hoje fui tomada pelo medo outra vez, um velho medo conhecido. o medo de ter medo, o medo de que o corpo falhasse.
tudo isto porque amanheceu um dia de sol, e eu sei que me faz falta, o rio e o mar e as árvores e o vento e o som que fazem as folhas secas das árvores ao serem pisadas pelos meus pés e tocar nos troncos e falar com eles lá de cima e gravar tudo no meu olhar para que quando olhares para mim não seja só a mim que vês mas todos os lugares por onde passo e que respiro.
então a luta contra o medo é tão grande que eu fico cansada, pois eu conheço-lhe as manhas todas, as justificações, os avisos sarcásticos, a manipulação. e sei também todas as estratégias para o combater, para o ultrapassar. comprimidos em tudo o que é bolso ou bolsa, o telemóvel à mão, distrair o pensamento, saber que aquilo passa, sempre passa. e enquanto escrevo isto, o coração acelera e bate na garganta, os ouvidos entopem e os apitos aumentam, e, embora eu saiba que passa, porque passa, eu sinto.
também sei que isto volta quando eu estou segura de que o ultrapassei. como se estivesse à espreita, para me apanhar desprevenida, como se me quisesse fazer um exame, a prova dos nove.
e vem de formas diferentes. e quando eu estou mais distraída.
já me deixou prostrada na rua, com medo de atravessar para o outro lado, medo de espaços sem muros, sem limites, tacteando paredes à procura de apoio, raspando a mão em muros de pedra para que a dor me distraísse, percorrendo auto-estradas pela berma, pedindo ajuda aos anjos para chegar, e a chegar, de cama, com crises de vertigens, a vomitar para um balde, com o peito a chocalhar de tanto batimento descompassado e acelerado.
e depois, ele, o medo, ri-se, quando, exames atrás de exames mostram que tecnicamente (dirias tu) está tudo bem comigo.
mas depois apareceu-me isto, e os minutos 8 ao 10 disto, fizeram-me regressar a mim, a parte do que eu devo ser.
[e isto é uma coisa sobre a qual eu não gosto nada, mesmo nada de escrever, mas tenho que o fazer, pois escrever, é, muitas vezes, exorcizar. só tenho pena de não ter jeito para metáforas, porque ia ficar muito bonito]



