domingo, 14 de maio de 2017

na hora dos mansos







a esta hora, a hora em que os mansos falam silêncios, lentamente dispo tudo o que me cobre protege disfarça defende enfeita molda, e chego a ti, humana nua, we melt, e o tempo expande.

acolhes-me. acolhes-me sempre na minha loucura, e quando me vês evadir, dás-me chão, chão de terra quente, molhada por chuva de verão.













o homem de sábado









aquele homem tinha um expressão e um modo de falar calmos. no entanto, as palavras saiam roucas da sua boca. ele falava do medo, do medo com que vivia todos os dias, sem especificar qual. o medo doía-lhe no corpo, tirava o seu sono, impedia os movimentos. 
- medo, dizia, eu sinto um medo tão grande que às vezes se torna insuportável viver. acordo sempre por volta das quatro da manhã, e mal abro os olhos, parece que me vestem uma armadura que me impede de mexer e me cobre de medo, de pavor mesmo. e quando vos ouço a falar e me parece que sabem como lidar com estas emoções, eu sinto inveja, muita inveja, raiva, mesmo.
a voz dele era serena e os gesto mansos, nem o olhar fazia transparecer o desespero. mas ele tinha chegado ali, com esforço, como a derradeira hipótese de superar o que lhe condiciona a vida, e expôs a sua vulnerabilidade perante pessoas que, melhor ou pior, tentavam dar-lhe a mão, naquele momento. eu admirei-o por isso.
eu sei que o medo se vence sozinho, nós connosco, com uma palavra ou outra de encorajamento, mas é dentro de nós que se travam as batalhas, a sós. e é no momento de exaustão, no momento de entrega, quando o nosso olhar se encontra com o dele, no momento de rendição, que muitas vezes damos o salto, nos transcendemos.












sábado, 13 de maio de 2017

redução







cada vez vejo menos televisão. a música perturba-me e o silêncio é o som predominante dos meus pequenos momentos a só. ao almoço, sentada em frente a uma lasanha, dou preferência a um prato de legumes e uma laranja do algarve. desisti de me obrigar a sair e permito-me o tempo possível sentada a ver as árvores que sacodem as folhas, aqui mesmo em frente a mim. não consigo ler. convida-me para um passeio na praia, e eu aceito. fico sentada a pensar no tempo e na sua maleabilidade, não tenho nada de interessante para conversar.
só tenho medo de perder esta paixão por ti. 
levanta o braço, acolhe-me se puderes.












sexta-feira, 12 de maio de 2017

como bolhas de sabão










então o homem que a mulher não queria apareceu-lhe, sem o saber, com um espelho colado no rosto, para que ela se visse naquilo de gostar do outro.

- olhe para dentro da sua vida como se estivesse do lado de fora dela - diz a mulher que vive com uma âncora agrilhoada à alma, para que ela não se perca no azul que brinca na pele dele.











traumas









depois de há uns dias atrás ter lido isto, e de ontem a primeira notícia que li ter sido esta, resolvi encomendar no continente online mantimentos e velas para um mês. é um trauma de vidas passadas do qual não me consigo livrar, e pensava eu que já me tinha passado. o problema agora vai ser arrumar isso tudo.













quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mais de dois anos esperei por uma pedra
























Sim, foram mais de dois anos que esperei por uma pedra. Uma ágata branca, nada de valioso da forma com que se avalia com dinheiro, mas tinha que ser aquela. Foi-me mostrada numa espécie de sonho. Já lhe tenho falado desta minha forma de viajar sem sair do lugar com o corpo. Mas tinha que ser assim, branco leitoso, oval e lisa, ah...e ágata branca, tinham-me dito. Há mais de dois anos que a procuro em lojas e feiras e mercados e nada. Esta semana, perguntei pelo messenger a uma artesã em Londres, e, embora nunca tivesse visto, gostou da minha história e conseguiu uma, de um fornecedor indiano. Limpou-a com sálvia branca, colocou-a na caixa mágica para energizar, e olhe...perfeito. Está a fazer-me o colar em macramé de forma a que a pedra me toque no centro do peito, como me foi dito. Sim, mais de dois anos para acontecer o que tinha que ser da forma certa. Até o que não acontece não é por acaso, não acha? Eu tenho a certeza.










é que nem me apetece disfarçar








- a senhora hoje não está nos seus dias...
disse-me a cátia do talho, quando retirei o cartão de multibanco antes do tempo.
- não estou mesmo, cátia, não estou...
é que nem me apetece disfarçar. mas mesmo sem disfarçar, só ao final da manhã  é que se aperceberam da nuvem cinzenta por cima da cabeça. acho que criamos uma imagem aos olhos dos outros, que se torna numa máscara, não na nossa cara, mas nos olhos de quem nos vê. e ainda bem que assim é.
- eu vi logo. estar deste jeito não é da senhora. vai ver que amanhã já está melhor 
tentou ela animar-me, parecendo-me a mim, agora que escrevo isto, que ela tentava melhorar a sua disposição com as palavras que me dizia
- amanhã, não, cátia, daqui a uma hora, mais do que isso não dura.
todos os dias avanço e recuo, concluo e desconcluo, apaziguo-me e inquieto-me, abro mão e quero agarrar. tem dias em que fico cansada, tem dias em que me desconheço, mas é precisamente nesse ponto extremo de cansaço, que me aproximo de mim. ainda não foi, mas há-de ser.













quarta-feira, 10 de maio de 2017

parece que chove










esta manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, o sol batia em cheio na minha face direita. de repente, pareceu-me de repente, ele passou a nascer noutro lugar. reparei eu hoje que em vez de aparecer atrás da capela, mostrou-se atrás daquela casa amarela que vejo daqui, com telhado de telha. mas o que interessa é que inspirei a força toda daquela luz novinha em folha como se se espalhasse por todo o meu corpo e eu a sentisse a passar, pelas veias, para as células, toda eu um sol, modéstia à parte, claro.

passadas umas três horas, saí para a rua com uma saia verde musgo e uma camisa às flores pequeninas, fininhas. chovia que deus a dava e eu não sabia. cada gota de chuva grossa atravessava os tecidos finos com que cobri o meu corpo, e aterrava em cheio na minha pele morna, uma a uma. foi então que me lembrei da CC. é tão poder sentir, tão bom.












a dona fernanda e os burros na água










a dona fernanda passou cá em casa e vinha confusa. conta ela, que lhe disseram que o bem que ela dizia que queria fazer ao outro, na realidade era para seu próprio bem, para aquilo que chamam de ego, e que devia esperar que lhe fosse mostrada a vontade de que o fizesse, pois muitas vezes a escolha do outro não é a cura, ou não é o método, e isso pode interferir no seu processo, na sua caminhada.

fico a olhar para ela, com a expressão, suponho eu, de um burro a olhar para um palácio. e ela resume - às vezes o melhor para os outros, é mesmo dar com os burros na água. ponto. (ela contagiou-se com a mania de outra em dizer 'ponto' no final de cada frase) - aí eu entendo, mas o que eu gosto mesmo, é que ela me conte dos seus desencontros para me aliviar dos meus.












segunda-feira, 8 de maio de 2017

é por isso








e é por isso que preciso dele. ele dá cor aos detalhes da minha vida. traz-me tudo o que eu não sei e sinto-me crescer, ficar grande grande quando ele me envia poemas e prosas, excertos de livros que eu nunca leria se não fosse através dele. ele faz com que eu dance ao som de músicas ciganas ou que sonhe e até entristeça ao som de um violino ou de um oboé. noutras alturas mostra-me que as árvores dão fruto enquanto florescem e mostra-me todas as tonalidades da mesma cor. com ele aprendo também a ver sem olhar, e, a sentir sem tocar como se tocada tivesse sido. depois, ele lava-me os cabelos, amacia-me a nuca e alivia-me os ombros. adormeço ancorada na baía do seu abraço, e quando acordo ele não está, mas está.