segunda-feira, 15 de maio de 2017
tarifário económico
roubo e gula
cheguei a casa e comi-o. uma delícia. ao outro, podre, com uma faca, cortei a parte que não prestava e também comi. rosado, cor do céu ao nascer do sol, doce, sumarento, macio, suavemente fresco. amanhã vou comprar um saco deles e come-los todos, vagarosamente.
domingo, 14 de maio de 2017
na hora dos mansos
acolhes-me. acolhes-me sempre na minha loucura, e quando me vês evadir, dás-me chão, chão de terra quente, molhada por chuva de verão.
o homem de sábado
- medo, dizia, eu sinto um medo tão grande que às vezes se torna insuportável viver. acordo sempre por volta das quatro da manhã, e mal abro os olhos, parece que me vestem uma armadura que me impede de mexer e me cobre de medo, de pavor mesmo. e quando vos ouço a falar e me parece que sabem como lidar com estas emoções, eu sinto inveja, muita inveja, raiva, mesmo.
a voz dele era serena e os gesto mansos, nem o olhar fazia transparecer o desespero. mas ele tinha chegado ali, com esforço, como a derradeira hipótese de superar o que lhe condiciona a vida, e expôs a sua vulnerabilidade perante pessoas que, melhor ou pior, tentavam dar-lhe a mão, naquele momento. eu admirei-o por isso.
eu sei que o medo se vence sozinho, nós connosco, com uma palavra ou outra de encorajamento, mas é dentro de nós que se travam as batalhas, a sós. e é no momento de exaustão, no momento de entrega, quando o nosso olhar se encontra com o dele, no momento de rendição, que muitas vezes damos o salto, nos transcendemos.
sábado, 13 de maio de 2017
redução
só tenho medo de perder esta paixão por ti.
levanta o braço, acolhe-me se puderes.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
como bolhas de sabão
então o homem que a mulher não queria apareceu-lhe, sem o saber, com um espelho colado no rosto, para que ela se visse naquilo de gostar do outro.
- olhe para dentro da sua vida como se estivesse do lado de fora dela - diz a mulher que vive com uma âncora agrilhoada à alma, para que ela não se perca no azul que brinca na pele dele.
traumas
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Mais de dois anos esperei por uma pedra
Sim, foram mais de dois anos que esperei por uma pedra. Uma ágata branca, nada de valioso da forma com que se avalia com dinheiro, mas tinha que ser aquela. Foi-me mostrada numa espécie de sonho. Já lhe tenho falado desta minha forma de viajar sem sair do lugar com o corpo. Mas tinha que ser assim, branco leitoso, oval e lisa, ah...e ágata branca, tinham-me dito. Há mais de dois anos que a procuro em lojas e feiras e mercados e nada. Esta semana, perguntei pelo messenger a uma artesã em Londres, e, embora nunca tivesse visto, gostou da minha história e conseguiu uma, de um fornecedor indiano. Limpou-a com sálvia branca, colocou-a na caixa mágica para energizar, e olhe...perfeito. Está a fazer-me o colar em macramé de forma a que a pedra me toque no centro do peito, como me foi dito. Sim, mais de dois anos para acontecer o que tinha que ser da forma certa. Até o que não acontece não é por acaso, não acha? Eu tenho a certeza.
é que nem me apetece disfarçar
disse-me a cátia do talho, quando retirei o cartão de multibanco antes do tempo.
- não estou mesmo, cátia, não estou...
é que nem me apetece disfarçar. mas mesmo sem disfarçar, só ao final da manhã é que se aperceberam da nuvem cinzenta por cima da cabeça. acho que criamos uma imagem aos olhos dos outros, que se torna numa máscara, não na nossa cara, mas nos olhos de quem nos vê. e ainda bem que assim é.
- eu vi logo. estar deste jeito não é da senhora. vai ver que amanhã já está melhor
tentou ela animar-me, parecendo-me a mim, agora que escrevo isto, que ela tentava melhorar a sua disposição com as palavras que me dizia
- amanhã, não, cátia, daqui a uma hora, mais do que isso não dura.
todos os dias avanço e recuo, concluo e desconcluo, apaziguo-me e inquieto-me, abro mão e quero agarrar. tem dias em que fico cansada, tem dias em que me desconheço, mas é precisamente nesse ponto extremo de cansaço, que me aproximo de mim. ainda não foi, mas há-de ser.
quarta-feira, 10 de maio de 2017
parece que chove
passadas umas três horas, saí para a rua com uma saia verde musgo e uma camisa às flores pequeninas, fininhas. chovia que deus a dava e eu não sabia. cada gota de chuva grossa atravessava os tecidos finos com que cobri o meu corpo, e aterrava em cheio na minha pele morna, uma a uma. foi então que me lembrei da CC. é tão poder sentir, tão bom.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


