silêncios, lentamente dispo tudo o que me cobre protege disfarça defende enfeita molda, e chego a ti, humana nua, we melt, e o tempo expande.

acolhes-me. acolhes-me sempre na minha loucura, e quando me vês evadir, dás-me chão, chão de terra quente, molhada por chuva de verão.













o homem de sábado









aquele homem tinha um expressão e um modo de falar calmos. no entanto, as palavras saiam roucas da sua boca. ele falava do medo, do medo com que vivia todos os dias, sem especificar qual. o medo doía-lhe no corpo, tirava o seu sono, impedia os movimentos. 
- medo, dizia, eu sinto um medo tão grande que às vezes se torna insuportável viver. acordo sempre por volta das quatro da manhã, e mal abro os olhos, parece que me vestem uma armadura que me impede de mexer e me cobre de medo, de pavor mesmo. e quando vos ouço a falar e me parece que sabem como lidar com estas emoções, eu sinto inveja, muita inveja, raiva, mesmo.
a voz dele era serena e os gesto mansos, nem o olhar fazia transparecer o desespero. mas ele tinha chegado ali, com esforço, como a derradeira hipótese de superar o que lhe condiciona a vida, e expôs a sua vulnerabilidade perante pessoas que, melhor ou pior, tentavam dar-lhe a mão, naquele momento. eu admirei-o por isso.
eu sei que o medo se vence sozinho, nós connosco, com uma palavra ou outra de encorajamento, mas é dentro de nós que se travam as batalhas, a sós. e é no momento de exaustão, no momento de entrega, quando o nosso olhar se encontra com o dele, no momento de rendição, que muitas vezes damos o salto, nos transcendemos.












sábado, 13 de maio de 2017

redução







cada vez vejo menos televisão. a música perturba-me e o silêncio é o som predominante dos meus pequenos momentos a só. ao almoço, sentada em frente a uma lasanha, dou preferência a um prato de legumes e uma laranja do algarve. desisti de me obrigar a sair e permito-me o tempo possível sentada a ver as árvores que sacodem as folhas, aqui mesmo em frente a mim. não consigo ler. convida-me para um passeio na praia, e eu aceito. fico sentada a pensar no tempo e na sua maleabilidade, não tenho nada de interessante para conversar.
só tenho medo de perder esta paixão por ti. 
levanta o braço, acolhe-me se puderes.












sexta-feira, 12 de maio de 2017

como bolhas de sabão










então o homem que a mulher não queria apareceu-lhe, sem o saber, com um espelho colado no rosto, para que ela se visse naquilo de gostar do outro.

- olhe para dentro da sua vida como se estivesse do lado de fora dela - diz a mulher que vive com uma âncora agrilhoada à alma, para que ela não se perca no azul que brinca na pele dele.











traumas









depois de há uns dias atrás ter lido isto, e de ontem a primeira notícia que li ter sido esta, resolvi encomendar no continente online mantimentos e velas para um mês. é um trauma de vidas passadas do qual não me consigo livrar, e pensava eu que já me tinha passado. o problema agora vai ser arrumar isso tudo.













quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mais de dois anos esperei por uma pedra
























Sim, foram mais de dois anos que esperei por uma pedra. Uma ágata branca, nada de valioso da forma com que se avalia com dinheiro, mas tinha que ser aquela. Foi-me mostrada numa espécie de sonho. Já lhe tenho falado desta minha forma de viajar sem sair do lugar com o corpo. Mas tinha que ser assim, branco leitoso, oval e lisa, ah...e ágata branca, tinham-me dito. Há mais de dois anos que a procuro em lojas e feiras e mercados e nada. Esta semana, perguntei pelo messenger a uma artesã em Londres, e, embora nunca tivesse visto, gostou da minha história e conseguiu uma, de um fornecedor indiano. Limpou-a com sálvia branca, colocou-a na caixa mágica para energizar, e olhe...perfeito. Está a fazer-me o colar em macramé de forma a que a pedra me toque no centro do peito, como me foi dito. Sim, mais de dois anos para acontecer o que tinha que ser da forma certa. Até o que não acontece não é por acaso, não acha? Eu tenho a certeza.