domingo, 23 de abril de 2017

distância







quando ele, para além de entender, finalmente viu no seu brilho, que ela estava mais radiante sem ele, passou a querê-la ainda mais.









Uma e outra








Foi de repente que descobri que as duas se completavam. Ele ia buscar a cada uma o que precisava e que apenas uma delas lhe poderia dar. Nenhuma poderiam tomar o lugar, uma da outra, por serem tão distintas.



sexta-feira, 21 de abril de 2017

o vizinho, as vizinhas e a dona fernanda

























o vizinho:
por um triz que não me deu um beijo na boca. parece-me que se não fosse a sua proeminente barriga entre nós os dois, por entre os três abraços que trocamos na porta do elevador, tínhamos chocado com os lábios um no outro. 'sempre linda a minha vizinha', cumprimenta-me o vizinho da frente, aquele que eu considero 'o' meu vizinho, o vizinho ideal. está lá sempre e nunca me bate à porta. nem ele, nem a mulher. 'ai que bom, obrigada vizinho. ouvir isso a esta hora é mesmo bom', e rimos, como sempre, venha ele cansado, esteja eu cansada, rimos sempre. 'sabe que quando saio, por volta das oito e meia e sinto o cheirinho que vem de sua casa, penso assim: a minha vizinha já deve estar a trabalhar há muito tempo. olhe que é uma grande mulher'. 'acho que não, vizinho. por isso, acho que não', e fico a pensar na consciência que me pesa por não encontrar tempo para o lazer, por chegar ao final de cada dia sem paciência, sequer, para ler um livro. 'é vizinha, digo-lhe que é'. enquanto vou andando 'vou acreditar nisso, vizinho. o vizinho é que sabe'. e bom fim de semana para cá e bom fim de semana para lá.

a vizinha:
pára o carro a meio da garagem e desce a janela 'estás boa?', pergunto, encostando o meu lado esquerdo ao carro. 'olha tu, que me fazes começar o dia bem-disposta', e ela fala dos disparates que publico no facebook. falamos dos filhos, meus, e da filha, única, dela, e ela acha que porque tenho três não sofro tanto com as contradições deles, como ela, com a dela. pergunta-me como descubro aquelas palermices do facebook, e digo-lhe que vêm ter comigo. 'ah, é que a mim só aparecem coisas tristes, e vou ao teu e farto-me de rir'. 'sei lá, se calhar atrais', e rio-me com ela. quando tento endireitar o lado esquerdo, pondo-o para o direito, toda eu ranjo, toda eu me doo. 'ai, a idade...', e ri-se ela, que tem bem menos de dez anos do que eu.

a outra vizinha, a do rés-do-chao que diz que tem 250 anos:
'olha esta minha vizinha, que nunca hei-de esquecer um ano em que eu tinha o meu irmão tão doente, e no dia 30 de abril veio deixar uma raminho de maias na minha porta'. e põe uma mão de cada lado das minhas bochechas, e dá-me pancadinhas suaves, enquanto diz 'só pode ser boa pessoa, só pode', e eu vou pensando nas vezes em que não lhe atendo as chamadas, por falta de paciência, embora a vizinha seja sempre tão breve nas conversas.

e depois há a dona fernanda, aquela que aparece a horas impróprias e que fala como se estivesse sózinha. já não aparece há muito tempo.

foi a Miss, que me fez lembrar.













minha mãe dá licença?




















lembro-me da primeira vez que fui. contei-te nessa altura do bom que foi. ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. fui sem expectativas e ninguém esperava nada de mim. lembro-me do verde e da temperatura morna do granito debaixo das minhas costas, e de estar como quem nasce.
desta vez fui confrontada com um 'tens que ir', e outro 'contamos contigo, eu e ele', e ainda um 'eu pago-te', e outro 'então pagas depois ou conforme puderes', e eu vou, mas vou contrariada.

eu sei que é um lugar comum o que vou dizer, mas a vida está sempre a pôr-nos à prova com as, no meu caso, quase pequenas certezas que pensamos atingir, e, cada vez que dou um passinho de formiga nesse sentido, obriga-me a dar dois de caranguejo, daqueles que andando para trás andamos para a frente. quando penso que me integro, lá estou eu a desintegrar-me. 

então, vou ter com os outros para aprender sobre mim. descasco-me, como a cebola de ontem da salada. e a vida tem sido assim todos os dias. 

já te contei da minha história contigo por dentro?








quinta-feira, 20 de abril de 2017

O meu touch







Enquanto cubro o meu telemóvel com beijos, porque isto do touch screen qualquer dia envia estas manifestações, percebo que tenho a cortina aberta e os vizinhos com a janela alinhada com a minha, as persianas levantadas.








o projecto do Gil










"Estava na minha hora de almoço e via as notícias do dia quando me chega à atenção um vídeo. Era um excerto de um noticiário Turco. Numa reportagem, após mais um bombardeamento em Alepo, uma criança atingida por estilhaços era operada de urgência sem as mínimas condições. Sem anestesia, uma vez que nada há disponível por aquele canto martirizado do mundo.
A criança gritava os versos do Corão como um mantra, tentando desviar a sua atenção do sofrimento e dor, enquanto o médico a operava.
No final da reportagem os repórteres choravam no estúdio de televisão. Eu também."














o rapaz











o rapaz conta-me sobre o amigo que toma substâncias para ajudar a que o trabalho do ginásio o torne mais musculado. ele não o faz. alimenta-se e disciplina-se. impõe objectivos a si mesmo.
- não acho bem - diz-me ele - é assim como se ele estivesse a ser falso, e não estou a falar dos outros, ele sabe que aquilo não vem do seu trabalho nem do seu esforço, e nem é por lhe fazer mal. sabes, é uma questão de honra.
de repente apercebo-me que a honra caiu em desuso. foi suplantada pela aparência, pelo socialmente correcto, pelo estatuto social, pelo poder financeiro.












quarta-feira, 19 de abril de 2017

o que ele quer








o que ele quer é simples, diz. dormir acompanhado, adormecer junto, lendo um livro, começar a manhã a seu lado, partilhar o banho, assistirem ao último convidado a sair de casa, no final da noite, e resolverem deixar a louça para arrumar no dia seguinte, ir buscá-la numa sexta-feira para passarem um fim de semana de três dias em qualquer lado, que o ajude a tratar das árvores que caíram no inverno, viajar desde o sul de frança até à grécia, por mar, e olhar para ela.










terça-feira, 18 de abril de 2017

o jantar






ele pergunta me se me vou pôr bonita para jantar com ele e promete-me que não fala em casamento. da última vez que o fez, desapareci durante mais de um ano. sem responder-lhe, digo que quero estar de volta às dez horas. ele ri-se, já sabe. para ele, fico bonita de vestido comprido e sandálias rasas, sem maquilhagem, unhas rentes sem cor e com um perfume leve. é fácil.
aquele homem tem tudo o que eu quero - uma casa no campo, vive no mundo das artes, 'an intelligent conversation', como diz aquele quando questionado 'what are you thankful for?', a paixão pelo mar. 
assusto-me comigo mesma, aqui sentada, vendo as pequenas folhas verdes das árvores a ondular ao vento, adivinhando o arrepio do mar na pele, querendo o impossível.







segunda-feira, 17 de abril de 2017

método





























pouso as compras no tapete da caixa do supermercado, metodicamente. os pacotes de manteiga, dois a dois, lado a lado, os sacos de aveia da mesma forma, de seguida os legumes, do mais resistente para o mais frágil, e por fim o pão. em casa descasco cebolas e alhos e parto em pedaços pequenos, todos iguais. conto o tempo exacto que demoro a fazer cada coisa e divido o tempo que tenho por cada tarefa. é quando estou mais presente no que faço que estou mais ausente no que sinto. o meu corpo trabalha aqui, mas eu não estou cá.