quarta-feira, 19 de abril de 2017

o que ele quer








o que ele quer é simples, diz. dormir acompanhado, adormecer junto, lendo um livro, começar a manhã a seu lado, partilhar o banho, assistirem ao último convidado a sair de casa, no final da noite, e resolverem deixar a louça para arrumar no dia seguinte, ir buscá-la numa sexta-feira para passarem um fim de semana de três dias em qualquer lado, que o ajude a tratar das árvores que caíram no inverno, viajar desde o sul de frança até à grécia, por mar, e olhar para ela.










terça-feira, 18 de abril de 2017

o jantar






ele pergunta me se me vou pôr bonita para jantar com ele e promete-me que não fala em casamento. da última vez que o fez, desapareci durante mais de um ano. sem responder-lhe, digo que quero estar de volta às dez horas. ele ri-se, já sabe. para ele, fico bonita de vestido comprido e sandálias rasas, sem maquilhagem, unhas rentes sem cor e com um perfume leve. é fácil.
aquele homem tem tudo o que eu quero - uma casa no campo, vive no mundo das artes, 'an intelligent conversation', como diz aquele quando questionado 'what are you thankful for?', a paixão pelo mar. 
assusto-me comigo mesma, aqui sentada, vendo as pequenas folhas verdes das árvores a ondular ao vento, adivinhando o arrepio do mar na pele, querendo o impossível.







segunda-feira, 17 de abril de 2017

método





























pouso as compras no tapete da caixa do supermercado, metodicamente. os pacotes de manteiga, dois a dois, lado a lado, os sacos de aveia da mesma forma, de seguida os legumes, do mais resistente para o mais frágil, e por fim o pão. em casa descasco cebolas e alhos e parto em pedaços pequenos, todos iguais. conto o tempo exacto que demoro a fazer cada coisa e divido o tempo que tenho por cada tarefa. é quando estou mais presente no que faço que estou mais ausente no que sinto. o meu corpo trabalha aqui, mas eu não estou cá.










noites em claro
























não sei porque lhes chamam noites em claro, se, na verdade são densas e escuras. nem o acordar me arranca dos sonhos, e, de olhos abertos continua a desfilar diante mim o desenrolar daquilo a que eu queria fugir. é então aqui que recorro ao telemóvel e procuro concentrar-me no que leio.


lembro-me de quando andava na catequese e assombrava-me o medo do pecado e do arrependimento. será por isso que os meus filhos não frequentaram mais do que dois ou três meses  daqueles ensinamentos que as crianças não têm capacidade para entender. mas o que me fez recordar esta noite foi o arrependimento, e o receio que eu tinha de que deus, omnipotente e omnipresente percebesse que o que eu falava não era o que sentia por dentro. nem era o medo do castigo que me atormentava, era a falta de verdade, a minha, e não cumprir com as expectativas, de deus, neste caso.

na procura de me conhecer a mim mesma [este conceito tão gasto], e alcançar algum equilíbrio [este conceito tão vago], vou descobrindo camadas que me ajudam a compreender a minha relação com os outros e a interagir com calma com tudo o que me rodeia.  tenho conseguido alguma paz, porque é fácil quando o caminho nos mostra o que consideramos progresso, evolução.

este domingo de páscoa, em que os meus desejos [reconheço agora que o desejei aos outros sem consciência de mim] foram de que fosse de renovação, compaixão, renascimento, acabo por encarar, sentir, apalpar, cheirar, o meu lado negro, primário. deitei-me com ele. percorro os princípios que tenho colados na parede da casa de banho, à procura daquele em que falhei e não encontro. atrás de mim trago um mafarrico que se ri do meu desnorteio, do meu sem-chão. 'perdoa-te a ti mesma', quero ver-te agora, 'ama o teu lado negro, aceita-te' - atira-me ele, saltitando, com o gorro pontiagudo, chocalhando os guizos como os bobos da corte.  












domingo, 16 de abril de 2017

magia









avisa com antecedência que tens uma magia poderosa para mostrar e que precisas da colaboração de todos. prepara o espaço em cima da mesa, sem telemóveis , comandos de televisão, comida que se possa estragar. diz que é devido ao magnetismo e carga energética que podem interferir com a magia.
então colocas uma moeda debaixo de uma garrafa bem cheia de água, das de litro e meio e de preferência feita de plástico mole, como as do continente. pedes que se aproximem pois vão ver a moeda a atravessar o plástico e ficar no fundo da garrafa. começa a tamborilar na mesa, pertinho da garrafa para trazeres os poderes todos da matéria e pede a a alguém que espreite pelo gargalo para verificar se a moeda já passou. nesse momento, com rapidez, apertas a garrafa com força e vês o que acontece. convém que quem espreita esteja com a cara realmente perto da abertura.

foi o digestivo do almoço de domingo de Páscoa. claro que tive que suportar o olhar reprovador dos rapazes, mas já estou habituada.










sábado, 15 de abril de 2017

dúvida









não sei se não deixo que entrem na minha vida porque penso nele, ou se penso nele porque não há ninguém que mo faça esquecer. 












arithmós























o meu coração tem unhas e é de manhã que arranha dentro do peito. sinto-o e ouço-o cansado de mim, da minha maneira impossível de querer, da vida que trago amarrada a invisíveis e intocáveis, do corpo alheado de outro corpo.
sinto-o a raspar nas costelas e é nessa altura que olho para dentro. então, reúno todas as palavras que injustificam esta forma de não ser, e obrigo-me a ler vezes sem conta, como uma criança obrigada a escrever a tabuada, para que a decore. e não decoro, nem as palavras, nem o abandono. 
tudo o que é visível e lógico diz-me que não. eu insisto que sim. 
até eu me sobro. até eu me falto. e eu sei.











sexta-feira, 14 de abril de 2017

o meu Amarante era Gorbi e tinha olhos cor de laranja












fui buscá-lo à Serra da Estrela depois do funeral. gostávamos de serras da estrela, do seu espírito livre, selvagem e terno. mas ele resolveu encurtar o tempo de vida que lhe tinha sido oferecido, e, depois de o enterrar, meti-me no meu fiat seiscentos e fui buscá-lo à serra. era uma forma de o manter vivo, e a mim também.

hoje venho aqui contar sobre ele porque a Teresa e a Susana lembraram-me que nunca o tinha feito.

trouxe-o numa caixa de cartão, do canil de são lourenço. nasceu a 13 de maio, tinha um nome qualquer que começava por 'e', que eu mudei para Gorbi, e tinha lop. eu dizia que ele era brasonado.
mas o gorbi era selvagem. naqueles seus olhos cor de laranja cabia a liberdade toda do mundo, e a ternura, e a firmeza.
foram escusados os muros, os portões, as cordas, a disciplina. sim, porque ele esteve a tirar um curso de obediência cega na gnr e a ordem que melhor aprendeu foi 'destroça', e ele corria a bom correr até se perder de vista. 
era raro o dia que não ia à praia. aparecia em casa a cheirar a algas e com o focinho arranhado. outras vezes desaparecia durante dias e eu percorria campos e ruas e acampamentos ciganos, em vão, para mais tarde ele aparecer em casa, exausto e com cordas esfarrapadas amarradas ao pescoço. diziam que o viam a esperar que o semáforo mudasse para verde para atravessar as ruas.
o gorbi tinha, diziam os veterinários, uma otite crónica, e quando abanava a cabeça para sacudir a dor, ficava com as orelhas inchadas e tinha que ser lancetado. com a idade a doença agravou e ele deixou de sair de casa. os antibióticos eram cada vez mais frequentes e os anti~inflamatórios também. tinha-me dado jeito conhecer a Teresa naquela altura, e sorrio enquanto escrevo isto. deixei de partir de férias para cuidar dele. e ele sabia. fazia sopas que o ajudava a comer como se fosse uma criança e repousava a sua cabeça no meu colo. fiquei sempre com a culpa de não o ter tratado melhor, de ter demasiadas vezes tentado atenuar a sua dor com medicamentos.
um dia, e nessa altura eu vivia realmente numa casa de campo, tinha-o deixado a descansar por baixo dos pinheiros, e estava eu na cozinha a preparar o almoço, quando senti a brisa que ele provocava quando passava por mim. mas ele não estava, tinha passado para se despedir. fui encontrá-lo morto no mesmo sítio em que o tinha deixado, no meio dos pinheiros. afaguei o seu pelo já sem brilho, peguei numa pá, abri um buraco e enterrei-o.
reparo agora que não chorei a sua morte. assim como não chorei a dos que me morrem e nunca morrem em mim.
















quarta-feira, 12 de abril de 2017

dizia-me ele que era uma história verdadeira, e eu acreditava, e ainda hoje acredito








o Pires era um professor universitário. empenhava-se muito na sua profissão e andava sempre muito cansado. ora, convém referir que o Pires tinha barba, que por preguiça sua, cobria-lhe o rosto.
um dia, o Pires saiu da faculdade, sentou-se num banco de jardim e adormeceu. os seus alunos, ao verem o professor adormecido, resolveram pregar-lhe uma partida. então pegaram numa tesoura e cortaram-lhe a barba.
quando o Pires acordou, viu o seu rosto reflectido no vidro de uma montra, e, não se reconhecendo, disse:
- Pires era, Pires sou, tinha barbas, quem mas cortou?
cofiando (o meu pai não utilizava este termo, mas aprendi-o eu recentemente) a pele onde na véspera tinha pêlos, lembrou-se:
- vou à casa do Pires, se não estiver lá o Pires, então Pires eu sou, se lá estiver o Pires, então quem diabo eu sou?

e pronto. ficava eu com os olhos arregalados perguntando como acabava a história, e pedia ao meu pai que a repetisse todas as noites até eu adormecer.











segunda-feira, 10 de abril de 2017

saudação ao sol









quando deixo de pensar na dificuldade em colocar o pé entre as mãos e penso na possibilidade de o conseguir, a minha perna vai mais à frente.