pouso as mãos em cima da massa morna, e fecho os olhos. aqui eu sou terra, alimento e criação. desta vez peço que aquele momento em que descanso, na temperatura e no aroma da farinha e manteiga que me chegam do balcão da cozinha, que se repita, de cada vez que demore a minha atenção no que fizer. e de cada vez que o faço, o tempo dilata, como num milagre, e eu descanso.
respiro fundo e peço ao meu coração que acalme. elevo o pedido também a quem invisível me acompanha. toda a serenidade que aparento é um turbilhão interior que eu tento acalmar. durante o dia crio estratégias e falo comigo mesma para amainar a tempestade de que é feita a água que me corre no corpo. mas é de noite, quando acordo a meio do sono e dos sonhos, que me torno a fazer pequenina e que grito que preciso dos meus pais, que me faço mulher de carne, e quero-te só para mim, ou então toda eu sou mãe de sangue, e guardo filhos no colo. e enquanto o sono não vem, recomeço a pedir ao meu coração que acalme, como agora.
envelheceram. a mãe, o cantor e a amiga, em dois anos. em dois anos, tu chegas e mudando tudo não mudaste nada. em dois anos quis e deixei de querer, admirei-o e desiludi-me. em dois anos. em dois anos aquela criatura, querendo cortar-me os passos, amaciou o meu caminho. em dois anos, a dificuldade que eu via, deu-me a mão. em dois anos também me vi envelhecer, e em dois anos fui aceitando e acarinhando esse percurso. em dois anos conheci mundos visíveis e invisíveis, o que os meus olhos vêm embacia, e o que eu vejo torna-se nítido. em dois anos, os filhos que julguei criados, tornaram-se meninos e pedem colo, a mãe que me criou, pede amparo. em dois anos, percebi que a distância e a ausência podem ocupar mais espaço do
que a presença. em dois anos percebi que a falta mede-se pela alegria que se perde, que o mais importante do conhecimento é o que se faz com ele,
senão não passa de um acumular de inutilidades. em dois anos percebi que quando eu mudo, tudo muda à minha volta, compreendi porque o que prega o frei tomás não é invalidado pelo que ele não faz. em dois anos aprendi a ouvir a linguagem dos elementos e que o que fazemos pensamos sentimos falamos, com o coração, chega mais facilmente aos outros, a tudo. em dois anos entendi que a alegria e gratidão são a mesma prática espiritual e que a terra é uma entidade sagrada que deve ser reverenciada. em dois anos senti que aceitar alimento é uma prova de confiança cega, e que cozinhar é transformar, nutrir, confortar, multiplicar, parir. nos próximos dois anos vou aprender a dizer adeus e não e o amor.
o sorriso da mãe, o braço do filho, o ramo de flores campestres que aquela mulher me trouxe. [o abrigo, o alimento, a saúde e a paz. a alegria. tu sabes.]
Foi de repente que descobri que as duas se completavam. Ele ia buscar a cada uma o que precisava e que apenas uma delas lhe poderia dar. Nenhuma poderiam tomar o lugar, uma da outra, por serem tão distintas.
o vizinho: por um triz que não me deu um beijo na boca. parece-me que se não fosse a sua proeminente barriga entre nós os dois, por entre os três abraços que trocamos na porta do elevador, tínhamos chocado com os lábios um no outro. 'sempre linda a minha vizinha', cumprimenta-me o vizinho da frente, aquele que eu considero 'o' meu vizinho, o vizinho ideal. está lá sempre e nunca me bate à porta. nem ele, nem a mulher. 'ai que bom, obrigada vizinho. ouvir isso a esta hora é mesmo bom', e rimos, como sempre, venha ele cansado, esteja eu cansada, rimos sempre. 'sabe que quando saio, por volta das oito e meia e sinto o cheirinho que vem de sua casa, penso assim: a minha vizinha já deve estar a trabalhar há muito tempo. olhe que é uma grande mulher'. 'acho que não, vizinho. por isso, acho que não', e fico a pensar na consciência que me pesa por não encontrar tempo para o lazer, por chegar ao final de cada dia sem paciência, sequer, para ler um livro. 'é vizinha, digo-lhe que é'. enquanto vou andando 'vou acreditar nisso, vizinho. o vizinho é que sabe'. e bom fim de semana para cá e bom fim de semana para lá. a vizinha: pára o carro a meio da garagem e desce a janela 'estás boa?', pergunto, encostando o meu lado esquerdo ao carro. 'olha tu, que me fazes começar o dia bem-disposta', e ela fala dos disparates que publico no facebook. falamos dos filhos, meus, e da filha, única, dela, e ela acha que porque tenho três não sofro tanto com as contradições deles, como ela, com a dela. pergunta-me como descubro aquelas palermices do facebook, e digo-lhe que vêm ter comigo. 'ah, é que a mim só aparecem coisas tristes, e vou ao teu e farto-me de rir'. 'sei lá, se calhar atrais', e rio-me com ela. quando tento endireitar o lado esquerdo, pondo-o para o direito, toda eu ranjo, toda eu me doo. 'ai, a idade...', e ri-se ela, que tem bem menos de dez anos do que eu. a outra vizinha, a do rés-do-chao que diz que tem 250 anos: 'olha esta minha vizinha, que nunca hei-de esquecer um ano em que eu tinha o meu irmão tão doente, e no dia 30 de abril veio deixar uma raminho de maias na minha porta'. e põe uma mão de cada lado das minhas bochechas, e dá-me pancadinhas suaves, enquanto diz 'só pode ser boa pessoa, só pode', e eu vou pensando nas vezes em que não lhe atendo as chamadas, por falta de paciência, embora a vizinha seja sempre tão breve nas conversas. e depois há a dona fernanda, aquela que aparece a horas impróprias e que fala como se estivesse sózinha. já não aparece há muito tempo. foi a Miss, que me fez lembrar.
lembro-me da primeira vez que fui. contei-te nessa altura do bom que foi. ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. fui sem expectativas e ninguém esperava nada de mim. lembro-me do verde e da temperatura morna do granito debaixo das minhas costas, e de estar como quem nasce. desta vez fui confrontada com um 'tens que ir', e outro 'contamos contigo, eu e ele', e ainda um 'eu pago-te', e outro 'então pagas depois ou conforme puderes', e eu vou, mas vou contrariada. eu sei que é um lugar comum o que vou dizer, mas a vida está sempre a pôr-nos à prova com as, no meu caso, quase pequenas certezas que pensamos atingir, e, cada vez que dou um passinho de formiga nesse sentido, obriga-me a dar dois de caranguejo, daqueles que andando para trás andamos para a frente. quando penso que me integro, lá estou eu a desintegrar-me. então, vou ter com os outros para aprender sobre mim. descasco-me, como a cebola de ontem da salada. e a vida tem sido assim todos os dias. já te contei da minha história contigo por dentro?
Enquanto cubro o meu telemóvel com beijos, porque isto do touch screen qualquer dia envia estas manifestações, percebo que tenho a cortina aberta e os vizinhos com a janela alinhada com a minha, as persianas levantadas.