o meu coração tem unhas e é de manhã que arranha dentro do peito. sinto-o e ouço-o cansado de mim, da minha maneira impossível de querer, da vida que trago amarrada a invisíveis e intocáveis, do corpo alheado de outro corpo. sinto-o a raspar nas costelas e é nessa altura que olho para dentro. então, reúno todas as palavras que injustificam esta forma de não ser, e obrigo-me a ler vezes sem conta, como uma criança obrigada a escrever a tabuada, para que a decore. e não decoro, nem as palavras, nem o abandono. tudo o que é visível e lógico diz-me que não. eu insisto que sim. até eu me sobro. até eu me falto. e eu sei.
fui buscá-lo à Serra da Estrela depois do funeral. gostávamos de serras da estrela, do seu espírito livre, selvagem e terno. mas ele resolveu encurtar o tempo de vida que lhe tinha sido oferecido, e, depois de o enterrar, meti-me no meu fiat seiscentos e fui buscá-lo à serra. era uma forma de o manter vivo, e a mim também. hoje venho aqui contar sobre ele porque a Teresa e a Susana lembraram-me que nunca o tinha feito. trouxe-o numa caixa de cartão, do canil de são lourenço. nasceu a 13 de maio, tinha um nome qualquer que começava por 'e', que eu mudei para Gorbi, e tinha lop. eu dizia que ele era brasonado. mas o gorbi era selvagem. naqueles seus olhos cor de laranja cabia a liberdade toda do mundo, e a ternura, e a firmeza. foram escusados os muros, os portões, as cordas, a disciplina. sim, porque ele esteve a tirar um curso de obediência cega na gnr e a ordem que melhor aprendeu foi 'destroça', e ele corria a bom correr até se perder de vista. era raro o dia que não ia à praia. aparecia em casa a cheirar a algas e com o focinho arranhado. outras vezes desaparecia durante dias e eu percorria campos e ruas e acampamentos ciganos, em vão, para mais tarde ele aparecer em casa, exausto e com cordas esfarrapadas amarradas ao pescoço. diziam que o viam a esperar que o semáforo mudasse para verde para atravessar as ruas. o gorbi tinha, diziam os veterinários, uma otite crónica, e quando abanava a cabeça para sacudir a dor, ficava com as orelhas inchadas e tinha que ser lancetado. com a idade a doença agravou e ele deixou de sair de casa. os antibióticos eram cada vez mais frequentes e os anti~inflamatórios também. tinha-me dado jeito conhecer a Teresa naquela altura, e sorrio enquanto escrevo isto. deixei de partir de férias para cuidar dele. e ele sabia. fazia sopas que o ajudava a comer como se fosse uma criança e repousava a sua cabeça no meu colo. fiquei sempre com a culpa de não o ter tratado melhor, de ter demasiadas vezes tentado atenuar a sua dor com medicamentos. um dia, e nessa altura eu vivia realmente numa casa de campo, tinha-o deixado a descansar por baixo dos pinheiros, e estava eu na cozinha a preparar o almoço, quando senti a brisa que ele provocava quando passava por mim. mas ele não estava, tinha passado para se despedir. fui encontrá-lo morto no mesmo sítio em que o tinha deixado, no meio dos pinheiros. afaguei o seu pelo já sem brilho, peguei numa pá, abri um buraco e enterrei-o. reparo agora que não chorei a sua morte. assim como não chorei a dos que me morrem e nunca morrem em mim.
o Pires era um professor universitário. empenhava-se muito na sua profissão e andava sempre muito cansado. ora, convém referir que o Pires tinha barba, que por preguiça sua, cobria-lhe o rosto. um dia, o Pires saiu da faculdade, sentou-se num banco de jardim e adormeceu. os seus alunos, ao verem o professor adormecido, resolveram pregar-lhe uma partida. então pegaram numa tesoura e cortaram-lhe a barba. quando o Pires acordou, viu o seu rosto reflectido no vidro de uma montra, e, não se reconhecendo, disse: - Pires era, Pires sou, tinha barbas, quem mas cortou? cofiando (o meu pai não utilizava este termo, mas aprendi-o eu recentemente) a pele onde na véspera tinha pêlos, lembrou-se: - vou à casa do Pires, se não estiver lá o Pires, então Pires eu sou, se lá estiver o Pires, então quem diabo eu sou? e pronto. ficava eu com os olhos arregalados perguntando como acabava a história, e pedia ao meu pai que a repetisse todas as noites até eu adormecer.
conforme lhe disse, pus o cristal na mesa da varanda para energizar. desta vez lembrei-me. e acendi uma vela à lua, a ela que me lembra o meu lado feminino, maga, criadora. envolta num xaile branco, olho para ela enquanto lentamente define a sua luz no céu de azul azur do final do dia. agradeço a bonança e a capacidade de perceber a paz, enquanto ela existe.
a mulher abre os olhos, fixa-a, e pergunta-lhe o que é ser mulher. responde-lhe que é celebração da vida. tinha a resposta antes de formulada a pergunta. olham-na as duas e aguardam. sim, ser mulher é a celebração da vida, mas estamos esquecidas - gerar, criar, alimentar, a alegria, a força, a cura, a sensualidade, a sabedoria, o ritmo, a magia, o fogo, o calor, a resiliência, as lágrimas, a languidez, o lar, o perfume, cuidar. ao tentarmos ser iguais, perdemos a nossa essência.
ele e ela atravessam o parque lado a lado. ela traz na mão uma garrafa de um litro e meio de água, imagino que a partilhem se tiverem sede. ele leva um saco do lidl cheio de compras. vão chegar a casa e vão os dois arrumar as compras no armário, abrir duas cervejas e estender-se no sofá, encostados um ao outro, a ver um dos filmes gravados durante a semana, para ver ao sábado. caminham lado a lado. na caixa do supermercado, o homem pousa, a medo, uma garrafa de brandy, entre a caixa de ovos e as embalagens de carne, como se a quisesse esconder. 'depois eu pago', diz para a mulher que tem um corpo com o dobro do tamanho do dele. 'deixa lá', responde-lhe ela com expressão de condescendência. ele, grato, saltita com o carrinho onde vai guardar as compras, e, sob as orientação dela, acondiciona cuidadosamente tudo o que, quando chegar a casa vai colocar exactamente nos lugares que ela disser. depois, vão assistir ao programa da tarde da tvi e ele vai tomar a bebida para lhe dar coragem para ser homem, mais uma vez, e com sorte, até levantar a voz à mulher. eu atravesso o parque com o saco das minhas compras na mão. reparo nos homens que se juntam para jogar futebol, sorrio para os pardais mansos que me observam das árvores, noto que já se avista a lua e que está quase cheia, e penso que tenho que pôr os cristais a carregar, guardo o verde tenro das árvores para pousar nele, que não tenho e que trago colado a mim. quando chegar a casa, vou arrumar apenas o que tenho que guardar no frigorífico, o saco vai ficar no chão a fazer companhia aos outros, e vou mudar o vaso do tomateiro que comprei de manhã, para com as folhas fazer um repelente de larvas biológico. recuso o convite para o teatro que acabei de receber, e passarei a noite a pesquisar receitas vegan para o catering do retiro. escrevo isto e fico a pensar se devo fechar a caixa de comentários. acabo por nunca o fazer, faz-me lembrar as conferências de imprensa sem direito a perguntas.
o meu amor vive longe do mar, e a distância dele faz os seus dias cinzentos mesmo se forem de sol. então eu, para que a saudade não o entristeça, caminho descalça onde as ondas se desfazem na areia, salpico o meu corpo com a espuma perdida no ar, guardo o vento nos cabelos desalinhados e guardo todos os tons de azul e o verde das algas, no olhar. quando o meu amor me abraçar, matará saudades do mar, mergulhará em mim como se fosse nas ondas, sentirá o sol quente na pele e brincará com os pequenos grãos de areia escondidos nos recantos do meu corpo. eu sei que quando ele me abraça, não é a mim que abraça. ele sabe que quando me abraça, eu sou mar e horizonte e aves e alimento e descoberta e infinito e terra firme.