domingo, 16 de abril de 2017

magia









avisa com antecedência que tens uma magia poderosa para mostrar e que precisas da colaboração de todos. prepara o espaço em cima da mesa, sem telemóveis , comandos de televisão, comida que se possa estragar. diz que é devido ao magnetismo e carga energética que podem interferir com a magia.
então colocas uma moeda debaixo de uma garrafa bem cheia de água, das de litro e meio e de preferência feita de plástico mole, como as do continente. pedes que se aproximem pois vão ver a moeda a atravessar o plástico e ficar no fundo da garrafa. começa a tamborilar na mesa, pertinho da garrafa para trazeres os poderes todos da matéria e pede a a alguém que espreite pelo gargalo para verificar se a moeda já passou. nesse momento, com rapidez, apertas a garrafa com força e vês o que acontece. convém que quem espreita esteja com a cara realmente perto da abertura.

foi o digestivo do almoço de domingo de Páscoa. claro que tive que suportar o olhar reprovador dos rapazes, mas já estou habituada.










sábado, 15 de abril de 2017

dúvida









não sei se não deixo que entrem na minha vida porque penso nele, ou se penso nele porque não há ninguém que mo faça esquecer. 












arithmós























o meu coração tem unhas e é de manhã que arranha dentro do peito. sinto-o e ouço-o cansado de mim, da minha maneira impossível de querer, da vida que trago amarrada a invisíveis e intocáveis, do corpo alheado de outro corpo.
sinto-o a raspar nas costelas e é nessa altura que olho para dentro. então, reúno todas as palavras que injustificam esta forma de não ser, e obrigo-me a ler vezes sem conta, como uma criança obrigada a escrever a tabuada, para que a decore. e não decoro, nem as palavras, nem o abandono. 
tudo o que é visível e lógico diz-me que não. eu insisto que sim. 
até eu me sobro. até eu me falto. e eu sei.











sexta-feira, 14 de abril de 2017

o meu Amarante era Gorbi e tinha olhos cor de laranja












fui buscá-lo à Serra da Estrela depois do funeral. gostávamos de serras da estrela, do seu espírito livre, selvagem e terno. mas ele resolveu encurtar o tempo de vida que lhe tinha sido oferecido, e, depois de o enterrar, meti-me no meu fiat seiscentos e fui buscá-lo à serra. era uma forma de o manter vivo, e a mim também.

hoje venho aqui contar sobre ele porque a Teresa e a Susana lembraram-me que nunca o tinha feito.

trouxe-o numa caixa de cartão, do canil de são lourenço. nasceu a 13 de maio, tinha um nome qualquer que começava por 'e', que eu mudei para Gorbi, e tinha lop. eu dizia que ele era brasonado.
mas o gorbi era selvagem. naqueles seus olhos cor de laranja cabia a liberdade toda do mundo, e a ternura, e a firmeza.
foram escusados os muros, os portões, as cordas, a disciplina. sim, porque ele esteve a tirar um curso de obediência cega na gnr e a ordem que melhor aprendeu foi 'destroça', e ele corria a bom correr até se perder de vista. 
era raro o dia que não ia à praia. aparecia em casa a cheirar a algas e com o focinho arranhado. outras vezes desaparecia durante dias e eu percorria campos e ruas e acampamentos ciganos, em vão, para mais tarde ele aparecer em casa, exausto e com cordas esfarrapadas amarradas ao pescoço. diziam que o viam a esperar que o semáforo mudasse para verde para atravessar as ruas.
o gorbi tinha, diziam os veterinários, uma otite crónica, e quando abanava a cabeça para sacudir a dor, ficava com as orelhas inchadas e tinha que ser lancetado. com a idade a doença agravou e ele deixou de sair de casa. os antibióticos eram cada vez mais frequentes e os anti~inflamatórios também. tinha-me dado jeito conhecer a Teresa naquela altura, e sorrio enquanto escrevo isto. deixei de partir de férias para cuidar dele. e ele sabia. fazia sopas que o ajudava a comer como se fosse uma criança e repousava a sua cabeça no meu colo. fiquei sempre com a culpa de não o ter tratado melhor, de ter demasiadas vezes tentado atenuar a sua dor com medicamentos.
um dia, e nessa altura eu vivia realmente numa casa de campo, tinha-o deixado a descansar por baixo dos pinheiros, e estava eu na cozinha a preparar o almoço, quando senti a brisa que ele provocava quando passava por mim. mas ele não estava, tinha passado para se despedir. fui encontrá-lo morto no mesmo sítio em que o tinha deixado, no meio dos pinheiros. afaguei o seu pelo já sem brilho, peguei numa pá, abri um buraco e enterrei-o.
reparo agora que não chorei a sua morte. assim como não chorei a dos que me morrem e nunca morrem em mim.
















quarta-feira, 12 de abril de 2017

dizia-me ele que era uma história verdadeira, e eu acreditava, e ainda hoje acredito








o Pires era um professor universitário. empenhava-se muito na sua profissão e andava sempre muito cansado. ora, convém referir que o Pires tinha barba, que por preguiça sua, cobria-lhe o rosto.
um dia, o Pires saiu da faculdade, sentou-se num banco de jardim e adormeceu. os seus alunos, ao verem o professor adormecido, resolveram pregar-lhe uma partida. então pegaram numa tesoura e cortaram-lhe a barba.
quando o Pires acordou, viu o seu rosto reflectido no vidro de uma montra, e, não se reconhecendo, disse:
- Pires era, Pires sou, tinha barbas, quem mas cortou?
cofiando (o meu pai não utilizava este termo, mas aprendi-o eu recentemente) a pele onde na véspera tinha pêlos, lembrou-se:
- vou à casa do Pires, se não estiver lá o Pires, então Pires eu sou, se lá estiver o Pires, então quem diabo eu sou?

e pronto. ficava eu com os olhos arregalados perguntando como acabava a história, e pedia ao meu pai que a repetisse todas as noites até eu adormecer.











segunda-feira, 10 de abril de 2017

saudação ao sol









quando deixo de pensar na dificuldade em colocar o pé entre as mãos e penso na possibilidade de o conseguir, a minha perna vai mais à frente.











domingo, 9 de abril de 2017

azur







conforme lhe disse, pus o cristal na mesa da varanda para energizar. desta vez lembrei-me. e acendi uma vela à lua, a ela que me lembra o meu lado feminino, maga, criadora. envolta num xaile branco, olho para ela enquanto lentamente define a sua luz no céu de azul azur do final do dia. agradeço a bonança e a capacidade de perceber a paz, enquanto ela existe. 











yours







my eyes are mine
my mouth is mine
my hands are mine
but i am yours















roda










a mulher abre os olhos, fixa-a, e pergunta-lhe o que é ser mulher. responde-lhe que é celebração da vida. tinha a resposta antes de formulada a pergunta. olham-na as duas e aguardam. sim, ser mulher é a celebração da vida, mas estamos esquecidas - gerar, criar, alimentar, a alegria, a força, a cura, a sensualidade, a sabedoria, o ritmo, a magia, o fogo, o calor, a resiliência, as lágrimas, a languidez, o lar, o perfume, cuidar. ao tentarmos ser iguais, perdemos a nossa essência.



















sábado, 8 de abril de 2017

conferência de imprensa sem direito a perguntas










ele e ela atravessam o parque lado a lado. ela traz na mão uma garrafa de um litro e meio de água, imagino que a partilhem se tiverem sede. ele leva um saco do lidl cheio de compras. vão chegar a casa e vão os dois arrumar as compras no armário, abrir duas cervejas e estender-se no sofá, encostados um ao outro, a ver um dos filmes gravados durante a semana, para ver ao sábado. caminham lado a lado. 

na caixa do supermercado, o homem pousa, a medo, uma garrafa de brandy, entre a caixa de ovos e as embalagens de carne, como se a quisesse esconder. 'depois eu pago', diz para a mulher que tem um corpo com o dobro do tamanho do dele. 'deixa lá', responde-lhe ela com expressão de condescendência. ele, grato, saltita com o carrinho onde vai guardar as compras, e, sob as orientação dela, acondiciona cuidadosamente tudo o que, quando chegar a casa vai colocar exactamente nos lugares que ela disser. depois, vão assistir ao programa da tarde da tvi e ele vai tomar a bebida para lhe dar coragem para ser homem, mais uma vez, e com sorte, até levantar a voz à mulher.

eu atravesso o parque com o saco das minhas compras na mão. reparo nos homens que se juntam para jogar futebol, sorrio para os pardais mansos que me observam das árvores, noto que já se avista a lua e que está quase cheia, e penso que tenho que pôr os cristais a carregar, guardo o verde tenro das árvores para pousar nele, que não tenho e que trago colado a mim. quando chegar a casa, vou arrumar apenas o que tenho que guardar no frigorífico, o saco vai ficar no chão a fazer companhia aos outros, e vou mudar o vaso do tomateiro que comprei de manhã, para com as folhas fazer um repelente de larvas biológico. recuso o convite para o teatro que acabei de receber, e passarei a noite a pesquisar receitas vegan para o catering do retiro. 
escrevo isto e fico a pensar se devo fechar a caixa de comentários. acabo por nunca o fazer, faz-me lembrar as conferências de imprensa sem direito a perguntas.