sexta-feira, 12 de maio de 2017
como bolhas de sabão
então o homem que a mulher não queria apareceu-lhe, sem o saber, com um espelho colado no rosto, para que ela se visse naquilo de gostar do outro.
- olhe para dentro da sua vida como se estivesse do lado de fora dela - diz a mulher que vive com uma âncora agrilhoada à alma, para que ela não se perca no azul que brinca na pele dele.
traumas
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Mais de dois anos esperei por uma pedra
Sim, foram mais de dois anos que esperei por uma pedra. Uma ágata branca, nada de valioso da forma com que se avalia com dinheiro, mas tinha que ser aquela. Foi-me mostrada numa espécie de sonho. Já lhe tenho falado desta minha forma de viajar sem sair do lugar com o corpo. Mas tinha que ser assim, branco leitoso, oval e lisa, ah...e ágata branca, tinham-me dito. Há mais de dois anos que a procuro em lojas e feiras e mercados e nada. Esta semana, perguntei pelo messenger a uma artesã em Londres, e, embora nunca tivesse visto, gostou da minha história e conseguiu uma, de um fornecedor indiano. Limpou-a com sálvia branca, colocou-a na caixa mágica para energizar, e olhe...perfeito. Está a fazer-me o colar em macramé de forma a que a pedra me toque no centro do peito, como me foi dito. Sim, mais de dois anos para acontecer o que tinha que ser da forma certa. Até o que não acontece não é por acaso, não acha? Eu tenho a certeza.
é que nem me apetece disfarçar
disse-me a cátia do talho, quando retirei o cartão de multibanco antes do tempo.
- não estou mesmo, cátia, não estou...
é que nem me apetece disfarçar. mas mesmo sem disfarçar, só ao final da manhã é que se aperceberam da nuvem cinzenta por cima da cabeça. acho que criamos uma imagem aos olhos dos outros, que se torna numa máscara, não na nossa cara, mas nos olhos de quem nos vê. e ainda bem que assim é.
- eu vi logo. estar deste jeito não é da senhora. vai ver que amanhã já está melhor
tentou ela animar-me, parecendo-me a mim, agora que escrevo isto, que ela tentava melhorar a sua disposição com as palavras que me dizia
- amanhã, não, cátia, daqui a uma hora, mais do que isso não dura.
todos os dias avanço e recuo, concluo e desconcluo, apaziguo-me e inquieto-me, abro mão e quero agarrar. tem dias em que fico cansada, tem dias em que me desconheço, mas é precisamente nesse ponto extremo de cansaço, que me aproximo de mim. ainda não foi, mas há-de ser.
quarta-feira, 10 de maio de 2017
parece que chove
passadas umas três horas, saí para a rua com uma saia verde musgo e uma camisa às flores pequeninas, fininhas. chovia que deus a dava e eu não sabia. cada gota de chuva grossa atravessava os tecidos finos com que cobri o meu corpo, e aterrava em cheio na minha pele morna, uma a uma. foi então que me lembrei da CC. é tão poder sentir, tão bom.
a dona fernanda e os burros na água
fico a olhar para ela, com a expressão, suponho eu, de um burro a olhar para um palácio. e ela resume - às vezes o melhor para os outros, é mesmo dar com os burros na água. ponto. (ela contagiou-se com a mania de outra em dizer 'ponto' no final de cada frase) - aí eu entendo, mas o que eu gosto mesmo, é que ela me conte dos seus desencontros para me aliviar dos meus.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
é por isso
a cor da vida
hoje fiquei presa logo de manhã nesta imagem. esta criança foi salva das mãos do boko haram, na floresta de sambisa, na nigéria. o grupo terrorista rapta diariamente crianças que usa como escravas sexuais, são trocadas por mercadorias ou embriagadas para cometerem atentados suicidas. sobretudo as meninas, só nos primeiros três meses deste ano, morreram 27 meninas fazendo-se explodir em atentados.
mas fiquei presa na fotografia pela fragilidade da criança, pela ternura dos pés calejados da provável mãe em que ela se senta, mas confesso, que são sobretudo os desenhos e as cores dos tecidos que fazem de vestes nos países mais miseráveis do mundo, que me fascinam. a disponibilidade de espírito para colorir o detalhe, numa vida sombria. que cor teríamos nós, se tivéssemos a mesma intensidade de esperança...
a foto é de Afolabi Sotunde da Reuters
domingo, 7 de maio de 2017
A mensagem
Escrevo que tenho que o compreender para entender o que sinto. Apago. Escrevo de novo que para sentir tenho que antes compreender. Apago. Ensaio uma mensagem onde digo que tenho que alinhar o que sinto com o que compreendo. Apago.
Eu sei que sinto, antes de compreender, antes até de ver [te]. As piores barreiras são as que construo à minha volta, a resistência a mim mesma, ao que sinto e intuo.
me day
quando encontra uma vaga, e quando está cordial com o mundo, o mais novo, de vinte anos, com uma barba de tal maneira cerrada e encaracolada que eu não posso dizer aqui o que lhe chamo, vem pedir um abraço longo e apertado, encostando a cabeça no meu ombro. então eu alinho o meu coração com o dele, e, naquele contacto manso, tento que do meu peito, passe para dentro do peito dele, toda a tranquilidade possível. só quando me diz que está melhor, desaperto os braços abençoando-o em silêncio.
o do meio, tão igual a mim por dentro que até me confunde, demora a mão dele entre as minhas omoplatas, removendo vidas de peso de cima de mim, e insiste em tirar-me trabalho das mãos para que eu descanse. a mim basta-me que ele mantenha as mãos nas minhas costas, com aquele calor que ele transmite mas que não é ele. tem vinte e um anos e é a pessoa mais sonhadora e solidária que conheço, e, enquanto escrevo isto, pousa a testa no meu ombro e eu penso naquela música que diz que This world was never meant for one as beautiful as you.
eu acho que nunca fui uma mãe carinhosa, não digo aos rapazes o quanto os amo, passei a maior parte a executar tarefas, e durante a maior parte da vida deles, senti-os distantes, acomodados. agora eles cresceram e tornaram-se assim, como podes ler em cima, e eu acho que é uma prenda de deus e agradeço-lhe por isso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


