quarta-feira, 10 de maio de 2017

parece que chove










esta manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, o sol batia em cheio na minha face direita. de repente, pareceu-me de repente, ele passou a nascer noutro lugar. reparei eu hoje que em vez de aparecer atrás da capela, mostrou-se atrás daquela casa amarela que vejo daqui, com telhado de telha. mas o que interessa é que inspirei a força toda daquela luz novinha em folha como se se espalhasse por todo o meu corpo e eu a sentisse a passar, pelas veias, para as células, toda eu um sol, modéstia à parte, claro.

passadas umas três horas, saí para a rua com uma saia verde musgo e uma camisa às flores pequeninas, fininhas. chovia que deus a dava e eu não sabia. cada gota de chuva grossa atravessava os tecidos finos com que cobri o meu corpo, e aterrava em cheio na minha pele morna, uma a uma. foi então que me lembrei da CC. é tão poder sentir, tão bom.












a dona fernanda e os burros na água










a dona fernanda passou cá em casa e vinha confusa. conta ela, que lhe disseram que o bem que ela dizia que queria fazer ao outro, na realidade era para seu próprio bem, para aquilo que chamam de ego, e que devia esperar que lhe fosse mostrada a vontade de que o fizesse, pois muitas vezes a escolha do outro não é a cura, ou não é o método, e isso pode interferir no seu processo, na sua caminhada.

fico a olhar para ela, com a expressão, suponho eu, de um burro a olhar para um palácio. e ela resume - às vezes o melhor para os outros, é mesmo dar com os burros na água. ponto. (ela contagiou-se com a mania de outra em dizer 'ponto' no final de cada frase) - aí eu entendo, mas o que eu gosto mesmo, é que ela me conte dos seus desencontros para me aliviar dos meus.












segunda-feira, 8 de maio de 2017

é por isso








e é por isso que preciso dele. ele dá cor aos detalhes da minha vida. traz-me tudo o que eu não sei e sinto-me crescer, ficar grande grande quando ele me envia poemas e prosas, excertos de livros que eu nunca leria se não fosse através dele. ele faz com que eu dance ao som de músicas ciganas ou que sonhe e até entristeça ao som de um violino ou de um oboé. noutras alturas mostra-me que as árvores dão fruto enquanto florescem e mostra-me todas as tonalidades da mesma cor. com ele aprendo também a ver sem olhar, e, a sentir sem tocar como se tocada tivesse sido. depois, ele lava-me os cabelos, amacia-me a nuca e alivia-me os ombros. adormeço ancorada na baía do seu abraço, e quando acordo ele não está, mas está.









a cor da vida




















hoje fiquei presa logo de manhã nesta imagem. esta criança foi salva das mãos do boko haram, na floresta de sambisa, na nigéria. o grupo terrorista rapta diariamente crianças que usa como escravas sexuais, são trocadas por mercadorias ou embriagadas para cometerem atentados suicidas. sobretudo as meninas, só nos primeiros três meses deste ano, morreram 27 meninas fazendo-se explodir em atentados.

mas fiquei presa na fotografia pela fragilidade da criança, pela ternura dos pés calejados da provável mãe em que ela se senta, mas confesso, que são sobretudo os desenhos e as cores dos tecidos que fazem de vestes nos países mais miseráveis do mundo, que me fascinam. a disponibilidade de espírito para colorir o detalhe, numa vida sombria. que cor teríamos nós, se tivéssemos a mesma intensidade de esperança...

a foto é de Afolabi Sotunde da Reuters














domingo, 7 de maio de 2017

A mensagem







Escrevo que tenho que o compreender para entender o que sinto. Apago. Escrevo de novo que para sentir tenho que antes compreender. Apago. Ensaio uma mensagem onde digo que tenho que alinhar o que sinto com o que compreendo. Apago.
Eu sei que sinto, antes de compreender, antes até de ver [te]. As piores barreiras são as que construo à minha volta, a resistência a mim mesma, ao que sinto e intuo.






me day












acontece quase todos os dias, quando eles estão cá. enquanto cozinho, o mais velho rodeia-me com um abraço e pousa a cabeça no meu ombro. é complicado cozinhar nestes preparos, mas eu encosto a minha face, ao cabelo dele, cortado com pente dois, e tento equilibrar os utensílios para não perder o mimo que ele quer dar e receber e que eu arranco de dentro de mim para aquele homem-menino de vinte e três anos, muito, mas muito mais alto do que eu. 
quando encontra uma vaga, e quando está cordial com o mundo, o mais novo, de vinte anos, com uma barba de tal maneira cerrada e encaracolada que eu não posso dizer aqui o que lhe chamo, vem pedir um abraço longo e apertado, encostando a cabeça no meu ombro. então eu alinho o meu coração com o dele, e, naquele contacto manso, tento que do meu peito, passe para dentro do peito dele, toda a tranquilidade possível. só quando me diz que está melhor, desaperto os braços abençoando-o em silêncio.
o do meio, tão igual a mim por dentro que até me confunde, demora a mão dele entre as minhas omoplatas, removendo vidas de peso de cima de mim, e insiste em tirar-me trabalho das mãos para que eu descanse. a mim basta-me que ele mantenha as mãos nas minhas costas, com aquele calor que ele transmite mas que não é ele. tem vinte e um anos e é a pessoa mais sonhadora e solidária que conheço, e, enquanto escrevo isto, pousa a testa no meu ombro e eu penso naquela música que diz que This world was never meant for one as beautiful as you.

eu acho que nunca fui uma mãe carinhosa, não digo aos rapazes o quanto os amo, passei a maior parte a executar tarefas, e durante a maior parte da vida deles, senti-os distantes, acomodados. agora eles cresceram e tornaram-se assim, como podes ler em cima, e eu acho que é uma prenda de deus e agradeço-lhe por isso.













sábado, 6 de maio de 2017

incapacidade









o homem sentado em frente a mim falava, falava, falava. eu não estava ali enquanto olhava para ele e respondia a uma pergunta ou outra. de vez em quando sei que ele pedia desculpa por falar tanto justificando que era para compensar o meu quase silêncio, e ria-se. eu, ia sorrindo, não era preciso muito mais para que ele estivesse bem. a certa altura ouvi a palavra índios e prestei atenção, talvez pudesse acompanhar a conversa naquela altura, mas não o fiz. seria estranho que de repente começasse a dissertar sobre práticas indígenas. de vez em quando também frisava que para ele era imprescindível dormir comigo, dormir mesmo. expliquei-lhe que não gostaria, as minhas noites são mal dormidas, tu sabes, e os pesadelos nem sempre respeitam as horas que passo acordada.
tentei ser normal, apesar de tudo, mas é aqui, em momentos como este, em que tenho por companhia o som das aves que se recolhem e ainda consigo ver o verde das árvores lá fora, que me sinto verdadeira. podia ter conversado sobre os grupos terroristas, os países africanos ou os do médio oriente, a pirataria na somália que é um tema que me toca especialmente, vá-se lá saber porquê, poderia até falar da minha busca por não sei o quê espiritual, mas não fui capaz. não sou.









'sou só humana'









perante o caminho que lhe era indicado, a mulher ao meu lado murmurava 'sou só humana'. ela tinha pedido que naquela semana que vinha pela frente, tivesse tempo suficiente para reverter a doença que reincidira. para que isso fosse possível, foi-lhe dito que parasse, que descansasse pelo menos cinco horas por dia, e, nessas cinco horas teria que meditar contando oms, passear na praia, tocar tambor, e qualquer tarefa que tivesse que fazer, teria que ser feita com muita calma. mandaram-na também apagar as raivas do seu coração. devia para isso, perdoar, pois quem a pudesse ter magoado não tinha a noção da imensidão do mal que lhe causava, agradecer a quem a magoou, pois ao magoá-la deram-lhe a oportunidade de crescer, e, pedir perdão a quem a magoou, pois a zanga dentro dela foi tão forte, que a energia que dela emanou, fez-lhes mal. durante os anos que a conheço, ela remoeu rancores, não só desta vida, como de outras anteriores.
foi aqui, que ela, franzina e com ar de animal assustado, murmurou ao meu lado 'sou só humana'. eu senti uma compaixão imensa por aquela mulher, pelo difícil que deve ser ser-se ela, e pelas lições que através dela, eu aprendo, espero aprender, ou ainda por outro lado, tenho a obrigação de aprender.
é precisamente hoje que faz uma semana desde que se passou o que acima conto. ela descansou, meditou, tocou tambor na praia, analisou os seus sentimentos e terá apaziguado alguns. enviou-me uma mensagem 'olá. ecografia - tudo bem. espero agora os resultados da biopsia. o gânglio tem metade do tamanho inicial! beijinho'. esta será a segunda vez que ela finta o cancro assim. 











sexta-feira, 5 de maio de 2017

dúvida









gostava de saber o que fazem as pessoas quando, à sexta-feira acabam de trabalhar.










fotografia










olhando para as muitas fotografias do concerto, surpreendo-me com a expressão com que olho para a minha mãe, atenta a que ela esteja alegre, e desta minha preocupação lembro-me bem pois todos os dias a tenho comigo. o que eu não sabia, era que trazia a ternura por ela estampada no olhar e no sorriso, de tal forma que olho para mim como se de uma estranha de mim mesma eu fosse (já pareço o pires). não tenho grande coisa para dizer, é só isso, como se trouxesse o coração de fora.