domingo, 30 de abril de 2017

solidária com a flor






















dando seguimento à corrente artística imperfeccionismo da flor, através da Palmier e da Mirone, também não resisti à tentação.




















a pele









a mulher conta do escamar da pele que não a larga e incomoda. no rosto, no vinco junto à boca, e nas mãos, a pele está está áspera e não encontra medicação eficaz.
- a primeira urina da manhã - digo-lhe - é rica em ureia e para os problemas de pele, dizem que é o melhor que há.
ela olha-me enojada, mas eu explico que não tem odor, recomendo que experimente na mão e se vir que resulta, que passe para o rosto.
o homem, curvado e apoiado numa baqueta de tambor, fala como os olhos semi-cerrados
- a pele é o que separa o nosso mundo interior do mundo exterior. é a nossa barreira, a nossa protecção. se não te adaptas, se confrontas, se rejeitas, aparecem as doenças de pele.
ela ouve, e contrapõe
- mas até estou num período pacífico, já tive mais dificuldades de adaptação do que agora.
- pois tiveste - diz o homem-terra - só que agora, sentes com mais intensidade, por pequeno que seja o confronto, e a tua pele rompe.










sábado, 29 de abril de 2017

o senhor do tempo










o homem mandou-a ir procurar o senhor do tempo. então ela andou, atravessou mundos e vales e montanhas e cruzou-se com gárgulas e druidas e índias anciãs e o mestre varredor, sempre agarrado à sua vassoura e curvado sobre o chão de terra que varre, varre, varre. sem levantar os olhos mostrou-lhe um recém-nascido e uma bolha de amor, mas ela não conseguiu entender. então o mestre desdobrou-se em inúmeros varredores que varriam, varriam, varriam, e sobre eles surgiu um vulto transparente a quem ela perguntou se era o senhor do tempo. apontando-lhe caminhadas na praia, sol no rosto, conversas nos olhos, mãos entrelaçadas, estradas percorridas, sorrisos beijados, conhecimentos partilhados, ele disse que sim, que o tempo era moldável se ela dedicasse no que faz, amor, atenção, entrega e partilha e que nunca o importante roubaria tempo ao necessário, mas o necessário poderia roubar tempo ao importante. 











o espelho e a mulher e a mulher e o espelho









a mulher que, sem saber, carrega um espelho no rosto sempre que cá vem, pede-me para olhar para o lado de fora da sua vida, para que ela o possa sentir por dentro.
está a ser manipulada. um homem tenta, habilmente, forjar os sentimentos dela, e consegue.
tudo o que é visível, tudo o que é óbvio e lógico, aquela mulher racional, não consegue ver.
então pede-me que olhe para fora, a mim, que comodamente habituei-me a olhar para dentro, e a claridade do dia fere-me os olhos. mas ela traz o espelho no rosto para que eu veja o que reflecte, e eu conto-lhe dos sinais que estão por todo o lado e que ela, vendo, porque me conta, não vê, porque não sente. falo-lhe de mim e da falta de respeito por si própria, e de como, chama para a sua vida, pessoas com falta de respeito por ela.
ela chora por fora e eu choro por dentro.

quando no dia seguinte me diz que agora que vê para fora, sangra-lhe a alma por dentro, sussurro-lhe que siga o caminho que a fizer mais feliz, sabendo que é ainda mais estreito e tortuoso.











sexta-feira, 28 de abril de 2017

relento


























com um 'já percebi que já estás a ficar nervosa', ela saiu. devo trazer estampado no olhar a expressão esgaziada do animal encurralado. 
assim que fiquei só, saí para o lado de fora da minha vida, e fiquei, de longe a olhar para ela. as portadas estão todas fechadas, encaixadas nas paredes primorosamente pintadas. cá fora faz vento e frio, o sol encandeia-me os olhos, a minha pele veste-se de sem-abrigo, de mim. 
pergunto à mulher que, sem saber, trazia um espelho no rosto, como está. na esperança de, nas lágrimas dela, encontrar alívio para a minha aridez.










das noites e das manhãs






não consegui entrar em ti. para seguir as coordenadas do coração, não posso desviar-me da essência, dizem eles apontando o dedo para o resultado do último teste. a cada etapa, uma nova armadilha. 
toda a noite caiu chuva dentro da minha cabeça. não fosse não ter ouvido os pingos no varão da varanda, teria a certeza de que tinha chovido a noite toda.

não tenho necessidade disto - foi o primeiro pensamento da manhã - mas quando repousava as mãos na massa, ecoou-me que se assim não fosse, não o vivia. 

coloque-se de fora e olhe para a sua vida - dizia eu há dois dias àquela mulher que ao entrar, pousou o coração na mesa. eu sabia que ela não vinha por acaso. nunca vêem. sentam-se em frente a mim, e levantam o pano do espelho que nem sabem que trazem com elas.







quinta-feira, 27 de abril de 2017

descanso







pouso as mãos em cima da massa morna, e fecho os olhos. aqui eu sou terra, alimento e criação. desta vez peço que aquele momento em que descanso, na temperatura e no aroma da farinha e manteiga que me chegam do balcão da cozinha, que se repita, de cada vez que demore a minha atenção no que fizer. e de cada vez que o faço, o tempo dilata, como num milagre, e eu descanso.








quarta-feira, 26 de abril de 2017

como agora






respiro fundo e peço ao meu coração que acalme. elevo o pedido também a quem invisível me acompanha. toda a serenidade que aparento é um turbilhão interior que eu tento acalmar. durante o dia crio estratégias e falo comigo mesma para amainar a tempestade de que é feita a água que me corre no corpo. mas é de noite, quando acordo a meio do sono e dos sonhos, que me torno a fazer pequenina e que grito que preciso dos meus pais, que me faço mulher de carne, e quero-te só para mim, ou então toda eu sou mãe de sangue, e guardo filhos no colo. e enquanto o sono não vem, recomeço a pedir ao meu coração que acalme, como agora.










terça-feira, 25 de abril de 2017

dois anos








envelheceram. a mãe, o cantor e a amiga, em dois anos. 
em dois anos, tu chegas e mudando tudo não mudaste nada. em dois anos quis e deixei de querer, admirei-o e desiludi-me. em dois anos. em dois anos aquela criatura, querendo cortar-me os passos, amaciou o meu caminho. em dois anos, a dificuldade que eu via, deu-me a mão. em dois anos também me vi envelhecer, e em dois anos fui aceitando e acarinhando esse percurso. em dois anos conheci mundos visíveis e invisíveis, o que os meus olhos vêm embacia, e o que eu vejo torna-se nítido. em dois anos, os filhos que julguei criados, tornaram-se meninos e pedem colo, a mãe que me criou, pede amparo. em dois anos, percebi que a distância e a ausência podem ocupar mais espaço do que a presença. em dois anos percebi que a falta mede-se pela alegria que se perde, que o mais importante do conhecimento é o que se faz com ele, senão não passa de um acumular de inutilidades. em dois anos percebi que quando eu mudo, tudo muda à minha volta, compreendi porque o que prega o frei tomás não é invalidado pelo que ele não faz. em dois anos aprendi a ouvir a linguagem dos elementos e que o que fazemos pensamos sentimos falamos, com o coração, chega mais facilmente aos outros, a tudo. em dois anos entendi que a alegria e gratidão são a mesma prática espiritual e que a terra é uma entidade sagrada que deve ser reverenciada. em dois anos senti que aceitar alimento é uma prova de confiança cega, e que cozinhar é transformar, nutrir, confortar, multiplicar, parir.
nos próximos dois anos vou aprender a dizer adeus e não e o amor.












o melhor do dia









o sorriso da mãe, o braço do filho, o ramo de flores campestres que aquela mulher me trouxe. 

[o abrigo, o alimento, a saúde e a paz. a alegria. tu sabes.]